27 de março de 2011

Fuga, 10

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O mestre acusou o golpe. Para um calculista como ele, era terrivelmente incrível que ela não se assustasse. Pediu o dinheiro. Refletiu que, pelo menos, seria parcialmente recompensado pela decepção.

Ela abriu o paletó do sujeito caído, retirou o envelope e o entregou. Cinco mil, o que era razoável.

Na verdade, dopava os homens e fugia com os pertences. Para não levantar suspeitas, entrava com uma roupa e saía com outra. Não havia se deitado com mais ninguém. Mas como explicar esse fato diante do amor renegado?

Era melhor calar-se.

O dervixe da pistola austríaca não era mal. Mas não há razão que prevaleça diante de um coração fragilizado. Todo mundo assina, mesmo sem saber, o contrato social que rege as relações de seu tempo, e paga o preço por isso.

Do mais, é importante dizer: o aprendiz obteve menor lição que merecia, aplicado como mostrou-se. O sujeito de bigode teve azar, mas a vida não escolhe vítimas. Ela, por sua vez, fez de sua escolha o retrato fiel de seu arredor. E o mestre, por fim, mostrou-se pouco sábio, por concluir antes de perguntar.

26 de março de 2011

Fuga, 09

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Nervosismo ou calma? Ela tinha que escolher, não havia saída. Mas oras, escolher não é a única coisa que fazemos na vida? Então bastou ela assumir este fato e sua escolha se tornou leve, prazerosamente leve, feito uma brisa afável.

Optou pela calma, mas não por uma imposição – mas por escolha. E permaneceu muda.

25 de março de 2011

Fuga, 08

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O aprendiz apareceu na sala com um revólver. No entanto, o terceiro homem trazia no paletó o envelope com todo o dinheiro da prostituição. E um homem com dinheiro, quase sempre, não reconhece o perigo.

– Qual é o seu santo?
– Pois atire... Vamos, me acerte!

O mestre levantou o cano e apertou o gatilho sem pestanejar. O tiro acertou o peito em cheio. O aprendiz sorriu maravilhado. A mulher, por sua vez, levou as mãos ao rosto. Mas não gritou.

No chão, um sujeito agonizava.

24 de março de 2011

Fuga, 07

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Ela o temia. Ele era sarcástico.
– Há tempos não lhe via assim. Mas acredite: guardava tudo em minha mente, cada pinta, marca, o menor dos detalhes.

Durante todo o tempo de espera, ele a obrigou a ficar sentada a sua frenteDava passos curtos de um lado para o outro e a deixava cada vez mais nervosa, embora, é verdade, um pouco excitada.

O ronco alto de um carro foi ouvido. Ele foi até a janela e, no mesmo instante, seu celular vibrou acusando uma mensagem: “há um homem aqui e parece nervoso”. O aprendiz, do lado de fora, estava atento.

Quando o sujeito entrou pela porta da frente, estranhou ao vê-la daquela forma.
– Aconteceu algo?

“Entre!”, disse outra voz no canto da sala, para onde ele ainda não havia olhado.
– Mas quem é você?
Estavam, agora, frente a frente, separados por uma mulher seminua.

23 de março de 2011

Fuga, 06

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Não havia como não atendê-lo. Era melhor ligar e torcer para que nada de ruim acontecesse. Trêmula, errou o número duas ou três vezes.

– Acalme-se. Não quero que ele perceba algo.
– E como?
– Faça tudo de forma corriqueira. E o traga aqui.
– Mas...
– Faça o que eu digo.

Ela acertou, enfim, o número.
– Meu amor, preciso que você venha aqui...

Desligou.
– Agora é só esperar...
– O que você pretende fazer?
Ele abriu a jaqueta e ela notou o cabo de sua Glock 28.

22 de março de 2011

Fuga, 05

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Ela virou-se assustada. Ele sorriu.
– Pensou que nunca mais iríamos nos ver?

Ele estava irado. Ela não sabia o que fazer. 
– O que quer de mim?
– Você sabe bem...
– Não ouse chegar perto!
– Ele vem aqui?
– Ele quem?
– Cínica!

Ela temia por um crime passional. Ele apontou para o telefone.
– Ligue para ele.
– Mas...
– Ligue!

21 de março de 2011

Fuga, 04

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Do lado da porta, havia uma janela pequena e baixa, por onde espionou o interior da casa. Um pássaro na gaiola era sua única companhia. Havia poucos móveis e Richard Wagner, bem baixinho, ecoava de algum cômodo.

Pensou numa maneira de entrar. Não seria difícil. Pôs o olho no buraco da fechadura e viu a chave presa. Havia um pequeno tapete na entrada. Ele o empurrou para dentro, bateu na chave para ela cair e o puxou de volta. Em poucos minutos, estava com a casa sob seu domínio.

Abriu-a. Com o devido cuidado, caminhou em direção ao quarto. Quando se aproximou, a viu deitada, de bruços, com um livro aberto sobre a cama. Vestia calcinha branca e balançava os pés conforme a música.

Bateu com a costa da mão na porta.

18 de março de 2011

Fuga, 03

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Ela voltou ao Opala e pisou fundo. Eles a seguiram. Brigavam com as ruas sinuosas.

Os dois a viram parar numa casa pequena, após entrar num bairro carente. Era uma casa bastante fechada, mas os muros eram relativamente baixos. Abriu a bolsa, pegou as chaves e entrou sem maiores problemas (eles encostaram o carro no início da rua).

– Vou entrar. Vou pular o muro e vou entrar.
– Não pode ser perigoso? Será que está sozinha?
– Ela está, entrou com receio. Teme algo.

O mestre pediu ao aprendiz para retornar ao carro, ficar de olho na casa e, qualquer perigo, o avisar pelo celular.

Entrou. Buscou a porta dos fundos com o máximo de silêncio possível.

17 de março de 2011

Fuga, 02

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Ela fez a última curva e parou. Eles fizeram o mesmo, mas uma rua à frente.

– Já, já e alguém virá encontrá-la...
– Certamente.

Um sujeito demasiado baixo, de longo bigode, um tanto calvo, se aproximou. Ela acendeu um cigarro. O homem recebeu um envelope branco. Despediram-se.

– E agora, a quem seguir?
– Nossa bússola é a mesma – respondeu o mestre.

11 de março de 2011

Fuga, 01

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Os dois olhavam por cima do vidro semi-aberto. Do outro lado, ela caminhava sobre um calçado alto. Seu vestido dançava conforme o vento. Usava óculos escuros, grandes e redondos.

– Uma fênix.

A beleza, assim, é a anestesia do sentido. Para eles, mais ainda. Ela sorria rumo ao Opala restaurado de forma generosa. Gostava de veículos antigos, apreciava coisas de homens.

– Anote a placa, caso algo dê errado.

O aprendiz retirou do bolso da camisa um pequeno caderno e, com lápis preto, rabiscou. Gordo, era pouco ágil. Ela deu a partida e uma espessa fumaça subiu. Frio, o mais versátil deu-se ao luxo da circunspeção:

– Poluidora.

Seguiram-na. Ela virava por entre ruas estreitas, fazia contornos imprudentes, incoerentes. “Qual a lógica em virar à direita?”, pensou alto o primeiro, ao passo que o segundo, mais esperto, bem humorado, logrou a sentença:

– Isso não é ciência. É fuga.

9 de março de 2011

3/4

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Deita-se no sofá com um pequeno espelho de bolso: vê um senhor cujas rugas saltam à testa e dizem que, sim, as coisas mudaram bastante. Ele já não é um menino.

Levanta-se, busca um jornal e algum tira-gosto, liga a tevê. Afinal, é melhor ver o espelho de todo mundo que o espelho de si – e esquecer, de alguma forma, que o relógio não espera por ninguém.

4 de março de 2011

Does it remember the sun from the other times?

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É sempre bom redescobrir as coisas: uma revista velha, uma agenda, um vídeo do outro século. De certa forma, por ao tato o que um dia nos foi importante.

Isso leva, quase sem querer, a descobrir outras coisas, mas pelo lado contrário: ouvir a banda mais antiga que puder, achar a foto mais velha do mundo ou algo debaixo do quintal.

E acredite: isso é menos voltar-se ao passado que olhar em frente!

Até porque termina por ser um convite, irrecusável, para reorganizar as pastas, inclusive as da memória, para que fique mais fácil encontrar o que queremos na próxima pesquisa.

3 de março de 2011

O que encerra em si

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O homem, por ser livre, tem uma enorme responsabilidade: a de não ter ninguém a quem possa dedicar suas proezas e lamúrias. Sua angústia é, decerto, o peso dessa responsabilidade.

Enquanto isso, uma maçã cai da árvore e algum físico a transforma em números, enquanto alguém insiste, porque é do seu contentamento, em mistificar a ordem natural das coisas.

Por não haver uma resposta plausível para as coisas ao redor, tampouco para as que acontecem dentro de nós, é preciso abraçar alguém, afinal, o próprio corpo mostra que isso conforta. Como, na correria líquida de todos os tempos, falta carinho entre a espécie, se implora ao imaginário.

Sartre, a quem devo este post, bem dizia: o homem é aquilo que faz de si próprio.

2 de março de 2011

Cartas

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Há quem se convence a partir de negociações e há quem exige argumentos. São como óleo e água, mesmo quando há boa vontade. O primeiro é dose: compra o baralho só para ter as cartas. O segundo, quando inocente, tenta explicar que em todo jogo as regras são as mesmas, não importa qual lado da mesa se está.