30 de maio de 2011

Um par de meias

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Três da manhã, acordou com a parede escura presa aos olhos. Tinha tanta coisa na cabeça que mal podia pensar. Contas, mercado, o controle remoto sem pilha, aquela visita à casa da mãe que ficou para ontem e não deu...

Mais três horas e precisava pegar o ônibus e consertar aquela porcaria de peça, ao preço de quatro anos de serviço.

Pensou em levantar-se, mas desistiu ao sentir um pé de meia encostando em sua perna. Lembrou-se, então, que para tudo havia um sentido e uma causa. Riu de si. Respondeu ao toque e ouviu o gemido inconsciente de toda noite. Dois pés juntos, um par de meias de lã.

Ao voltar a dormir, estava pronto para outro dia.

26 de maio de 2011

O que é do bicho

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Meu estereótipo de feiúra na infância tornou-se mais tarde a minha noção de beleza. Aos 12 ou 13, aprendi que o belo está na deformidade do acaso, nos bebês quando se alimentam, nos enfermos que precisam de ajuda para se levantar.

Não distinguir a própria espécie dá outros olhos ao cachorro. E é justamente a espontaneidade do bicho que mais o difere dos homens, tão acostumados a esconder o que sentem.

Por mais insensível que possa parecer: as verdades invariavelmente transitam por caminhos irracionais, sobretudo neste mundo sem pêlo onde construímos nosso veredicto.

23 de maio de 2011

Troca

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– Pode haver uma recompensa.

Embora sem dar pistas, não conseguia resistir ao convite. Desejava-o há tempos e temia não mais tê-lo. Calvo, gordo, desleixado: onde conseguiria outra oportunidade como aquela?

Tentou fazer um exame simples, pedir pouca coisa. Não adiantou: a nota não chegava a seis. Dois pontos a mais eram o suficiente! Pôs o seis, mas depois contornou e fez uma bolinha em cima da outra.

– Então consegui?
– Pra você ver.

Embora mais velho, sentia-se inexperiente. Há tanto tempo não tinha uma experiência como aquela que parecia não saber o que fazer. Sentiu-se envergonhado. Seu corpo refletia um misto de inferioridade e euforia.

No entanto, era ele o mestre – e não o contrário! Ou deveria ser assim. Tornaria tudo mais fácil. Começou. Apressou-se. Terminou. Não quis saber como havia se saído. Parecia temer não chegar sequer à média.

– Você conseguiu.
– Pra você ver.

19 de maio de 2011

17, 17 e 18

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Somos cria daquilo que vem de dentro e nossas atitudes só tem fundamento ao olharmos para lá!

Do lado de fora, tragamos o cinza camuflado. Até no mais candente caminho, porque é turvo o céu da verdade travestida. Milan Kundera e suas definições de kitsch explicam isso muito bem.

Afinal, somos o oposto do que aparentamos ao dar, à nossa maneira, a beleza deste mundo – inventando flores artificiais por preguiça de regá-las.

Isso não cabe, porém, no caso das viagens ao lado de quem gostamos de verdade. Criar cores só é válido quando se faz para fugir deste mundo absurdo!

Ou não é preciso ter um clarão como norte, um vermelho para o amor e um azul para a paz? Ter um arco-íris imaginário!

Porque é exatamente assim: todos nós levamos para cima e para baixo cores convenientes. Nenhuma singularidade controversa é capaz de ofuscá-las e não há quem aceite a natureza irreal desse fetiche!

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Ela olhou para os dois que, sentados à frente, traziam o Manifesto na mochila e um exemplar surrado de Dark Side of the Moon. Um deles levantou o dedo e pediu outra cerveja, enquanto o outro a aplaudia. Noite de quinta era a lei: aula só no bar do Wlad.

Ao lado, um cachorro agonizava de frio, na mesa à frente riam com o futebol, atrás uma senhora limpava pratos sujos, e chegava até eles o refrão do último sucesso de algum artista que não reconheciam.

Mas que, provavelmente, estava na TV na tarde do último domingo.

16 de maio de 2011

Aconchego

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Paulo levanta-se e confere o tempo. Há um céu extremamente claro sobre a sua cabeça. Senta-se com leite e torradas, acende um cigarro e pensa no dia de ontem. Por quais razões tomou sua última decisão?

Diz a si que a vida é cheia de coisas que, nos parece, nunca terão respostas. Tudo lhe parece gratuito. Toca o telefone, ele sabe que é ela – ninguém mais o telefona. Todo o mundo parece ter se esquecido.

– Não vale a pena.
– Alguma coisa vale?
– Ter para onde voltar; ter alguém que nos espere!

Paulo sabe que ela está certa, mas não quer dar o braço a torcer. Diz que é muito fácil falar essas coisas, já que ela está sempre bem acompanhada. Ela afirma que não é verdade, alega que ele não sabe o que é estar no meio de uma multidão e sentir-se só.

Ele se emociona, mas não a deixa perceber. Sabe que será o seu pedido de desculpas. No entanto, da caixa de reservas feminina, ela tira sua última cartada, da qual não há como escapar.

– E não é verdade que o amor nos salva? Então vamos colocar a culpa no amor! Foi tudo passional!

Paulo fica sem saída. Outra vez, pela enésima vez, está preso entre a verdade de dentro e a mentira de fora. Opta, como era de se esperar, pela primeira opção. O amor, é verdade, é sempre a porta da casa.

9 de maio de 2011

Perguntas

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– O que você acha?

Inquietou-se. Sentada, brincava com o canudo na coca-cola, enquanto esperava seu lanche e mexia no celular. Ele, ali desde antes de ela chegar, não parecia inconveniente, embora houvesse lhe feito uma pergunta! Havia tanto tempo que ninguém lhe perguntava nada que até estranhou. Um pouco sem jeito, respondeu que achava “moderno”.

Era muito tímida e passava o dia nas redes sociais. Num mundo onde ninguém faz perguntas, é tão raro falar de si que as pessoas passam horas respondendo perguntas não-feitas: “achei a novela muito boa”. Ela sabia que ele, decerto, já havia entendido: ela era sozinha. Bonita, mas solitária.

– É justamente o que penso.

E passou a falar qualquer bobagem, enquanto ela dizia a si que nada disso era preciso. “Palavras: quanta coisa se perde entre elas!”, repetia, em pensamento. Veio o lanche e ela comeu escutando-o, embora sem prestar muita atenção. Talvez porque ele dizia e dizia, mas não ouvia. Assim, era melhor ver o que a internet trazia de novo.

6 de maio de 2011

Lugar

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Certa vez, ainda adolescente, Frederico foi ao cemitério da vila. Levava uma garrafa de vinho e queria ver os túmulos, o rosto das pessoas nas fotos, sentir-se um pouco seguro. Precisava fugir.

Havia poucas pessoas. Caminhavam entre as flores, falavam sozinhas, indagavam os mortos à procura de respostas para os vivos. Também fugiam de algo.

Passou a caminhar entre elas e percebeu que as tristezas se misturavam. Não era só saudade, mas algo a mais: o isolamento. Na agitação quotidiana, precisavam de silêncio.

Antes romântica, a situação lhe pareceu ridícula depois. No entanto, percebeu que era reflexo da pressa do homem e perdeu, em seguida, a fé.

Pensou em parar alguém e dizer que percebia a tristeza que trazia, e que entendia que, ali, ainda assim, se era mais feliz do que lá fora. Mas achou melhor manter-se calado e tomar o vinho, mesmo quente.

4 de maio de 2011

O lado humano do Rei

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A retórica da batina, a caneta do jornalista, o microfone da política, qualquer que seja por trás de cada palavra, a entrega: estamos no mundo da incomunicabilidade, e só a palavra não basta, também é preciso coerência.

Porque não há ninguém que seja mais ou menos homem que ninguém: entre os iguais, o que diferencia uns e outros é a intensidade com que se busca uma resposta – ou, entre os mais sábios, uma pergunta.

Talvez por isso, mas não só por isso, as instituições são tão falhas: embora queiram estar acima dos limites humanos, de acerto e erro, são feitas por gente, guiada por uma razão pré-construída historicamente e por essa causa chamada "sentimento", para a qual há quem tenha explicação, embora ninguém a compreenda.

Saramago dizia sem dizer: a verdade depende de qual lado da mesa você está sentado. Por isso, e só por isso, muitos guiados por um, e não todos por todos, é um abraço burro.