28 de dezembro de 2010

Perigo

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Um na linha da cal e outro na marca do pênalti. Num ringue, alguém arrisca um cruzado. Numa roda, com a língua, vem o golpe. Um bate e outro apanha. E cada um corre o seu perigo.

23 de dezembro de 2010

Casualidade

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Sentou-se para esperá-la. Havia mais de uma hora que entrara na loja, não deveria demorar para sair. Fosse em outra época, seria bem mais fácil. Quando criança, quantas vezes não fez uma cartinha para expressar o que sentia! Mas a vida agora é outra, não cairia bem para ninguém escrever coisas assim. E se era patético o que fazia, só ele sabia. No mundo adulto, isso não é problema.

Ela finalmente saiu e foi à praça de alimentação. Ele a seguiu, fazendo o possível para não ser notado. Mais tarde, como se não a tivesse visto, fingiu surpresa ao se esbarrarem.

 Você por aqui?
 Pois é!

Falaram-se por algum tempo, coisas da vida, mas ela se lembrou que precisava ir. Estava com a agenda cheia! Ele compreendeu e a liberou sem pestanejar. Deixou um beijo em seu rosto. Depois, antes de dormir, ficou torcendo para não tardar o dia em que a encontraria, de novo, casualmente.

21 de dezembro de 2010

Fila

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Ela anda e leva a todos. Essa artimanha da ordem é a representação fidedigna de como e do quanto não há organização ou criticidade. Só parece haver critérios quando se forma uma!

No mundo adulto, pouca coisa faz mais sentido que uma fila indiana. É o ser humano visto pela nuca.

15 de dezembro de 2010

Conteúdo

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A coca-cola toma o formato de uma garrafa (ou latinha), a não ser quando a despejamos num copo. Poderá ter a medida que quisermos, bastando, para isso, trocar de recipiente.

Com os relacionamentos, em tempos de twitter, orkut, messenger, algo bem parecido acontece: mudam de forma a cada nova ferramenta.

9 de dezembro de 2010

Juras

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Romantismo líquido é dose. Dizer o amor por Twitter? Juras são tão importantes que deveriam proibir de fazê-las em público, assim como é vetado denegrir um patrimônio histórico. Não se diz essas coisas por mensagem instantânea.

Sou do time que considera o que vem do coração tão íntimo que só pode ser falado a sós e depois de anos. Oras, quem me é importante sabe, mesmo que jamais tenha escrito a respeito em sua página de recados no Orkut.

2 de dezembro de 2010

Relógio

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Jornais vão para a reciclagem, outdoors são trocados. A cada dez palavras, sete se perdem. Três ficam na memória, mas o ponteiro do relógio avança, e avança tanto que, a certa altura, só resta uma. Um disco risca o céu, mas, ao ser visto, já passou.

Não tem jeito: a informação sempre é muita e o tempo é sempre pouco.

24 de novembro de 2010

Entrega

A mesa redonda servia de palco para o desfile das cartas de baralho e para o álcool. Além disso, só um cinzeiro limpo. Pensamentos formulavam estratégias, enquanto se despia. Naquela noite, estendeu os braços para frente e deixou que os olhos se enchessem de água. Com a voz um pouco trêmula, reviveu comovida, palavra por palavra, o que havia ficado para trás.

Tirava a roupa para alguém: não haveria prova maior.

20 de novembro de 2010

Dálias

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Era um Café de ótima decoração, com um balcão de pouca largura onde se via desenhado a Dália Fada do Outono. Sobre ele, uma Dália real: a Moonfire. Perolada e alta, só não chamava mais atenção do que a tela pintada pela proprietária do local, Ruth. Na imagem, mãos de um corpo humano-animal seguravam o Livro da Vaca do Céu, mas sem tocá-lo.

Quando Mafalda entrou, logo viu a pintura. Parecia-lhe Salvador Dali. Pensou em comentar algo, mas limitou-se a fazer o pedido. Lembrou-se que estava ali pelo aroma que se espalhava pelo quarteirão.

Ruth sentou-se à sua frente. Diante do olhar inusitado da cliente, fez um comentário: "O dono dessas mãos teria dismorfobia, não acha?". E ambas ficaram à vontade, afinal, a comédia rende boas impressões. "É, acho que sim!", respondeu Mafalda, abrindo um riso quântico.

16 de novembro de 2010

Ela, ele e Saint Exupéry

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Não por acaso, lembrou-se de O Pequeno Príncipe, onde lera na pré-adolescência, embora a história do principezinho seja mais importante para os já crescidos: “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Estava diante de seu arco-íris imaginário e isso não era pouco. Para explicá-la o quanto era significativo, disse: “Amo você”. Para ela, foi tão emocionante quanto ganhar o primeiro beijo  ou como vê-lo de novo pela primeira vez. Tanto tempo! Dias, meses, anos, rugas.

“Também amo você. Eu sempre amei”. Um sorriso mostrou-se em paz. Depois, outro. Neste planeta, neste estranho e cinza planeta, parece não haver muito sentido, a não ser quando se vê com o coração. E se ninguém o entende, é porque não se ama com a cabeça, o que explica quase tudo.

11 de novembro de 2010

Inócuo

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“Não morda a mão que te alimenta”. Provavelmente, aí está o que diferencia cães e homens.

3 de novembro de 2010

Homo

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Somos todos iguais, embora cada um tenha sua particularidade. Mas, ainda assim, somos como um e um: sonhadores, famintos e incrédulos. Na praça, agora mesmo, é possível ver. No metrô ou num avião também. Debaixo da terra ou perto do céu: make each impression a little bit stronger and it will be easy to notice.

31 de outubro de 2010

Insuficiência

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insuficiente / sem o apreço
sociável / de mesma opinião

indecente / o quinhão e seu preço  
inevitável / negociado no porão

26 de outubro de 2010

Sobre os valores de Castor (parte final)

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Castor pede licença e entra. Atrás da mesa, há uma moça muito bem educada e, ao seu lado, a jovem que levou para a cama na noite anterior. As duas esboçam um simpático sorriso, embora mecânico.

A primeira começa a falar enquanto a segunda lhe traz documentos e uma caneta. Elogiam sua disciplina e dizem que a empresa é grata por todos os serviços prestados. Comunicam, enfim, que é preciso remanejar o quadro de funcionários.

Castor entende o recado: está sendo demitido. Seus serviços já não são necessários. É hora de renovar o pensamento, substituir o velho pelo novo.

Questiona os motivos, pede para conversar com o encarregado do setor, “aquele menino que entrou aqui há pouco tempo”. Não adianta, não querem lhe propor acordo, querem apenas que ele assine o papel e retorne para casa. Há trabalho à fazer para quem permanece.

Castor segura a maldita caneta e escreve seu nome no lugar indicado. Suas mãos tremulam, mas as moças fingem não ver. Batem o carimbo no documento. Prometem lhe pagar tudo o mais rápido possível, como se a certeza de ter direitos o fizesse se acalmar.

Ele volta para o portão e por uma primeira vez coloca os pés na rua antes da hora do almoço. Um pouco desorientado, retorna ao ponto de ônibus. Senta-se de cabeça baixa à espera do próximo circular. Tira algumas moedas do bolso e conta os trocados. Tem a quantia exata para voltar. Permanece calmo, apesar de magoado.

Por fim, o velho Castor chega em casa, se joga no sofá e tira seu sapato. Catarina está na cozinha e não o percebe. Ele não sabe o que dizer a ela quando se encontrarem. Ao menos, não passou no bar para beber.

O desânimo ameaça lhe abater, mas ele é forte o suficiente para não permitir que isso aconteça. E, para ludibriar os pensamentos, diz a si que, ao menos da próxima vez, poderá acompanhá-la na feira e escolher, ele mesmo, os espinafres.

25 de outubro de 2010

Castor, 8

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A segunda-feira chega e o mundo recomeça. Na mesa do café, Castor come pão com margarina e bebe leite de vaca, mas dessa vez sem chocolate em pó. E quase fim de mês e alguns produtos terminaram junto com o salário.

Catarina comenta qualquer coisa, mas ele não a ouve. Está com o trabalho na cabeça e não tem ouvidos para outra coisa. Come rápido e, por fim, parte para enfrentar mais um dia de ônibus lotado.

Quando sobe no veículo, cumprimenta velhos conhecidos. As valetas são horríveis, mas não reclama: faz o trajeto há tanto tempo que prevê os pontos ruins. Percebe que o número de passageiros mais jovens tem aumentado e diz a si que é por causa das novas exigências do mercado. É preciso custear estudos e sonhos.

Termina por pensar que, anos mais tarde, serão todos velhos conhecidos. É demasiado ruim vender uma vida inteira por poucos salários, mas nem todos têm a sorte de tornar as coisas diferentes. Acontece.

Quando enfim chega ao emprego, não lhe deixam bater o cartão. Castor acha isso muito estranho, afinal, há 25 anos faz o gesto sem que ninguém o interrompa. 

- Estão lhe chamando no RH.

Caminha ao local, convencido de que deve ser mais um destes treinamentos de hoje em dia. “Antes era diferente, todo mundo trabalhava mais”, pensa. E quase que de modo automático rememora todo o tempo que está ali, semana a semana.

24 de outubro de 2010

Castor, 7

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Pouco antes de dormir, Castor faz uma reflexão sobre seu último dia. Toda noite é da mesma forma. Traz à memória o emprego, a família, a saúde. E dorme em paz.

Mas dessa vez está com peso na consciência. Tem Catarina ao seu lado, mas não pensa nela. Pensa na nova menina da fábrica. Ela trabalha no escritório, mas vai à produção todo dia para levar alguns documentos. É uma jovem de 20 e poucos anos, tem os cabelos pretos e a pele clarinha.

Todos os homens da fábrica a admiram, mas Castor faz do gesto uma prova de sua sinceridade peculiar.

Quando a vê, a imagina nua. No começo ficava envergonhado de si, mas depois passou a separar o fato de suas intenções. No entanto, agora é diferente: nunca havia trazido esta idéia para a cama. Que idéia atroz!

Tenta dormir. Sente-se infeliz por aquele momento e diz a si que tudo é culpa da rotina de tantos anos. Pensa em como seria bom se as coisas fossem diferentes. Se ao menos Catarina se cuidasse.

Mas mantém-se firme. Afinal, convence a si que não há dia bom sem os ruins, nem ruim sem os bons. E, além de tudo, ainda há mais: amanhã haverá muito trabalho à fazer e não é hora de pensar em bobagens, mas de descansar.

19 de outubro de 2010

Castor, 6

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O padre está particularmente mais sereno. Fala baixinho e faz um sermão bastante ameno. Castor não é católico fervoroso, está longe de ser, mas acompanha sua esposa às missas dominicais e cumpre os rituais de dentro da paróquia.

É verdade: sente certo alívio toda vez que o compromisso termina. Não gosta de como algumas pessoas o olham enquanto reza e acredita que estão ali por causa do statu quo. Chateia-se.

Catarina lhe diz que não é certo ter menos fé por esse motivo, mas ele não consegue ser diferente.

Quando retorna, busca algum tira-gosto e liga a tevê (como sempre). Tem a impressão de assistir a mesma atração da última semana. Mas não, é outra coisa, embora a fórmula seja exatamente igual.

17 de outubro de 2010

Castor, 5

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Castor acorda e caminha para o desjejum. Catarina está lá fora, varrendo a calçada, conversando com os vizinhos. Ele come devagar. Pela janela, a olha e sente-se bem por tê-la ao lado.

Ela entra e comenta sobre o último caso do bairro. Castor dissimula, não tem a menor vontade de saber da vida alheia. Pensa em dizer algo a respeito, mas se mantém calado.

Nota movimentos do lado de fora e percebe que o jornal chegou. Senta-se entretido com a leitura. Bate à porta um vendedor de tapetes. Depois, um militante partidário. Dispensa tanto um quanto o outro.

Um jornal e vários programas na tevê depois, sente o cheiro vindo da cozinha. O almoço está pronto: macarrão ao molho vermelho, purê de batata e coca-cola. Come em demasia, volta ao sofá e dorme até a hora do jogo.

O relógio o desperta. Programou-se para acordar no momento exato da partida. Pede para sua esposa preparar pipoca e ela o atende sem pestanejar. Traz refrigerante, mas ele se levanta e busca cerveja.

Quando o jogo termina em 0 x 0, fica frustrado. Uma semana de espera para a partida terminar assim, empatada. Reclama sozinho e diz que aqueles jogadores não merecem o dinheiro que ganham.

“Pernas-de-pau”, resmunga, e vai ao banho, enquanto Catarina lhe apressa, pois já estão atrasados para a igreja.

16 de outubro de 2010

Castor, 4

É sábado e Castor acorda bem mais tranqüilo. Há coisas à fazer: o ferro de passar precisa de reparos e a pia do banheiro de conserto. Gasta a manhã em afazeres domésticos e senta-se para o almoço. Percebe que Catarina ainda está na bronca e se resume a falar só o necessário. Ela, ao contrário, fala bastante. Diz que o bairro comenta coisas horríveis da vizinha. Ele diz que dar ouvidos é bobagem. Depois senta-se no quintal para fumar, enquanto ela estende roupas no varal.

 A que horas as meninas chegaram?
 Um pouco antes de o sol nascer.

Reflete que isso não está certo, mas nada diz. No fundo, sabe que Catarina se encarregará de mantê-las na linha. Entra para um cochilo. Antes, faz a barba e apara o velho bigode que o acompanha há anos. A noite chega e ele se desmonta no sofá. As filhas conversam pela internet e sua esposa dorme com o cachorro no colo. Faz de tudo para não acordá-la. Pega o controle-remoto e troca o canal.

Mas Catarina acorda, muda, e vai para o banho. Castor rememora momentos em que isso não acontecia sem que estivessem juntos. Depois, diz a si que o tempo passou e que já estão velhos demais para se amarem feito jovens. Por fim, abandona os pensamentos, ao passo que começa seu noticiário predileto.

Já na cama, pensa em abraçá-la, mas se contém. Pergunta a si o motivo e não consegue responder.

11 de outubro de 2010

Castor, 3

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Retorna à casa e tropeça na porta ao entrar. Reclama do chão mais acentuado naquele lugar e promete a si mesmo dar um jeito naquilo. Está muito bêbado e Catarina lhe dá broncas e mais broncas por causa disso. Ele a ouve, mas permanece calado o tempo todo, pois sabe que está errado e nada pode fazer.

Suas filhas se despendem, vão para a noite, pedindo para que ambos parem. Catarina diz a elas que não os amolem, afinal, ainda são crianças e aquilo é coisa de adulto. Mas já não são crianças, têm 14 e 16 anos, e ela sabe disso, só não quer admitir.

Castor se dirige ao quarto e despenca na cama, com sua esposa lhe atormentando atrás. Ela diz que o ama por tudo o que há na casa, mas que sua tibieza esmorece o lar. Se o elogia no atacado, critica no varejo.

Mas ele nada ouve e, devagar, o sono começa a vir; e esse momento é maravilhoso, quase sublime, afinal, concomitantemente, a voz nervosa de Catarina vai, aos poucos, desaparecendo.

8 de outubro de 2010

Castor, 2

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Quando acorda, sente uma alegria singular, afinal, é sexta-feira! Foi uma semana difícil no trabalho. É cada vez mais difícil se locomover até a fábrica. Porém, como a vida inteira aprendeu que o trabalho dignifica o homem, não reclama das coisas. Para ele, é quase um pecado.

No café, come pão com margarina e bebe leite de vaca com chocolate em pó. Catarina comenta que é dia de supermercado; ele entende o recado e tira da carteira a sobra do salário. Ainda é começo de mês, mas já é preciso refazer as contas. Ela lhe pergunta o que quer da feira e ele pede espinafres.

Suas filhas acordam para a escola e pedem dinheiro para a noite. Aperta-lhe o peito por não ter mais nada no bolso. Havia separado alguns trocados para o bar, mas entrega a elas. Diz a si que, depois, se acerta no boteco.

O desânimo ameaça chegar, mas Castor termina por se lembrar que há happy hour com os amigos após o trabalho. Além disso, o domingo está chegando, com seu futebol na tevê. Levanta-se revigorado, mesmo com sua esposa lhe cobrando para não beber em demasia ao voltar.

7 de outubro de 2010

Sobre os valores de Castor

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O velho Castor se joga no sofá e finalmente tira os sapatos. Reclama que são apertados demais e pede que lhe tragam café. Na sala, as duas filhas conversam sobre a escola. Atrás de si, Catarina, sua esposa há 30 anos, mantém o sorriso fechado.

Uma das meninas, Carina, vai buscar a bebida, enquanto Catarina lhe cobra que pare com o álcool. Diz que mesmo o café já não tira o cheiro ocre de sua boca e que pretende deixá-lo, caso as coisas continuem do mesmo jeito. Está blefando, e ambos sabem disso.

Patrícia, a caçula, mostra aos dois um toque novo que pôs no celular. É a música de uma nova boy band, e ele vê que as músicas de hoje já não são como as de antigamente. Quando o café chega, liga a tevê e coloca em seu canal favorito. Esse é um dos momentos mais aguardados do dia, e ele saboreia cada imagem como se fosse única, embora saiba que, no fundo, são todas iguais.

O cão de estimação pula na janela e quer entrar. Castor o autoriza e sua esposa abre a porta. O bicho pula no sofá. Passa horas vendo tevê, fazendo cafuné no felpudo. De tempos em tempos, grita para Catarina e ela, da cozinha, lhe traz tira-gostos sem pestanejar.

Quando termina o programa, um telejornal visto por ele como “o mais real de todos”, se levanta e reclama de tudo. Diz pra si que vive num país desigual e que, fosse ele o presidente, muita coisa mudaria, embora sem igual coqueluche.

“Ao menos, eu respeitaria o dinheiro dos outros”, diz, e vai ao quarto, dormir, pois é quinta-feira e no dia seguinte, já cedo, será preciso pegar dois ônibus para o trabalho. 

30 de setembro de 2010

A beleza posta à mesa

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Como a beleza raramente sobrevive ao mercado, mas é bem vista, toda prateleira expõe desde seu mais singelo item o brilho de marcas e produtos.

É por isso que vinho e macarrão ao molho branco caem bem num encontro. O que saboreamos é o belo travestido em marcas, um código aceito por todos (até porque o mercado tem por hábito socializar a propaganda, embora não faça o mesmo com o consumo).

23 de setembro de 2010

Sortie

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Em O amor em fuga, Christine diz à Antoine Doinel: “Não sou muito inteligente, mas sei que escrever para acertar contas não é arte”. Palavras em flechas são apenas saídas, tagarelices de um mundo onde o silêncio não tem vez.

Doinel dissimulou, como faz um apaixonado diante do vão entre o não e o sim.

16 de setembro de 2010

Programe-se

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Estréia amanhã o filme Soberano, que narra o hexacampeonato do São Paulo FC. Além do depoimento de torcedores, o longa traz entrevistas com nomes importantes para a história do clube, como Waldir Perez, Careca, Raí, Muricy Ramalho e Rogério Ceni.

Soberano - Seis Vezes São Paulo
Direção e roteiro: Maurício Arruda e Carlos Nader
Canções Originais: Nando Reis

Doc. /90 minutos
Livre

9 de setembro de 2010

O novo do novo do novo...

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Rever, reorganizar, reinventar: qual sabor é mais doce que o de reconstruir seus pontos de vista?

3 de setembro de 2010

Aroma (ao vivo)

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Segue vídeo de "aroma", minha música preferida do 0 um / zero 9.

31 de agosto de 2010

Berenice e a travessia

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Berenice olha para a filha e rememora o passado. Tantas noites em claro, tanto por-vir imaginário. Depois pensa: este é o vão entre o não e o sim quotidiano.

Longo caminho: quem está disposto a percorrer?

30 de agosto de 2010

Berenice e o relógio

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Quando o relógio da cozinha desperta, Berenice sabe que todos chegarão para o almoço: o marido do trabalho e as filhas do colégio. Então pede dinheiro para a feira e comenta que há telefone para pagar, no que as meninas levam esporro: a conta está cada vez maior. É preciso dar um jeito nisso, afinal, ainda há parcelas do veículo, IPTU, escola, seguro da casa etc. e etc.

Todos se levantam apressados, ela se chateia com o tempo, o acha ignóbil, e o dia se fecha. Berenice, contudo, não percebe o óbvio: reclama do que não há como impedir e aceita o que poderia ser evitado.

27 de agosto de 2010

Berenice e a janela

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Pela janela, Berenice olha a filha e vê a rua. Dois namorados se abraçam no portão (e o mundo se resolve).

26 de agosto de 2010

Berenice e a caixa

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Dentro da caixa, há mais cores do que nas prateleiras do mercado, embora, se pensarmos bem, cores são sempre em demasia. Lá dentro, o risco é calculado e a verdade é entrecortada, afinal, a exatidão dos fatos precisa ser editada para ser convincente.

E segue a liberdade pouca, até porque nem tudo se compra em mercados, embora sejam eles contingentes o tempo todo.

Berenice não distingue: aquilo é um retrato das coisas ou a vida é um retrato daquilo? Ela não percebe o óbvio: ali não se retrata as coisas como elas são. Nada é neutro. Em suma, linhas editorais sempre irão ferir alguém.

25 de agosto de 2010

Berenice e a saída

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Berenice procura travesseiro e consolo. Reproduz o discurso festivo que a Rua viu no Horário Eleitoral e mantém sua lógica binária. Sente-se com sorte, pois tudo chega à sua casa sem aparente esforço. Afinal, embora o consumo não seja socializado, sua propaganda é.

Não se indigna: ao contrário, milita. Desconhece o real valor do Rádio, da TV, dos Jornais, do papel e da caneta. Tampouco que a vida, assim como a arte, pode ser tudo, menos qualquer coisa. Que tudo é cinza por construção.

Dilma, José, Marina, Plínio. Tantas Marias por aí e o povo ligado em só quatro delas. Berenice, entusiasta, sequer percebe: propaga outra vida, não a sua. Embora a idéia, em si, seja a única porta de saída.

24 de agosto de 2010

Cânone

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Um romântico vê os olhos de outra pessoa. Um obstinado vê seu objetivo como verbo. Um solitário passa os dias de si para si. Um cão espera pelo dono no portão. Um diplomata tenta entrever o trabalho por trás de cada um. Um fotógrafo admira o azul do céu. Um narcisista procura por espelhos. A cozinheira corre contra o tempo, e o presidiário tenta apressá-lo. Um estudante espera pelo futuro. Um músico rememora um acorde. Uma modelo sobe na balança.

E assim por diante: o apreço de um diante do avesso do outro.

23 de agosto de 2010

Redoma

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Há uma incongruência na pós-modernidade: nos lugares onde há futuro, não se vive o presente. E onde o presente pode ser vivido, parece não haver futuro. Dias liquefeitos preenchem a cisterna do tempo de acordo com o que está em voga; não são páreos para o contemporâneo  e a explicação, provavelmente, é que tudo é uma redoma.

22 de agosto de 2010

Domingo e Zé Ramalho

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Depois de calejar a mão a semana inteira, finalmente é possível deitar o corpo no sofá e assistir tevê sem se preocupar com o tempo. Pôr um filho em cada braço, consertar a geladeira, jogar conversa fora, visitar pais e primos. Depois tem macarrão, Faustão, esportes e missa.

Lá fora faz um tempo confortável e a vigilância cuida do normal. Sonham com melhores tempos. Esperam novas possibilidades. Povo feliz.

21 de agosto de 2010

O sol da manhã

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Levanta-se revigorado, calça os chinelos, bebe o café, acaricia o cachorro. Vida em trabalho.

Deita-se exausto, rememora os flagelos, revê sua fé, debilita-se de novo. Vida em atalho.

O sono vem; ao fechar a porta, o estorvo: pensa em parar.

Revigora-se, porém, ao abri-la de novo; ao ver o sol entrar.

19 de agosto de 2010

Só para quem lê por trás das frases

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Quem visita este blog deve compreender, como princípio estético, que sou absolutamente apaixonado por vírgulas.

Fora isso, só o fato de que sei, porque também me convém, que no "mundo adulto" há cores em todo lugar, e até em demasia, embora tudo me pareça blasé. Inclusive o que não é.

18 de agosto de 2010

Marias

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Compreendo Dona Maria. É difícil crer num mundo que lhe vira as costas, do motorista do ônibus que, fatigado, não tem paciência para esperá-la ao patrão que, mesmo sabendo ser impossível, lhe cobra banheiro limpo.

Ocorre que a escola que lhe mostram na tevê não é a dos filhos. Dizem que a segurança aumentou, mas ela sente na pele que isso não é verdade. Adoece por tanto trabalho e, como prêmio, consegue comprar presentes em alguma data comemorativa. Felicidade resume-se em não passar frio, comer e conseguir presentear os mais próximos.

Ceticismo é compreensível, embora, no fundo, Dona Maria e tantas outras têm o espírito esperançoso de poucos!

17 de agosto de 2010

Aquarela

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Os livros de História dizem que ainda estaríamos grunhindo em busca de comida e calor se a vida não fosse um eterno reinventar. É por isso, e só por isso, que tanto se faz preciso toda e qualquer tinta: para espalhar nossa idéia a partir da aquarela que dispomos. Embora o mundo seja cinza, ou esteja, há mais cores do que possamos compreender, e essa pintura incongruente é a nossa expressão.

And all that there is to say is: this painting will be our remembrance in the future.

16 de agosto de 2010

Direitos

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Dona Maria, do seu modo, sabe que o problema é grande quando direitos básicos e essenciais à vida se transformam em benefícios. É por isso, e só por isso, que é cética com a causa pública: comer e não ter frio, por exemplo, são ataviados e chegam à sua casa, aos outdoors e à tevê como um presente! Fazem, dos direitos, festim.

Não é inocente a ponto de acreditar nesse jogo. Ao contrário, conclui que não pode ser levado a sério um mundo onde há 70 pessoas no Lotação logo às 7 da manhã. É assim há décadas e não se faz nada para mudar. Prefere se preocupar com a casa, com o supermercado à fazer; e cansou-se do resto.

Afinal, já haviam lhe dito: as coisas são assim mesmo, um absurdo. É tão ridículo que só pode ser verdade. Dona Maria não sabe como mudar, é fato, mas também não acredita naqueles que dizem saber.

12 de agosto de 2010

Convicções

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Quando a gripe chega forte, quando o coração ameaça parar, quando o pulmão pede uma trégua, enfim, quando algo físico e concreto realmente mostra a sua força, o mais fiel dos crentes e o mais convicto dos céticos não têm a menor dúvida: correm ambos para a medicina.

O primeiro, contudo, irresoluto.

11 de agosto de 2010

Dissidentes


É óbvio que cada um vê o mundo a partir dos próprios olhos. É por isso, e só por isso, que um professor marxista russo e um jovem americano que estuda economia na GWU, a quatro quarteirões da Casa Branca, não usam óculos iguais.

Revela-se aí uma dualidade latente: é um viés do universo democrático, mas, ao mesmo tempo, é por isso que as pessoas se separam.

10 de agosto de 2010

Temporalidade

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Impressions about the adult world: today are these, tomorrow will be others.

9 de agosto de 2010

Fatos

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Se os conceitos estão inseridos num contexto, é o segundo que serve de verbo. Não é óbvio, portanto, que não há verdades absolutas?

Como dois e dois são quatro, me parece claro que, entendendo isso, todo diálogo se torna mais fácil. E o mundo se resolve: a chuva cai porque é da natureza, o homem trabalha porque lhe é conveniente, duas pessoas se apaixonam porque é da vida.

8 de agosto de 2010

Obrigações

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Dona Maria precisa de dois ônibus para atravessar a cidade, exceto aos domingos e feriados, quando os horários dos circulares minguam. Aí, é preciso um a mais.

Se a função do Coletivo é transportar força de trabalho, não é à toa que seja assim. Embora a placa na entrada do veículo informe que a Viação existe, apenas, para facilitar a vida.

Maria, contudo, não se importa. Já haviam lhe dito: as coisas são assim mesmo, nada é de graça. O dia de hoje serve de prova, afinal, foi uma luta para comprar um presente! O que lhe traz a certeza de que, se parar, não conseguirá cumprir sua obrigação na próxima data comemorativa.

7 de agosto de 2010

Self

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Trouxe à mesa a porção de fritas, prometendo trazer a coca-cola em breve. Anotou mais alguns pedidos. Em meio a centenas, pouco pensava nas horas seguintes, quando, já no quarto, estaria sozinha. Porque a multidão tem a habilidade de coibir barulhos internos. Percebeu que Dona Maria havia terminado a limpeza do banheiro. Meia hora depois, seria preciso repetir o trabalho pela quinta vez, e sem que ninguém notasse, a não ser que deixasse de fazê-lo.

Porque algumas coisas são assim: só são percebidas quando não acontecem. Seria com elas, e não só com o trabalho, assim também? Refletiu. Mas, de repente, largou seus pensamentos e apressou-se em levar a bebida à mesa, onde as fritas já quase haviam terminado e onde notavam, impacientemente, que ela era apegada a sonhos. Já haviam lhe dito: não há nada mais impróprio que um sonho em meio a pressa dos clientes.

5 de agosto de 2010

Topus

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Nem grandes idéias em convenções, nem a justiça dos tribunais de bar. Tampouco pudor, bom-senso, arte ou tira-gostos. Quem dera as cores diárias dos tantos arco-íris fechados em pastas, malas, armários e laptops. Muito menos um pensamento burguês.

Nada resolve o dia se não houver, guardado na memória, um lugar seguro que lhe sirva de retorno, com tudo o que há e cabe dentro. Ter para onde voltar justifica, por essa única razão, sair em busca de vida.

4 de agosto de 2010

Lista à toa, mas revisitada, de pessoas diferentes com algo em comum

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Louis Armstrong, o cara do trompete
Juba da Blitz
Márcio Túlio do Jota Quest

Cole e Dylan Sprouse, os irmãos
Bruna Marquezine
Machado do Estadão

Max Cavalera
Burle Marx
Marcos do Palmeiras

Pita e Kily González
Knut Hamsun, o Nobel
Keighley, entre dramas e males

Elizabeth Bowes-Lyon, a Rainha Mãe
E, até, ele:
Barack Obama!

Dae Kim, o Jin-Soo de Lost
O poeta Shelley
E o autor deste post

29 de julho de 2010

A verdade sobre os versos

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o sabor / o criar
o manifesto

tudo é verso / prazer
e me despeço

28 de julho de 2010

O manifesto

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Q.I de coração / amores da frieza
cognição

intuição
por fora gelo / por dentro vulcão

27 de julho de 2010

O criar

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escrever
revelar / desnudar
rever / deletar

reescrever
brincar / reorganizar
reler / reinventar

qualquer palavra serve
e me serve

26 de julho de 2010

O sabor

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por dentro é verão
interminavelmente

tenho minha cor
indubitavelmente

19 de julho de 2010

Crivo

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O que falta na congênita análise social é autocrítica. Perguntar se o caminho trilhado realmente é o melhor. Reciclar! O mundo está diferente e há quem não note.

15 de julho de 2010

Militância

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Mundo incongruente este: há de se ter o direito a uma causa para defender, mesmo que para isso seja preciso tolher a de outrem. A militância, em qualquer causa, termina por ser contraditória: deixa de ser a saída para um problema para ser a chegada de outro.

10 de julho de 2010

Devir

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"Processo", essa palavra é muito importante. Tudo está em constante transformação, num girar contínuo, feito um espiral. O que me lembra Paulo Freire, para quem o mundo não é, mas está sendo.

5 de julho de 2010

Cores

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Os raros leitores do Ideário sabem o quanto Dani e eu gostamos das tiras do Ryot. Recebi por e-mail uma que tem tudo a ver com as coisas que escrevo aqui. E percebi uma falha incrível: não havia o link para o ryotiras em minha lista de blogs. Com este post, está corrigido!

23 de junho de 2010

Digressões finais sobre Cora

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Revelado o poder do espelho, Cora voltou suas atenções para dentro de si. Queria descobrir o que havia lá dentro e estava convencida de que nada poderia ser maior. Não podia ter tão poucas cores: haveria de ter mais, outras e melhores.

Afinal, o que era sua vida senão um espelho do viés pelo qual idealizava o amor e seu poder sobre ele?

Outra Cora, a Coralina, de quem gostava muito, costumava dizer que o saber se aprende com os mestres, mas a sabedoria só é aprendida com o corriqueiro da vida. Ela adorava essa frase, porque lhe remetia a um tempo em que suas preocupações eram bem mais singelas, mas lhe encantavam muito mais. Sentia-se rica como nunca mais sentiu.

Apoiada nesta idéia, decidiu voltar a ser quem era 13 anos antes: uma estudante apaixonada pelo novo e irresponsável com os dogmas. Nada de certo e errado, de pode e não-pode, agora tudo seria, pelo menos por um tempo, como um dia foi.

Conseguiria? Seria capaz de voltar àquela jovialidade subliminarmente erótica e tenaz, com a qual tanto se envaidecia e despertava atenção?

Tinha convicção que sim. E mais: teria, agora, um repertório maior de digressões, teorias e referências sobre tudo, corpo e mente. Porque é dentro da cabeça que se processa todas as sensações exteriores, de tato e cheiro, de paladar, enfim...

Podemos ilustrar com metáforas, porque ela adora que seja assim, a distância percorrida do momento em que decidiu revigorar-se ao que se segue, quando vê a si em companhia de três pessoas no mesmo quarto: estende-se uma corda entre o cinza do céu e o da rua; devagar, porque não há que ter pressa, se sobe em direção ao céu; é certo que jamais se chegará ao destino, mas a determinada altura o firmamento estará azul!

Voltemos à Cora: ela já não sabe de quem é a boca, de quem é esta mão, aquela, o que tem perto ao rosto e de quem. Mas não se importa, porque é assim que era antes: vivia, não sabia como, não se perguntava, mas vivia.

Ela se vira de costas, ou alguém a vira, ela sente suscitar desejos escondidos, esquecidos, sente que ainda é a Cora de sempre e quer perpetuar este momento para o resto da vida.

Sabe que não é possível, mas acredita piamente que sim. São quatro pessoas completamente à vontade e ela, segura de si, fecha os olhos. Não quer ver, porque sentir lhe basta e é tudo. Percebe que todos exalam o suor daquela dança, algo tão característico que nem o cheiro do cigarro, do vinho e do mofo do quarto de quinta categoria é capaz de apagar.

Tudo ali é tão simples que chega a ser animalesco. E é justamente por isso que ela se sente feliz como nunca. Ali, ela é a Cora-humana, com seus poros, buracos, odores e expressões.

Não há roupa, marcas, pecado, moral e todas estas coisas que se é obrigado a carregar nas costas.

Mantinha os pés no chão, tinha também os braços, a palma da mão apoiada e flexionada a cada impulsão atrás de si. Mas estava no céu. E amanhã também estaria, independente do lugar em que estivesse.

22 de junho de 2010

Preto

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Não há nada que perdure no percurso da história. Tudo é, assim, uma fotografia de seu tempo.

E se algumas coisas são mais duradouras do que deveriam, talvez seja porque vivemos muito pouco, mas este pouco termina por ser muito.

Um século é uma brisa para a história – quando se vê, já passou –, mas é demasiado longo para um homem.

A verdade dogmática, por exemplo, dura tanto quanto a humanidade. Com uma venda nos olhos, se vê até o invisível. Ela se vende sempiterna.

Mas isso é menos importante para a história do que parece, já que é, também, uma verdade construída por ela. E, além disso, ainda há mais: não se deve tirar as verdades do mundo, quaisquer que sejam.

Tirada a fé, seja ela qual for, resta ao homem uma arma que ele não consegue manusear.

É por força de tal destino que se descolore sonhos e planos. E de nada adiantaria outras cores e respostas, se seriam refúgio apenas, se o ressentimento colore feito o branco – ou seja, não colore.

Torna-se melhor o preto da venda.

21 de junho de 2010

Cinza

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Neste mundo liquefeito, quase todo bipolar, uma palavra tomou a frente das outras: prioridade.

Já que não há como fazer tudo o que se tem a fazer, tornou-se preciso se render a ela, transformando-a em verdade universal.

Ocorre que a verdade é fruto de construção histórica e achar o contrário é transformá-la em dogma, coisa normal, mas não correta. E sabemos: há muito perigo em sua montagem.

Ocorre, também, que a prioridade de um define direta ou indiretamente o que é importante para outrem, ou ao menos para a sua escolha.

Ou não são as escolhas individuais que colorem o quadro dos dias?

A vida ordinária de pessoas comuns e a vida extraordinária da história: a frase é de Kundera, a práxis é inevitável e não encontro verdade mais crível e cinza que esta.

20 de junho de 2010

Branco

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Era um painel em branco.

Poderia desenhar flores, como desenhei, um coração, como também fiz, uma história, como não neguei. Deixá-lo fosco, como quase tudo por aí, eu não seria capaz. E poderia, depois de pronto, apagá-lo, como nunca quis, mas fiz.

Porque não se desenha com os olhos vendados: os traços ficam inacabados. Nenhum quadro fica pronto sem estar.

Jamais pensei em outra coisa senão no bem, o que implica uma aquarela à realidade. É assim na vida e na arte, como bem sabe Almodóvar, Banksy, A. Sauro e tantos outros. Qualquer pessoa que se vê no espelho compreende.

Com o contar dos dias, porém, termina por ser o quadro uma ilustração (uma rasura já é alguma coisa). E nada muda isso. O sol sobe independente da nossa vontade.

Torna-se passado.

Guardá-lo é o de menos, já que a memória é uma cisterna. A discussão é outra: não olhá-lo, ou escondê-lo, não o faz inexistente. Repintá-lo é inacessível. Esquecê-lo, impossível.

19 de junho de 2010

Digressões sobre Cora e o levitar dos pés

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Já disse neste blog que Cora gosta de metáforas. Mas há algo a acrescentar: nelas, ela vê o sentido de tudo. Diz a si que a memória é uma cisterna, o que é bom, mas não tem um filtro para separar as coisas boas das ruins, o que a torna um peso.

Até pouco tempo, olhava as pessoas pela janela: os jovens reunidos, os adultos com suas pastas, os velhos nas rodas de baralho. Havia uma praça diante de seus olhos com todas as contrariedades inerentes. Um mundo inteiro em poucos metros quadrados.

Mas agora seus olhos estão no espelho do quarto, de onde outra Cora surge. Ela sai da imagem refletida, desce a cômoda e posta-se à sua frente. Encara-a e diz que é e não é ela. Diz que é a Cora da imaginação, aquela que deveria haver, a que é capaz de ser dona de si.

Para provar, começa a levitar. Cora percebe, vê seu reflexo subindo em direção ao teto. E ele, lá de cima, diz não ser igual a esta gente que espera pelo final de tarde para crer em missão cumprida, nem suga no careta a paz para dormir.

Esta outra Cora não circula pelas praças para tratar de negócios e ler os jornais. Vive outra vida. Prefere seu inventário a estes impressos no adult world. Escreve seu próprio livro dos dias.

E, por um momento, ela se surpreende e se vê, também, saindo do chão. Seu corpo agora é leve e começa a subir vagarosamente até chegar à altura do outro. As Coras ficam tête-à-tête.

Beijam-se. Fazem amor.

Cora então percebe que encontrou outra metáfora ótima: é somente no namoro das duas Coras que ela poderá, enfim, tirar os pés do chão. Em outras palavras, é no encontro delas que irá se livrar do peso de carregar nas costas a vida densa de então.

Afinal de contas, se a memória é uma cisterna e disso não há como fugir, o filtro necessário está sempre perto: em qualquer espelho.

18 de junho de 2010

In memoriam

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"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros; e que, para a maioria, é só um dia a mais".

José Saramago (1922 - 2010)

17 de junho de 2010

Ao descer do sol

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Entre alegria e decepção, encontros e despedidas, o mundo adulto se faz independe da dor que pode causar ou do prazer que pode trazer. Não há como, portanto, deixar à nossa escolha fazê-lo ermo ou sucumbir ao caos do que é mal-resolvido.

No entanto, cada um é dono de seu caminho e único responsável por ele. Do nascer ao descer do sol, há uma vida acontecendo e um relógio em cada pulso.

15 de junho de 2010

Digressões sobre Cora e os pés no chão

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Mesmo se pudesse, Cora não conseguiria voar. Porque suas costas são carregadas de coisas densas, o que lhe traz a certeza ingrata de que sequer vale a pena tentar.

Por hábito, fuma diariamente um cigarro às 2h30, uma hora antes de deitar-se para dormir. Há dez anos é assim, quer esteja em casa ou em outro lugar. Mais que uma necessidade, o gesto é a expressão retórica de sua rotina metódica. Quando diferente ("oh, me esqueci de comprá-los!"), se torna mais difícil descansar, embora nem tanto dormir.

Coisa que faz pouco, desde sempre, mas especialmente neste último ano. Sozinha, sente-se distante de si. Trabalha demais. Apoia-se nos clichês de todo dia para encontrar a razão de seu quotidiano. Mas, ao passo que se enche de preocupações, torna vazio o sentido disso tudo.

Como um luthier que, embora sabendo minuciosidades sobre a construção de um instrumento, mal sabe diferenciar um compasso binário de outro qualquer.

Gosta dessa metáfora. Ela parece traduzir a condição de vida ao redor, já que tudo em seu mundo, como aqui, como em muitos lugares, fica pronto sem estar.

No fundo, Cora sabe que é preciso sair dessa. Mas como chegar a outro céu?

Ela não sabe. Suas ilusões são tão adultas que não lhe sobra idéia alguma. Já não acredita mais no que não lhe parece possível.

Ela mantém os pés no chão.

13 de junho de 2010

Quaternária

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Se fossemos dividir a vida em quatro, haveria uma dualidade um tanto curiosa: seriam irmãs as partes um e quatro, bem como as duas outras.

Estaria na primeira nosso leque de preocupações singelas: brincar na rua, escolher um time do coração, descobrir o que há depois da esquina, provar sabores desconhecidos (qual o de um caju?), conhecer palavras novas etc. Estaria aí o luxo de se importar com coisas banais.

Às duas seguintes, ficaria reservado o abstrato. E a luta para tirá-lo do papel. Por ser a realidade mais complexa que a teoria, surgiria o leque das dúvidas e, por conseqüência, as escolhas que ele nos exige. Ficaria a certeza de que não podemos, jamais, nos dar ao luxo de não saber das coisas grandes: as artes, o trabalho, a eloqüência, a ciência. Em suma, tudo o que se constrói no mundo adulto.

Na última, no entanto, estaria de novo o singelo, que nos voltaria a fazer sentido. Todas as coisas que antes eram grandes diminuiriam e, em seu lugar, surgiriam as pequenas, aumentando cada vez mais de tamanho.

Perceberíamos, então, o quão grande são as coisas pequenas e, essas, maiores que as grandes.

11 de junho de 2010

Ínterim

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Há uma corda estendida entre o macro e o micro, filiforme, sobre a qual se equilibram nossas escolhas. Todas as coisas acontecem sobre esse imenso fio delgado, e, por mais divisíveis que sejam, terminamos por separá-las sempre assim: grandes e pequenas. As mais singelas estão dentro de nós, enquanto as grandes se perdem, ou se encontram, mundo afora.

Estar no ínterim dos extremos justifica, de certo modo, o imenso leque de dúvidas existenciais que um homem carrega. Dar o passo em qualquer das direções significa renunciar um pouco a direção oposta.

10 de junho de 2010

Fio delgado

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Não sei como me sentiria num mundo menos comunicativo, mas acredito que bem. Estou tão absorvido por essas ferramentas virtuais que já não consigo olhar a cápsula pelo lado de fora. O que, acredito, não é ruim e me faz ser mais efusivo do que sou.

Se o nosso tempo odeia o segredo, não deveria me sentir assim. Porque, por aqui, não tenho o menor interesse em dialogar, embora alimente o blog com freqüência. Aqui não se fala nada: são impressões sobre o mundo adulto, a partir do fio delgado sobre o qual as escolhas se equilibram.

7 de junho de 2010

Labuta

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Levanta o corpo, estica-se, põe chinelos, blusa, gorro. Dali pro café: meia garrafa e forte. 5h15.

Está frio, gotículas dão as mãos sobre carros, vidros, lixeiras, beirais. Abrem rodoviária e padarias, um cumprimento aqui, outro acolá, o sol abre um olho, o frio fecha um. 5h45.

Chega, coloca a chave, gira, o portão se abre. A cozinha lhe vem à vista, o pátio enorme, vassouras e baldes. Fecha os olhos, relembra tempos outros, tanto tempo, a juventude, os namoros, amigos, toda uma década que se foi, duas, três, quantas! O tempo passa. 6h20.

"Falta 40", diz a si e começa. Água, rodo, panos, detergentes. A fumaça do cigarro lhe beija o rosto, quase se apaga, ela traga e o calor lhe esquenta. Quer parar, mas continua. São 30 anos, não pode desistir agora. Do quê, já não sabe. 6h55.

Senta-se. Em 5 minutos, todos chegarão. Começará a rodar a máquina quotidiana que lhe paga. Tudo está em ordem, então está tudo bem. 6h59.

Dentro de si talvez não, mas quem se importa? Os números são frios demais para calores internos.

Já há tanto tempo é assim que sequer questiona. Tem coisas outras à fazer. Pronto, 7 em ponto.Viu? E o café que realmente notam sequer foi feito.

6 de junho de 2010

Duo

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Vontade e ação coexistem, mas nem sempre se entendem.

É óbvio até quando não é.

2 de junho de 2010

O que é da existência

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Curioso é que para o eu o mundo não existe se ele, o eu, também não existir. Nada mesmo: sons, cheiros, sabores, sensações, sentidos, espaço-tempo, o viver.

Mas fosse só o mundo e o eu, e mais ninguém, eu sequer existiria, porque, como sou, eu só existo com os outros. A existência, já dizia Sartre, precede a essência. E fosse o mundo sem o eu, ele também não seria o que é, porque ele é sempre outro para outro e, para cada um, é sempre único.

Existir, portanto, fundamenta um princípio básico: faz o mundo inteiro existir.

1 de junho de 2010

Cá pra nós

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Uma frase me parece o resumo deste blog: "o abstrato tenta entender o concreto, sempre inflexível".

Ela traduz, com a precisão matemática das letras, que nem mesmo in loco, isto é, vivendo, é possível perceber o quanto o mundo, essa imensidão imprecisa, é carregado de virilidade mostrada, as vezes, candidamente.

E que me resta, neste espaço, somente isso: registrar as impressões de meus sentidos. Tornar palavra indagações existenciais. Do cinza, fazer frases.

31 de maio de 2010

Circunstância

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Continua uma lástima a letra que brota da máquina datilográfica dos partidões e boas-praças do adult world. Em todo mapa, e, tomado por exemplo, onde moro.

Nas instituições várias, privadas, públicas, os mesmos de sempre continuam dando as cartas, instigados, porém, dessa vez, com um ou outro que vem de fora. E não por vir de lugar-outro, o que significa sair do lugar-comum, mas por trazer trejeitos novos.

Enquanto isso, minha geração envelhece à sombra de outras. E outras ainda, imersas no porvir, decerto envelhecerão.

Não é falta de gente, de trabalho, de idéias, de conceitos. É o velho sistemão que atrapalha o girar da roda e obriga o mundo a ser assim, concomitantemente adulto e infantil.

Isso é triste, mas não só isso. Porque até o mais inerte e incapaz trabalhador não deixa de ser humano por torna-se antiquado e inapto. Ele também precisa de salário. As pessoas continuam a viver independente do que diz ou pratica o mercado.

Também é não ter como fazê-lo fazer outra coisa. Mas, aí, o buraco é ainda mais embaixo.

O que me dá a certeza de um mundo inconseqüente: tira a vida de todos para ter uma própria. E só se importa com a sua, que é, na verdade, a de todos. Sua e minha, inclusive.

Guiado e redigido por internet e laptop. Pensado e escrito em máquina datilográfica. Estranho diapasão, mas, de verdade, é o único.

30 de maio de 2010

Backstage

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Saber detalhes de backstage traz certezas ingratas. No fundo, tudo é trabalho, compra-e-venda, dinheiro, coisa muito pouca para o sonho adolescente e a paixão por idéias da arte.

Muito melhor ouvir o disco depois de feito, admirar a capa dos profissionais. Ler o livro impresso. Porque os pormenores de como são feitos são cheios de pá de cal.

Da idéia ao projeto há, entre tantas coisas, orçamento, captação de recursos, viabilização, planejamento, execução de mídia, distribuição, cronogramas, direitos autorais e de imagem, contratos. E, claro, um sem-número de interesses.

O que deixa a certeza de que nossos ídolos são de carne e osso. E, alguns, têm os pés de barro.

26 de maio de 2010

Algum momento de "Quando se descobre"

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A feiúra não está na casualidade, mas na segmentação. A fragmentação do mundo é sua feiúra, o acesso fácil para a esfera da beleza, e só ela importa, mesmo que seja a beleza de brincar de ser feliz, a de esperar pelas festas de final de ano ou pelo ressurgimento do santo deus.

Só que Meirelles, ela enfim compreendeu, cansou-se desta brincadeira quotidiana. Na verdade, e isso é o mais importante, ele descobriu como é seu arco-íris imaginário: preto e branco. Ou cinza, que é a mistura das duas cores. O resto é apenas fantasia.

25 de maio de 2010

Memória

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O que lembro, tenho.

Numa frase o resumo de tudo. Porque Guimarães é dos grandes e consegue, não só por isso, dizer muito em pouco.

21 de maio de 2010

Certo momento de "Vermelho Granado"

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Lá fora estava a rua, refletindo feito um espelho o céu demasiado cinza. O ar abafado e sem umidade me fez tossir, enquanto o calor se juntava ao frio dos transeuntes. O choque térmico me trouxe a certeza de que alguém estava no lugar errado: ou eles ou eu.

20 de maio de 2010

Vir-a-ser

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If you want to promote your gig, go ahead.

Vão dizer: não! Vão dizer: sim! Mas não se importe.

Contanto que você o banque se, por ventura, não for o que imaginava.

19 de maio de 2010

O verbo

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Quando me volta à seda da pele uma série de vontades adolescentes, não tenho a menor dúvida de que ainda estou aqui. E me sinto bem por não ter sucumbido à vida adulta. Porque é na idéia de ter, e não em ter, que reside, no fundo, os prazeres.

Em outras palavras, numa mão há esperança e na outra razão: a última é o sujeito, mas é a primeira que serve-se de verbo.

18 de maio de 2010

Dois momentos de "Concomitante"

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O "inadequado" é minha idiossincrasia e a matiz de meu coração.

Estas pessoas, meu compadre, só repetem aquilo que se lê nos jornais, decoram clichês e não percebem a grande sacada: através dos séculos, remontam seus medos e não saem dos lugares. Não se assemelham a pontes, mas a peões de madeira.

17 de maio de 2010

Outside impression

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Minha amiga Ana Rocha escreveu um post sobre este blog. Sua impressão particular sobre as impressões aqui publicadas.

Achei muito bom e fiquei envaidecido!

Seus textos são ótimos e também podem ser visitados aqui e aqui.

Aninha é arte educadora e atriz. A conheci no trabalho, mas a afinidade acabou por levar a gente para o além-do-ofício, o que, nesse caso, é perfeito.

13 de maio de 2010

O barco

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Imagino-me no meio do mar sobre um barquinho de pesca. Faz frio, muito frio, e me irrito com a demora em fisgar alguma coisa que me agrade. Quero voltar logo à terra firme.

Fechado na campânula dos dias, o tempo passa depressa. O sol se põe e me sinto estranho. Tenho a nítida impressão de que o mundo gira cada vez mais rápido, e mais rápido que eu. E nada de peixe.

É quando me vem à cabeça o óbvio e os dias começam a passar devagar: se o barco está à deriva, de nada vale ter pressa.

No fundo, é ao sabor do acaso que retornarei ou não. A não ser que eu tenha um remo. Mas, como sempre, me esqueci e não me preparei.

Não há nada no oceano senão o barco e eu.

Acendo cânhamo imaginário para sedar meus pensamentos, me deito, coloco os pés para fora e espero. Se é só o que me resta, é mais do que preciso.

Não seria se fosse pouco.

11 de maio de 2010

Proporção

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Tinha 8 anos quando pus meu dedo úmido no caminho que formigas trilhavam na parede de casa. Elas se perderam, e eu descobri encantado o impacto que um obstáculo causa na vida desses pequeninos.

Se mantivessem a calma e dessem a volta ao redor do círculo molhado, cujo diâmetro não passava de 5 cm, poderiam dar seqüência à rota tranqüilamente, sem tormento, profusão, esbarrões.

Tristemente, não conseguiram. Só tempos depois, embora minutos, mas que devem ser uma eternidade no tempo-espaço delas, e a muito custo, se reorganizaram rumo ao objetivo.

I have the impression that, saved the rightful proportions, the adult world isn´t different: um dedinho de criança já é o suficiente para desprender dos trilhos a consciente e involuntária marcha humanitária, que se vende sabedora de seu caminho, imersa na rotina entediante de carregar nas costas o trabalho diário de viver.

10 de maio de 2010

O lugar e a verdade

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Seria melhor se deixassem tudo para trás! Mas, por ser a vida uma repetição involuntária de conveniências, permanecem inerte. Se a cada amanhecer uma pergunta, a cada amor uma explicação. O que significa que, fosse só o coração, tudo seria mais fácil e prático.

Mas não, há sempre uma ponta de razão rodeando a casa de deus. E teoria para tudo! E aí fica assim: ela lá e ele aqui. Embora, no fundo, ela também está aqui e ele lá. Porque não há tempo-espaço quando se trata de gostar de verdade.

9 de maio de 2010

O cansaço e o guarda-chuva

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Depois da tormenta, o coração venceu o cansaço. Choveu forte, bastante, por dias, meses, anos. Tantos afazeres, tanta coisa. Viver dá trabalho.

Parecia que não ia dar certo, que nada ia se resolver. Porque ela estava exausta de não tê-lo por completo. E ele chateado por ela não compreender o motivo.

Havia uma pedra no caminho, sempre, em cada recriar, renascer, a cada café-da-manhã. Ele fazia a barba depressa, ela contava os problemas do dia anterior, ele prometia pensar no assunto, ela dizia saber que não era verdade.

Mas, à noite, os lençóis se desarrumavam por inteiro, o que lhes dava a certeza de que, por mais difícil que fosse ganhar o pão, ainda havia motivos.

"Motivos". Essa palavra tornou-se forte, muito forte. E foi nesse exato momento que tudo ficou mais claro.

Foi quando ele se lembrou de um velho ditado que diz: "é na tempestade que se conhece o guarda-chuva!".

E assim, na manhã seguinte, enquanto ela contava suas desventuras, ele a abraçou forte e disse: “obrigado por se abrir e me abrigar”.

O cansaço atravessou a porta e se foi. E o coração os abrigou do frio que, porta aberta, invadiu o lar.

8 de maio de 2010

O fio da vida e o coração

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Longe, tinha a impressão de que não conseguiria jamais cumprir o destino que traçara desde cedo. Porque o fio com que a vida tece os amores é extremamente forte, mas invisível. Assim, sabia que era profundo e inabalável o que sentia, mas não mantinha esperança.

Antes havia cartas, depois e-mails, e agora mensagens pelo celular. A vida tinha modernizado tudo, mas ambos, como se parados no tempo, conservavam o coração lá atrás, quando, ainda crianças, olhavam-se inocentemente. Pois o amor não reconhece tempo, nem o conta.

E agora só restava a vida adulta, contas, trabalho, demagogia, supermercado. O calendário corria e tudo permanecia igual, imerso na obsolescência quotidiana. Mas, no fundo, não era bem assim. Contanto que ele visse de outra forma.

Foi quando entendeu o que se passava e deitou, tranquilo, para dormir. Sem pensar. Porque, é bem verdade, já havia se convencido de que as pessoas não saem, nunca, da nossa vida. E que a teria para sempre, mesmo que não a tivesse nunca mais. Ela estava dentro de si. E ele sentiu-se perto.

7 de maio de 2010

A viagem e o retorno

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Vinte anos mais jovem, ela o admirava por sua capacidade incrível de dar atenção às coisas simples e práticas. Engajada em fundamentar seus sentimentos, não dizia nada sem citar Rimbaud, Rainer Maria Rilke, Baudelaire.

Ao que ele a repreendia, dizendo ser preciso, antes, saber cuidar de um jardim. A poesia, ao contrário de muitas coisas, deve ser antes prática, e só depois teórica.

Ele, duas décadas mais experiente, a admirava por não temer o futuro. Engajado em buscar conforto para repousar seus anos vindouros, não dava sequer um passo sem calcular a conta no banco, o seguro da casa, as taxas abusivas nas prateleiras dos supermercados.

Gostava de ser assim, não era brigado com a vida, sentia-se seguro. No entanto, dizia a si que, se ela era ele vinte anos antes, no fundo, não queria que ela ainda o fosse vinte anos mais tarde.

Porque, é bem verdade, sabia que estava ficando velho, chato e cinza.

E que nenhuma cor, por mais âmbar que fosse, traria comoção maior que a juventude teórica de uma alma apaixonada por livros e poetas. Porque, do ouro, de nada vale só o brilho.

Talvez por isso se gostavam tanto. Era ela sua viagem e ele, para ela, um retorno.

5 de maio de 2010

A memória e a calma

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O que sobrava a ele faltava a ela: calma para sair das situações embaraçosas da vida. Em contrapartida, ele não tinha o que era das maiores virtudes dela, embora um tormento: uma memória irretocável e cristalina.

Esquecia-se, ele, de quase tudo. Jurava coisas a si num dia e no outro não se lembrava ao certo o quê. Porque sua lembrança vaga do dia anterior aparecia e sumia repentinamente, como se repousasse numa onda AM de rádio ruim.

Por isso, talvez, tinha medo da memória dela e de como ela trabalhava com os dados que ele oferecia. Se falasse algo de coração, mas mudasse de amor no dia seguinte, poderia falar outra coisa e se passar por controverso. O que era terrível.

Não era diferente com ela, porém. Ter tudo gravado nessa grande lousa que é a memória feminina a chateava! Porque nada saía de dentro de si, o que não lhe deixava descansar. Afinal, toda a lembrança da vida lhe acompanhava a toda hora, por onde quer que fosse.

Não se anda leve quando se carrega nos ombros o fardo de lembrar-se de tudo.

Por isso, talvez, tinha medo da calma dele. Numa destas, friamente, ele poderia mudar sua mira para outro alvo, cansado de não poder se esquivar da terra implacável da memória de uma mulher.

Às vezes, é bom não ser lembrado.

É precisamente essa briga entre a calma e a memória que degenerou no inevitável: ela não se esquecia do amor e ele o esperava num outro tempo.

Foi quando descobriram, juntos, que só há um remédio para a dor que essa disputa traz: ter a certeza de que só parando o tempo é possível deixar a ambos felizes. Porque, com o relógio parado, nem a memória nem a calma tem vez. Elas não existem.

Daí pra frente, bastou descobrir como fazer isso.

E, ao descobrirem, bastou.

4 de maio de 2010

Cinco por quatro

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Um copo plástico de café pela metade. Um telefone que toca sem parar. Libretos espalhados sobre a mesa. Durex, grampos e grampeador. Papéis e mais papéis...

Notas, requisições, discos e livros. O último Ideário debaixo do celular. Uma cuia de chimarrão, chaves, secante de cobalto, cola bastão e um porta-treco repleto de tudo.

Cordas de violão. Sulfites Allmax. Uma máquina de xérox que cobra novo cartucho. A planilha do mês aberta, avisando que ainda há dias e dias para que maio termine. Giz escolar.

A porta aberta mostra o pátio solitário de fim de expediente, exalando litost e fadiga, coisa típica de uma terça com cara de segunda. Fagner no som. MSN piscando, arquivos anexos prontos para envio e a página de postagem do blog esperando que eu termine.

Um inseto entra, dá um ou outro rasante e se vai, levando consigo um pouco de mim. Estou e não estou, às vezes penso que permaneço, em outras que nunca estive. Lembro de gente, pessoas, da noite passada, da outra noite, de outras coisas, do que vivi, do que deixei de viver, da correria e de tudo, que é muito e é pouco.

Porque sempre é bastante e exaustivo, mas sempre é o mínimo pro que é pra ser, para o que deveria ser, para valer a pena.

O ventilador gira matematicamente e o relógio também. Conta o tempo com a frieza das máquinas. O ar vai se esfriando, o sol desce, o dia levemente cai e a noite aos poucos se anuncia.

E eu, parado, sentado, meço a inércia diante dos fatos e me cobro motivos.

Porque, daqui, só eu não sou uma coisa.

28 de abril de 2010

Tricolor atemporal

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Resolvi montar o meu "São Paulo de todos os tempos" e não consegui. Como decidir quem fica no banco entre Pedro Rocha e Raí? Ou entre Sérginho Chulapa e Careca?

Então montei três.

01. Rogério, Cafú, Renganeschi, Darío Pereyra e Serginho. Chicão, Toninho Cerezo, Pita e Raí. Müller e Careca. Técnico: Telê.

02. Zetti, Pablo Forlán, Mauro Ramos, Lugano e Leonardo. Roberto Dias, Muricy Ramalho, Friedenreich e Pedro Rocha. Leônidas da Silva e Serginho Chulapa. Técnico: Poy.

03. Valdir Perez, De Sordi, Oscar, Ronaldão e Nelsinho. Pintado, Gérson, Sastre e Kaká. Palhinha e Zizinho. Técnico: Muricy Ramalho.

Para entrar a qualquer momento: King, Canhoteiro, França, Silas, Mineiro e Toninho Guerreiro.

27 de abril de 2010

Sobre amor e dor

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Do calor da Paraíba, da saliva roxa de cana-caiana, do pescado, do barco à deriva, enquanto, no final da tarde, trabalhadores comemoram o morrer do sol. Da mulata de saia curta que atormenta o juízo masculino num bar de periferia. Do genial meio de campo de camisas 10, lá em 70. 

Da cachaça de interior, que acompanha mandioca e sal a gosto. Do trabalho de esconder muamba quando a polícia passa na 25. Do carrinho de sorvete que o moço empurra de chinelo de dedo. Da igreja cheia de fiéis. Do momento em que um portão de fábrica se abre, às cinco, e todo mundo se liberta e cai no mundo, nas escolas, nos refúgios, no sofá. Da fila de banco ou emprego. Da exposição de rostos tristes. Da briga por leite, ônibus, metrô e bolsa-família.

Porque a vida é simples, frágil, breve e única.

25 de abril de 2010

Espiando Blake

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Senta-se calmamente, abre um livro, lê. Mesmo que o mundo parece ser o mesmo em outro, há 150 anos entre a gente. Na parede atrás de si, o ponteiro menor do relógio dá uma volta inteira. A essa distância, vejo-o com um mundo de coisas rodando dentro de mim, cansado de tudo. Porque eu não queria nunca ter crescido. No fundo, tenho enorme saudade de quando o mundo era menos chato e sério. Mas, ao mesmo tempo, sei que meus cabelos crescem independente da minha vontade e que aquele relógio não pára.

É quando decido, pela primeira vez, me abrir como nunca. Ser mais sincero do que se recomenda. Decido me revelar, mesmo me arrependendo, no fundo, a cada segundo. Mas quando penso em aparecer despido das paredes que impedem minha vista, Blake segura uma caneta. Então recuo alguns metros e volto ao corredor de sempre, de onde vejo literatos escreverem fragmentos. Penso: “Nessas horas, com as palavras, tudo volta a ter sentido, porque tudo passa a ser razão”. Não sei se estou certo, porque meu coração ultimamente tem mandado mais em mim. Ao que ele escreve:

To see the world in a grain of sand,
And heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour


Sinto paixão por algumas coisas e volto ao século XXI. Ao meu quarto, de onde não quero nunca sair. E me ponho a pensar que, independente do que acontece à minha volta, é só o meu mundo interno, nada adulto, que me faz ser quem de fato sou. E, por um instante, descanso na paz do mundo e fico livre.

23 de abril de 2010

Fim do dia, da semana...

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Se é verdade que a beleza transita pelo irracional, está certo o que dizem sobre as sextas. E sobre o fim de cada dia. Por isso faz tanto sentido um abraço forte: é quando paramos de jogar na defesa e nos entregamos ao colchão. Pernas pro ar, cabelo bagunçado; falar o que quiser e na hora que quiser.

Fosse só um tira-gosto, não viciaria tanto. Mas tem sempre algo a mais por entre os fechos da rotina, que só café tem, só beijo, só o que é bom de verdade; e só vivendo pra saber.

Quando chega o fim do dia, fica mais claro com o escuro da noite: as estrelas estão lá em cima e mostram que tudo é mais que papel, telefone, calculadora e agenda. Mil ligações não fazem mais sentido que um único abraço. Um único abraço salva o caos de mil informações.

20 de abril de 2010

O que é de dentro

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Não se mede tempo no que é de verdade. Não existe pouco, muito, breve, longo. Nada que congele ou apresse os ponteiros. Porque o relógio é matemático, mas o amor não. Ele é uma conta que não fecha! E não há maneiras de entender algo assim, porque não se explica com a cabeça o que pertence ao coração.

Que, por sua vez, não se entende e nem quer: está ocupado com coisas maiores.

19 de abril de 2010

Espiando Florestan

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Ele pára por um momento sua atividade fervorosamente engajada e o olha. Lá em cima, o azul celeste é fundo para desenho em nuvens, tão abstratos, tão reais, tão facilmente perceptíveis, mas tão comumente despercebidos.

Limpa o suor da testa com um lenço que retira do bolso do paletó. Miúdo, etíope, acena com o braço franzino para um táxi que não pára. São Paulo nunca foi coisa pouca, mas agora está demais.

Transborda da cisterna abarrotada de liquidez quotidiana nervos à flor da pele, uma coisa tipicamente tupiniquim, embora, é verdade, todo mundo parece caminhar sem se preocupar com os demais.

Ser frio, para não parecer vulnerável. Quer coisa mais paulistana?

Dessa vez, sou eu que estou no quarto. E, lá de cima, do terceiro ou quarto andar, o vejo pela janela com os olhos carregados de um orgulho pueril e nacionalista. Sempre achei essas coisas a maior bobagem, mas, por ora, me abre o peito ver este senhor.

O que me leva à admirá-lo com o romantismo das janelas e a frieza da distância. Essa última, sobretudo, não me dá espaço: de onde estou, observo-o há mais de 40 anos.

E o primeiro me leva a sonhar, o que me leva, por conseqüência, a imaginar. Devanear. Transporto-o dali e o coloco sentado à mesa de um bar. Ele pede uma bebida, saboreia alguns tira-gostos, reflete sobre o seu arredor, e num papel de boca escreve: “ninguém fala ou cala coisas por acaso”.

É quando fecho a cortina e me deito. Tiro-o do bar, porque já me basta. Numa frase o resumo de tudo. Ligo a outra janela, troco os canais, e vejo que, ali dentro, tudo é bem mais colorido.

Não ao acaso.

Como também não é o cinza lá de baixo, onde Fernandes, finalmente, consegue um táxi.

São janelas diferentes, mas iguais em conteúdo: uma alienação sem freios.

16 de abril de 2010

Espiando Weber

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Como se fosse o céu a razão de seus conceitos, ele para e o olha pelo quadrado da janela. Vejo-o pela porta semi-aberta e espero por algum movimento já há algum tempo. Estático, ele não se move senão para limpar a vidraça que embaça enquanto respira, de tão próximo do vidro que está. Parece incomodado.

Enfim, vira-se. Eu, mais rápido, me escondo no corredor estreito. Não desejo que me veja, porque, como um voyeur de idéias, o espero revelar o que só se revela a só.

Max agora mostra-se diferente. Faz alguns rodeios, desenha espirais. Parece bailar. Mas, se com o corpo não acerta o compasso exato de um ballet, produz pensamentos que não erram o tempo. Tornam-se atemporais, também por isso. Busca uma caneta. E escreve: “neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”.

É quando me vem à mente um sem-número de casos, pessoas, jornais. Na ponta dos pés, para que ninguém ouça o barulho de minhas idéias, me apresso em sair. Dez, onze, quinze passos e estou de novo à rua. Um século depois, me pego pensando nesse povo bege que atrás do agasalho grosso da imparcialidade remonta os fatos e a história de maneira fria, sempre em cima do muro. Depois entro num bar qualquer e peço uma bebida. Fosse qualquer personagem da série Quotidiano, seria fácil pagar e sair. E o post terminaria.

Como a série é outra, o álcool provoca mais. Não se dorme com um barulho desses, e fica no ar que, fosse não e sim no mundo adulto, outras seriam as respostas da vida. Quiçá as perguntas.

Mas há um vão entre o errado e o certo. Onde a neutralidade se acomoda, aqui e acolá.

14 de abril de 2010

... politicamente correto

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Ninguém gosta do que não entende. É assim com as crianças e é assim no mundo adulto. A diferença é que na infância isso é levado a sério e manifestado. No universo dos crescidos há todo um teatro para esconder gostos e abrir mão de coisas simples. Todo esforço é válido para girar a roda do bom convívio.

Talvez por isso, ao subestimar os comentários dos menores, o mundo adulto não vê a coisa mais óbvia: para tudo fluir melhor, basta ser sincero. Não e sim. As an adult, no one can stop you. A não ser o conjunto de regrinhas básicas que está em todo lugar: nas prateleiras, no trabalho, no trânsito...

Cresceu, não tem jeito: alguém vem e cobra que se entre no jogo.

13 de abril de 2010

Espiando Dostoiévski

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Abro a porta devagar e o vejo em pé, de costas, olhando o céu pesado do inverno russo. Usa roupas escuras, um casaco que lhe encobre quase por inteiro e um chapéu. Minutos depois, caminha para o lado da sala onde está a mesa de trabalho, cheia de papéis, um copo com bebida e um cinzeiro. De onde estou, um pouco longe, não consigo ver mais do cômodo senão aquele canto, exatamente onde se senta.

Pensativo, limpa parte da mesa e num papel em branco escreve: “As vezes o homem prefere o sofrimento à paixão”. E Fiódor repete a frase em voz alta. Pronto: é o suficiente. Quase duzentos anos depois, fecho a porta e desço a escada que me leva à rua de novo, de onde, assim penso, não deveria ter saído. Porque palavras não são só palavras. Juntas, têm mais poder do que qualquer exército.

Depois, me vem à mente tudo o que quero e não posso ter. Também coisas que tenho e já não quero mais. Toda uma vida dedicada à paixões que me fortalecem, revigoram, me trazem sentido — e me ferem. Passeios de carro pela madrugada, um beijo mais a noite, comida, livros, construções, cidades. Fosse fácil alimentar o peito, dar de comer às nossas paixões, saciar nossa fome de beleza, seria tudo melhor.

Posso a qualquer hora largar tudo e ir fazer o que me dá prazer. Não posso, em momento algum, deixar que alguém note.

12 de abril de 2010

Presentaço!


Agora está assim: voltei à fase de ouvir Rush o dia inteiro. Coloquei para ouvir no carro e bateu a maior saudade. Aí me lembrei que o Rika tem coisas legais, peguei o celular e mandei uma mensagem: “vc ainda tem o vapor trails?”. “Tenho. Amanhã levo pra vc”. E ganhei, no dia seguinte, 3 CDs de presente!

“Pode ficar, são seus...”. Sem palavras!

11 de abril de 2010

Big money

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Quem acompanha a "evolução" dos projetos para a Copa no Brasil em 2014 sabe o quanto a coisa está feia nos bastidores.

Problema crônico nacional que me lembra um velho ditado: “brasileiro não gosta de esporte, brasileiro gosta de ganhar”.

E, nesse caso, ganhar tem um só $ignificado.

10 de abril de 2010

Amor de digitígrado

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Sempre cabe um abraço nos pelos da Duda. Seja dia, noite ou madrugada, quente ou frio, sol ou chuva, ela sempre me acolhe com a língua no rosto, encostando-se em meu peito. Tudo bem que me empurra para fora da cama ou morre de ciúmes de sua bolinha e nunca me dá, por mais que eu peça.

Objetos, mais espaço? Não preciso, porque a tenho e isso é tudo.

8 de abril de 2010

Coleção

.Ontem ganhei do meu amigo Lauro, da banda Oklahoma, um presente que só quem gosta de velharia sabe o quanto é especial: sua coleção inteira de vinilContei 87 discos e três compactos, que irão se juntar aos meus com o maior carinho.

Tem de tudo, especialmente em se tratando de rock popular brasileiro e heavy metal.

Todos do Barão com Cazuza estão lá, além de Carnaval, Declare Guerra e Supermercados da Vida. AC/DC também tem bastante: sete álbuns!

Há coisas que eu já tinha e acho geniais, como O Concreto da Plebe, os três primeiros da Legião e Big Bang dos Paralamas. E outras que sempre procurei e nunca encontrei no formato, como o In Utero do Nirvana e o Chaos AD do Sepultura.

Outros legais são The World Won´t Listen, coletânea de 87 dos Smiths, Standing on a Beach, coletânea de 86 do Cure, e Selling England by the Pound do Gênesis.

Também são o primeiro solo do Ozzy (Blizzard of Ozz), o disco do Fausto Fawcett que tem "Kátia Flávia", os dois primeiros do Ira!, o Ao Vivo Duplo do Camisa de Vênus e Bandido do Ney Matogrosso.

Há um bastante raro: Tente Mudar o Amanhã, primeiro do Cólera, com dez faixas de cada lado. O disco é azul, nada a ver com as letras em vermelho-sangue da capa anarquista. Dentro, acidentalmente, encontrei um encarte do Ratos de Porão.

Na mesma linha há uma coletânea chamada São Paulo Metal que reúne as bandas Salário Mínimo, Vírus, Centúrias e Avenger. Pau de sebo mesmo, lançado pela Baratos Afins em 84. Deve ser raríssimo, já que o encarte menciona ser “o primeiro disco de metal brasileiro”. Não sei se confere.

Das coisas que não conheço, tem La Bionda, Triumph, Saxon, Krokus e Stress. Todas de heavy metal, fora a primeira.

Do mais, há um monte de coisas ótimas de bandas nacionais, como Nenhum de Nós, Ultraje, Titãs e por aí vai. E algumas trilhas de novelas que não serão aproveitadas, embora Tieta do Agreste tenha uma capa linda!

Falando em capa, herdei duas das maiores bizarrices que já vi na área: uma do Ted Nugent de tanguinha e braços metamorfoseados em guitarras e outra do Zezé de Camargo em seu primeiro disco, com pose de galã e marca de batom na bochecha...

Fora este último, cuidarei de todos de todo coração.

Valeu mesmo Laurinho!

7 de abril de 2010

Censura

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Entender a própria censura é a prova de que infelizmente nem tudo é como a gente quer. Mesmo quando tudo aponta para um único e previsível lugar.

É assim com todo mundo. E com o mundo todo.

Tome o exemplo de um quadro numa escola de Belas-Artes: mesmo diante da crível sagacidade do artista, é a pintura que o faz; e ela tem suas regras.

Pois então, se até o abstrato de um painel condiciona regimento próprio, o que esperar de um músculo voluntário e independente?

Nada podemos fazer: ele é livre e sua liberdade não tem limites, tampouco se importa com o que podem pensar aqueles que não o compreende.

E é ele que escolhe a quem se prende. A razão é sempre coisa pouca pro coração.

Você pode até tentar burlá-lo, preocupando-se em cuidar da casa, do trabalho, das plantas. Sempre há um amigo por perto, o sorriso do cachorro, futebol logo à noite, provas na faculdade, música, livros, internet, qualquer outro tira-gosto.

Nunca há, no entanto, algo tão grande para preencher tamanho espaço.

Que só cabe num abraço forte.

5 de abril de 2010

Espiando Voltaire

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Só lembranças boas lhe vêm à mente. A última cartada, o último bom negócio, a última música, o último livro, a última ideia. François-Marie pega uma caneta e escreve, com leveza: “Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo”. Simples assim, numa frase o resumo de tudo.

Dois séculos depois, fecho a porta com cuidado e saio, na ponta dos pés, pensando nos amigos que tenho. E sinto saudade das brincadeiras, dos risos ingênuos, do futebol de madrugada, dos pés sujos de rua, da infância. Anos que foram embora, soltos, com a certeza de não mais voltarem, mas que ficarão presos na memória para todo o sempre.

2 de abril de 2010

Everything in its right place

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Bebo a milésima xícara de café, enquanto vejo o Dani pular com os alunos do Núcleo. Poderia ser um bourbon, tomei-o uma vez só e não me lembro ao certo o sabor, mas a vaga lembrança me diz que é ótimo.

Estou um tanto triste, ouço Radiohead e vou pra baixo. A primeira faixa de Kid A me faz pensar num monte de coisas, é perfeita, vôo do caos ao céu. Leis da natureza deveriam ser facilmente quebradas, queria voar por aí. Deve ser por isso que os homens quebram facilmente as suas, inveja do que é perfeito.

The big fish eat the little ones. O mundo é de todos, mas nem todos podem tê-lo. Mesmo que, além desta vida abafada, exista um sem-número de estrelas e sóis, um coração que desconhece a vida ordinária. Entretanto, não vivo lá, mas aqui, e tenho que fechar as portas e partir, já é tarde. Thom de novo me dá o toque, por meio do amigo que agora atravessa a porta.

You can try the best you can. If you try the best you can, the best you can is good enough. Se não está tudo bem, ao menos tenho algum tira-gosto. Fosse fácil, não e sim, tudo estaria melhor. Mas há um vão entre o errado e o certo. E o mundo continua a girar, quadradinho que é.

31 de março de 2010

Quotidiano 5

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Tirou o cinto de segurança com a dificuldade de sempre e levantou-se, com uma das mãos no volante e a outra na porta. Ninguém, é claro, perdeu seu tempo em ajudá-lo. Entrou.

Suas mãos trêmulas já não lhe atormentavam, tinham se transformado em coisa comum. Afinal, nesse mundo, tudo acaba se modificando e inevitavelmente as pessoas terminam por se acostumar com tudo.

Encostou a barriga no balcão e pediu ao farmacêutico os remédios do mês. Notou que estavam um pouco mais caros. Não reclamou.

Subiu na balança e conferiu ter emagrecido mais um ou dois quilos. Imaginou ser o cigarro em excesso. Saiu.

O dias passavam um a um e um dia deixariam de passar. Ele, no entanto, não tinha tempo nem paciência para se importar. A ciência já havia avançado o suficiente para acalmar seu espírito inquieto, seu coração fragilizado e corpo debilitado.

Medicamentos e futebol lhe bastavam. Quando não, uma grappa romana trazida pelo filho em sua viagem mundo afora.

Em outras palavras: estava tudo certo. Até porque mudar agora seria trabalhoso demais. Bastava-lhe o trabalho penoso e diário de viver.

30 de março de 2010

A volta

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Que é feio desdenhar e requerer de volta, não há a menor dúvida. Talvez, só não menos que resolver tudo pela tangente. Chega a ser cômico, para não dizer trágico, coisa típica dos desprovidos de senso, sempre tão ciclotímicos.

Nada que mereça muita atenção, porém. Ou comentários.

Até porque não se dá créditos à mulher de malandro, que apanha, chora, reclama, mas volta, ou porque gosta ou porque não tem para onde correr. Quiçá as duas coisas.

O mundo está abarrotado de atabalhoados que, cabeça-martelo, causam situações que só atrapalham o girar da roda. Gritam, fazem um escarcéu, para depois notar que o mundo riu de si.

Aí murcham as orelhas, perdem o falso orgulho e tentam cair de novo no único braço que acolhe, mesmo os mais feinhos.

E não porque quer ou gosta, mas porque é obrigado. Afinal de contas, alguém tem que por na boca o leite da criança recém nascida, senão ela morre.

Por fim, registra-se apenas que constranger a si nem tanto, mas constranger os amigos e a quem estende a mão é um dos maiores atentados contra a inteligência que há.

E é justamente por isso que esta espécie de gente não merece atenção ou repercussão. Deixá-la reduzida à própria imbecilidade é a melhor resposta.

29 de março de 2010

Corra e olhe o céu


Redescobri um caso antigo de amor por Cartola, poeta do velho samba que inseri entre o rock e o blues da adolescência.

Se cheguei ao ponto de aprender a tocar caixinha de fósforo aos quatorze, não foi à toa. Foi por ele me fazer entender que as coisas mais belas são ditas da maneira mais simples.

“Corra e olhe o céu que o sol vem trazer bom dia”. Numa frase o resumo de tudo.

28 de março de 2010

Quotidiano 4

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O sol batia forte e cansava, mas ele não desistia. Continuava a lançar ao mar a esperança de voltar pra casa com os peixes do dia, cada vez com mais força e cada vez para mais longe. Trazia no rosto queimado a prova de que a labuta não era branda.

A troco de uma dúzia de cioba e cavala, havia conseguido um vinho tropical de ótima safra. Para manter segredo o escondera no quiosque de ferramentas. E agora, uma semana depois, havia chegado o dia de ele finalmente sair de lá. O grande dia!

A mistura de suor e lágrima era velha conhecida, mas foi naquela tarde que ela mostrou nova face: ao contrário das outras vezes, trouxe junto uma dose portuguesa de lirismo incomum sob o calor alagoano. Se a saudade lacrimejava, a ansiedade abria seu peito e punha à mostra o coração. Que era dela.

E que faria quarenta! Tantas tristezas e alegrias superadas a cada café da manhã, tanta dor nas noites ruins, tanta festa nos dias bons, tantos natais, tantos carnavais, tanta luta nestes longos anos...

Lembrou-se de vinte anos atrás. Havia saído para o baião e a encontrara. Trouxe-a consigo ao voltar pra casa e desde então nunca mais haviam se dividido.

Ela ainda era a mesma daqueles tempos, tinha o mesmo jeito de menina. Haveria de ser, ele sabia bem, a mesma daqui a vinte anos também. A mesma de sempre e para sempre.

Tudo bem que a vida não era doce e o trabalho nada fácil: a mão calejava, o corpo escurecia sob o sol, a água nunca era tanta para a boca sempre seca.

Mas depois de tudo ele voltava, atracava o barco e exibia o pescado. Ela o ajudava a limpá-lo com aquele riso na boca e tudo ficava mais leve.

Porque maior que a certeza de peixe no mar era o amor, que já começava a mostrar uma ou outra ruga e que acalmava seu espírito inquieto, seu corpo ardido de sol. Os dias passavam um a um e um dia deixariam de passar, ele sabia bem. Mas não se importava nem um pouco.

Convencia-se que o melhor era não ter tempo nem paciência para se preocupar com qualquer coisa que fosse menor do que aquilo. E tudo lhe era.

Porque ele tinha uma casa. E dentro havia ela. E dentro dela um coração. E dentro, ele.

27 de março de 2010

Sol ao leste

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Só se vive uma vez e isso é tão certo quanto o nascer do sol ao leste. Um dia após o outro, escrevemos nosso livro dos dias conforme fazemos as escolhas que somos a todo instante obrigados a fazer. E sequer há como tomar a decisão de “não decidir”, já que isso nos obriga a ficar inerte, o que não deixa de ser uma opção.

Isso significa, entre outras coisas, que nossas escolhas e decisões definem de certa maneira o que somos, o que fazemos, com quem convivemos, como nossa vida é ou deixou de ser. Como será.

Essa reflexão não é inédita e certamente nesse exato momento deve haver alguém dentro de seu quarto pensando em algo parecido. Em coisas que poderiam ter sido feitas e não foram, em alguma pessoa que poderia estar ao seu lado e não está, em como seriam seus dias se as escolhas de 10 anos atrás tivessem sido outras.

E se não há como reviver o passado, a não ser na memória, também não há como pegar uma borracha e apagar as decisões anteriores, como se faz com uma resposta mal elaborada em alguma prova de inglês, corrigindo opções que, anos mais tarde, entendemos que estavam erradas.

Porém, se isso torna alguns momentos mais difíceis, ao mesmo tempo dá a cada instante um motivo a mais para valorizar o que temos e o que vamos fazer com aquilo que temos. Com o que somos e seremos. Com as perguntas que nos surgem a todo o momento, nos cobrando respostas pra tudo.

Afinal, se não for hoje, quando se tornará real aquilo que se deseja?

É exatamente por isso que, das diferentes formas de saudade que há, certamente aquela que temos do que não aconteceu é a mais instigante. Saudade de um abraço que não foi recebido, de um beijo que ficou pra outro dia, de um encontro desmarcado por culpa de um desencontro, de um filme que ficou para amanhã e amanhã e amanhã...

O tempo não volta, não tem jeito.

E se tudo acaba nesta vida, inclusive a própria vida, acho injusto não provar das coisas. Sei que há sons bonitos que jamais ouvi e queria muito conhecê-los. Uma música lado b de um cantor de fado que é belíssima e que ainda não chegou até a mim. Algum mistério nipônico que minha cultura ocidental não tem noção da importância. E do sabor.

Se um dia irei conhecer?

Não sei, mas esta é justamente a graça nisso tudo: não saber como será o minuto seguinte. Aguardo, porém, o momento propício e espero estar preparado para absorver o raio de sol que dia após dia surgirá ao leste. Quero senti-lo como se fosse a primeira e última vez.