29 de outubro de 2009

Brisa

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Vontade de tirar o tênis e andar descalço. Pisar na areia, sentar em alguma pedra do litoral, pular logo esta tarde. Vontade de ensaiar com os amigos, sentar a baqueta na caixa. Dar um abração em minha vira-latinha, sentir seu pelo na barriga. Vê-la se divertir.

Vontade de fazer qualquer coisa que dê na telha, qualquer coisa que não precise da camisa certa, de um discurso correto. Vontade de por os pés na grama ou num lugar onde, realmente, valha a pena.

21 de outubro de 2009

Mel e Fel

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Conheço muito bem o cheiro da cana de açúcar, afinal cresci com ele impregnado nas roupas. A casa onde moro por pouco não faz divisa com a Usina Iracema — um muro, um campo de futebol e uma estrada de terra. 

Desde criança, tenho decorado na cabeça o som das chaminés. Quase posso cantarolar a melodia dos apitos de descanso, do maquinário e do lume queimando. Feito uma música estranha que, de tão repetitiva, tornou-se familiar.

Cresci na terra andando de bicicleta no meio do mato. Ia com meus amigos fazer trilha, andava descalço, corria solto por aí. Jogava bola na rua e voltava para casa com a roupa cheia de cisco. O cheiro agridoce era mais forte antes, nos anos 80 e 90, mas já não sentíamos. Tudo era tão normal que estava intrínseco aos demais aromas, era tudo parte da rotina dos sentidos. 

Já adolescente, percebi o quanto minha cidade é dúbia: artesanal e industrial — com a inglória posição de estar no coração econômico do país, a duas ou três horas de São Paulo. E aprendi que é por isso que viver aqui é tão bom: não há a efervescência das metrópoles, mas vive-se tranquilo e é possível andar com o vidro do carro abaixado. Do mais, quando preciso, em poucas horas estou na maior cidade do país, não é tão difícil encontrar o agito. 

Além disso, há alegrias inerentes aos concidadãos que jamais vi em outro lugar: a de se atentar, de coração, ao ouvir o alto-falante da caixa d’água anunciar as novas do dia, a de dar bom-dia a estranhos, a de perguntar “de quem somos gente”, entre outras e outras coisas. 

Tenho muito orgulho de ter os pés vermelhos desta terra e o nariz inalando o cheiro de sua cana. Quem não é de Iracemápolis e pensa que conhece o aroma de um canavieiro, está redondamente enganado: o daqui é diferente!

20 de outubro de 2009

Friends

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Há amigos que nunca saem da memória, independente do tempo, se nos falamos há um minuto ou há anos. E tenho sorte pelos que tenho: não são muitos, mas são fiéis. Pessoas que admiro, que têm um coração enorme, e que me dão, cada uma ao seu jeito, um sentido para existir.

Para alguém como eu, sem a crença da maioria, uma boa razão para acordar, escovar os dentes, trabalhar, sorrir ou fazer qualquer bobagem é, justamente, esta: cultivar as amizade — e amá-las, até o fim.

19 de outubro de 2009

Alter ego

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Quando cheguei perto, era tarde da noite, fui sincero: "Você realmente acha certo?". Ao que ele respondeu: "Não, mas é o nosso trabalho!".

Então voltaram, pelo quinto ano, aquelas inquietações. Afinal, profissionalmente, não me orgulho de outubro. Em nada. Dormiria no último dia de setembro e acordaria no primeiro de novembro com o maior prazer. Vejo-o intelectualmente desonesto. Daria, se dependesse de mim, outra leitura ao mês, o faria calcado em algo produtivo para todos. Uma Feira de Ciências. Porém, dentre tantas, há duas coisas incorrigíveis que norteiam a sociedade: a insistência com a moral e a confusão que se faz entre democracia e demagogia.

"E não somos páreo?", perguntei. "Ninguém é", respondeu ele, e apressou-se em dormir, afinal, a segunda-feira não tardaria a chegar. Fiz o mesmo, pensando comigo que, definitivamente, vai ser uma semana daquelas.

16 de outubro de 2009

O que é de mim

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Não tenho talento para lidar com a emoção. Ser frio encontra aqui o seu fim: tento gelar tudo ao meu redor para neutralizar a chama interna. Não provocá-la. Fechei aliança com meu lado racional. Não sei, ao certo, o motivo.

Quem eu fui e quem eu sou são dois seres igualmente famintos por uma vida mais leve. Como fui e como sou, não necessariamente. Prefiro os sentimentos na coleira.

Quem eu fui e quem eu sou se confundem também, é claro. Mário Quintana me ensinou uma vez e nunca mais esqueci: "O passado não reconhece o seu lugar no tempo, está sempre presente".

8 de outubro de 2009

Feixe de Idéias

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Dia corrido ontem. Preparei em parceria com o irmão-de-idéias Daniel um novo projeto que logo estará na praça. Ficou muito bom. Na prática, o fizemos bem rápido, embora pensamos um século antes de começá-lo.

Agora é hora de cuidar de outras coisas. Ir ao banco, ver a conta telefônica, por gasolina no carro etc. Nem tudo são flores, não é possível viver de um ideário. O que é uma pena!

5 de outubro de 2009

Ainda sobre

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Ler Platão é menos voltar-se ao passado que olhar em frente. Tenho essa impressão sempre que encano com ele. Agora estou no Diálogos. Redescobri que sou apaixonado por esse livro.

Andava longe do mundo das ideias.

2 de outubro de 2009

Contemporâneo

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No mito da caverna, Platão fala sobre a escuridão que há fora da luz da verdade. Em sua parábola, homens presos numa caverna não conseguem ver a natureza do mundo com suas cores reais, mas apenas sombras, por onde desfrutam da beleza que há sem, de fato, vê-la. 

Reli trechos de A República na madrugada de ontem, e sempre que isso acontece me faço um monte de perguntas. Mudou muita coisa entre os homens de Platão e os atuais? Aqueles sujeitos são tão diferentes destes de agora, tantos séculos à frente? Ou comportam os de hoje como personagens que, aprisionados, não vislumbram um mundo inteligível e tiram conclusões a partir de sombras desprovidas do real?

Fáceis respostas. Minhas indagações foram, na verdade, uma tentativa de provar o contrário. Afinal, não podem ser tão próximos dois mundos tão distantes.