28 de abril de 2010

Tricolor atemporal

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Resolvi montar o meu "São Paulo de todos os tempos" e não consegui. Como decidir quem fica no banco entre Pedro Rocha e Raí? Ou entre Sérginho Chulapa e Careca?

Então montei três.

01. Rogério, Cafú, Renganeschi, Darío Pereyra e Serginho. Chicão, Toninho Cerezo, Pita e Raí. Müller e Careca. Técnico: Telê.

02. Zetti, Pablo Forlán, Mauro Ramos, Lugano e Leonardo. Roberto Dias, Muricy Ramalho, Friedenreich e Pedro Rocha. Leônidas da Silva e Serginho Chulapa. Técnico: Poy.

03. Valdir Perez, De Sordi, Oscar, Ronaldão e Nelsinho. Pintado, Gérson, Sastre e Kaká. Palhinha e Zizinho. Técnico: Muricy Ramalho.

Para entrar a qualquer momento: King, Canhoteiro, França, Silas, Mineiro e Toninho Guerreiro.

27 de abril de 2010

Sobre amor e dor

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Do calor da Paraíba, da saliva roxa de cana-caiana, do pescado, do barco à deriva, enquanto, no final da tarde, trabalhadores comemoram o morrer do sol. Da mulata de saia curta que atormenta o juízo masculino num bar de periferia. Do genial meio de campo de camisas 10, lá em 70. 

Da cachaça de interior, que acompanha mandioca e sal a gosto. Do trabalho de esconder muamba quando a polícia passa na 25. Do carrinho de sorvete que o moço empurra de chinelo de dedo. Da igreja cheia de fiéis. Do momento em que um portão de fábrica se abre, às cinco, e todo mundo se liberta e cai no mundo, nas escolas, nos refúgios, no sofá. Da fila de banco ou emprego. Da exposição de rostos tristes. Da briga por leite, ônibus, metrô e bolsa-família.

Porque a vida é simples, frágil, breve e única.

25 de abril de 2010

Espiando Blake

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Senta-se calmamente, abre um livro, lê. Mesmo que o mundo parece ser o mesmo em outro, há 150 anos entre a gente. Na parede atrás de si, o ponteiro menor do relógio dá uma volta inteira. A essa distância, vejo-o com um mundo de coisas rodando dentro de mim, cansado de tudo. Porque eu não queria nunca ter crescido. No fundo, tenho enorme saudade de quando o mundo era menos chato e sério. Mas, ao mesmo tempo, sei que meus cabelos crescem independente da minha vontade e que aquele relógio não pára.

É quando decido, pela primeira vez, me abrir como nunca. Ser mais sincero do que se recomenda. Decido me revelar, mesmo me arrependendo, no fundo, a cada segundo. Mas quando penso em aparecer despido das paredes que impedem minha vista, Blake segura uma caneta. Então recuo alguns metros e volto ao corredor de sempre, de onde vejo literatos escreverem fragmentos. Penso: “Nessas horas, com as palavras, tudo volta a ter sentido, porque tudo passa a ser razão”. Não sei se estou certo, porque meu coração ultimamente tem mandado mais em mim. Ao que ele escreve:

To see the world in a grain of sand,
And heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour


Sinto paixão por algumas coisas e volto ao século XXI. Ao meu quarto, de onde não quero nunca sair. E me ponho a pensar que, independente do que acontece à minha volta, é só o meu mundo interno, nada adulto, que me faz ser quem de fato sou. E, por um instante, descanso na paz do mundo e fico livre.

23 de abril de 2010

Fim do dia, da semana...

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Se é verdade que a beleza transita pelo irracional, está certo o que dizem sobre as sextas. E sobre o fim de cada dia. Por isso faz tanto sentido um abraço forte: é quando paramos de jogar na defesa e nos entregamos ao colchão. Pernas pro ar, cabelo bagunçado; falar o que quiser e na hora que quiser.

Fosse só um tira-gosto, não viciaria tanto. Mas tem sempre algo a mais por entre os fechos da rotina, que só café tem, só beijo, só o que é bom de verdade; e só vivendo pra saber.

Quando chega o fim do dia, fica mais claro com o escuro da noite: as estrelas estão lá em cima e mostram que tudo é mais que papel, telefone, calculadora e agenda. Mil ligações não fazem mais sentido que um único abraço. Um único abraço salva o caos de mil informações.

20 de abril de 2010

O que é de dentro

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Não se mede tempo no que é de verdade. Não existe pouco, muito, breve, longo. Nada que congele ou apresse os ponteiros. Porque o relógio é matemático, mas o amor não. Ele é uma conta que não fecha! E não há maneiras de entender algo assim, porque não se explica com a cabeça o que pertence ao coração.

Que, por sua vez, não se entende e nem quer: está ocupado com coisas maiores.

19 de abril de 2010

Espiando Florestan

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Ele pára por um momento sua atividade fervorosamente engajada e o olha. Lá em cima, o azul celeste é fundo para desenho em nuvens, tão abstratos, tão reais, tão facilmente perceptíveis, mas tão comumente despercebidos.

Limpa o suor da testa com um lenço que retira do bolso do paletó. Miúdo, etíope, acena com o braço franzino para um táxi que não pára. São Paulo nunca foi coisa pouca, mas agora está demais.

Transborda da cisterna abarrotada de liquidez quotidiana nervos à flor da pele, uma coisa tipicamente tupiniquim, embora, é verdade, todo mundo parece caminhar sem se preocupar com os demais.

Ser frio, para não parecer vulnerável. Quer coisa mais paulistana?

Dessa vez, sou eu que estou no quarto. E, lá de cima, do terceiro ou quarto andar, o vejo pela janela com os olhos carregados de um orgulho pueril e nacionalista. Sempre achei essas coisas a maior bobagem, mas, por ora, me abre o peito ver este senhor.

O que me leva à admirá-lo com o romantismo das janelas e a frieza da distância. Essa última, sobretudo, não me dá espaço: de onde estou, observo-o há mais de 40 anos.

E o primeiro me leva a sonhar, o que me leva, por conseqüência, a imaginar. Devanear. Transporto-o dali e o coloco sentado à mesa de um bar. Ele pede uma bebida, saboreia alguns tira-gostos, reflete sobre o seu arredor, e num papel de boca escreve: “ninguém fala ou cala coisas por acaso”.

É quando fecho a cortina e me deito. Tiro-o do bar, porque já me basta. Numa frase o resumo de tudo. Ligo a outra janela, troco os canais, e vejo que, ali dentro, tudo é bem mais colorido.

Não ao acaso.

Como também não é o cinza lá de baixo, onde Fernandes, finalmente, consegue um táxi.

São janelas diferentes, mas iguais em conteúdo: uma alienação sem freios.

16 de abril de 2010

Espiando Weber

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Como se fosse o céu a razão de seus conceitos, ele para e o olha pelo quadrado da janela. Vejo-o pela porta semi-aberta e espero por algum movimento já há algum tempo. Estático, ele não se move senão para limpar a vidraça que embaça enquanto respira, de tão próximo do vidro que está. Parece incomodado.

Enfim, vira-se. Eu, mais rápido, me escondo no corredor estreito. Não desejo que me veja, porque, como um voyeur de idéias, o espero revelar o que só se revela a só.

Max agora mostra-se diferente. Faz alguns rodeios, desenha espirais. Parece bailar. Mas, se com o corpo não acerta o compasso exato de um ballet, produz pensamentos que não erram o tempo. Tornam-se atemporais, também por isso. Busca uma caneta. E escreve: “neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”.

É quando me vem à mente um sem-número de casos, pessoas, jornais. Na ponta dos pés, para que ninguém ouça o barulho de minhas idéias, me apresso em sair. Dez, onze, quinze passos e estou de novo à rua. Um século depois, me pego pensando nesse povo bege que atrás do agasalho grosso da imparcialidade remonta os fatos e a história de maneira fria, sempre em cima do muro. Depois entro num bar qualquer e peço uma bebida. Fosse qualquer personagem da série Quotidiano, seria fácil pagar e sair. E o post terminaria.

Como a série é outra, o álcool provoca mais. Não se dorme com um barulho desses, e fica no ar que, fosse não e sim no mundo adulto, outras seriam as respostas da vida. Quiçá as perguntas.

Mas há um vão entre o errado e o certo. Onde a neutralidade se acomoda, aqui e acolá.

14 de abril de 2010

... politicamente correto

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Ninguém gosta do que não entende. É assim com as crianças e é assim no mundo adulto. A diferença é que na infância isso é levado a sério e manifestado. No universo dos crescidos há todo um teatro para esconder gostos e abrir mão de coisas simples. Todo esforço é válido para girar a roda do bom convívio.

Talvez por isso, ao subestimar os comentários dos menores, o mundo adulto não vê a coisa mais óbvia: para tudo fluir melhor, basta ser sincero. Não e sim. As an adult, no one can stop you. A não ser o conjunto de regrinhas básicas que está em todo lugar: nas prateleiras, no trabalho, no trânsito...

Cresceu, não tem jeito: alguém vem e cobra que se entre no jogo.

13 de abril de 2010

Espiando Dostoiévski

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Abro a porta devagar e o vejo em pé, de costas, olhando o céu pesado do inverno russo. Usa roupas escuras, um casaco que lhe encobre quase por inteiro e um chapéu. Minutos depois, caminha para o lado da sala onde está a mesa de trabalho, cheia de papéis, um copo com bebida e um cinzeiro. De onde estou, um pouco longe, não consigo ver mais do cômodo senão aquele canto, exatamente onde se senta.

Pensativo, limpa parte da mesa e num papel em branco escreve: “As vezes o homem prefere o sofrimento à paixão”. E Fiódor repete a frase em voz alta. Pronto: é o suficiente. Quase duzentos anos depois, fecho a porta e desço a escada que me leva à rua de novo, de onde, assim penso, não deveria ter saído. Porque palavras não são só palavras. Juntas, têm mais poder do que qualquer exército.

Depois, me vem à mente tudo o que quero e não posso ter. Também coisas que tenho e já não quero mais. Toda uma vida dedicada à paixões que me fortalecem, revigoram, me trazem sentido — e me ferem. Passeios de carro pela madrugada, um beijo mais a noite, comida, livros, construções, cidades. Fosse fácil alimentar o peito, dar de comer às nossas paixões, saciar nossa fome de beleza, seria tudo melhor.

Posso a qualquer hora largar tudo e ir fazer o que me dá prazer. Não posso, em momento algum, deixar que alguém note.

12 de abril de 2010

Presentaço!


Agora está assim: voltei à fase de ouvir Rush o dia inteiro. Coloquei para ouvir no carro e bateu a maior saudade. Aí me lembrei que o Rika tem coisas legais, peguei o celular e mandei uma mensagem: “vc ainda tem o vapor trails?”. “Tenho. Amanhã levo pra vc”. E ganhei, no dia seguinte, 3 CDs de presente!

“Pode ficar, são seus...”. Sem palavras!

11 de abril de 2010

Big money

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Quem acompanha a "evolução" dos projetos para a Copa no Brasil em 2014 sabe o quanto a coisa está feia nos bastidores.

Problema crônico nacional que me lembra um velho ditado: “brasileiro não gosta de esporte, brasileiro gosta de ganhar”.

E, nesse caso, ganhar tem um só $ignificado.

10 de abril de 2010

Amor de digitígrado

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Sempre cabe um abraço nos pelos da Duda. Seja dia, noite ou madrugada, quente ou frio, sol ou chuva, ela sempre me acolhe com a língua no rosto, encostando-se em meu peito. Tudo bem que me empurra para fora da cama ou morre de ciúmes de sua bolinha e nunca me dá, por mais que eu peça.

Objetos, mais espaço? Não preciso, porque a tenho e isso é tudo.

8 de abril de 2010

Coleção

.Ontem ganhei do meu amigo Lauro, da banda Oklahoma, um presente que só quem gosta de velharia sabe o quanto é especial: sua coleção inteira de vinilContei 87 discos e três compactos, que irão se juntar aos meus com o maior carinho.

Tem de tudo, especialmente em se tratando de rock popular brasileiro e heavy metal.

Todos do Barão com Cazuza estão lá, além de Carnaval, Declare Guerra e Supermercados da Vida. AC/DC também tem bastante: sete álbuns!

Há coisas que eu já tinha e acho geniais, como O Concreto da Plebe, os três primeiros da Legião e Big Bang dos Paralamas. E outras que sempre procurei e nunca encontrei no formato, como o In Utero do Nirvana e o Chaos AD do Sepultura.

Outros legais são The World Won´t Listen, coletânea de 87 dos Smiths, Standing on a Beach, coletânea de 86 do Cure, e Selling England by the Pound do Gênesis.

Também são o primeiro solo do Ozzy (Blizzard of Ozz), o disco do Fausto Fawcett que tem "Kátia Flávia", os dois primeiros do Ira!, o Ao Vivo Duplo do Camisa de Vênus e Bandido do Ney Matogrosso.

Há um bastante raro: Tente Mudar o Amanhã, primeiro do Cólera, com dez faixas de cada lado. O disco é azul, nada a ver com as letras em vermelho-sangue da capa anarquista. Dentro, acidentalmente, encontrei um encarte do Ratos de Porão.

Na mesma linha há uma coletânea chamada São Paulo Metal que reúne as bandas Salário Mínimo, Vírus, Centúrias e Avenger. Pau de sebo mesmo, lançado pela Baratos Afins em 84. Deve ser raríssimo, já que o encarte menciona ser “o primeiro disco de metal brasileiro”. Não sei se confere.

Das coisas que não conheço, tem La Bionda, Triumph, Saxon, Krokus e Stress. Todas de heavy metal, fora a primeira.

Do mais, há um monte de coisas ótimas de bandas nacionais, como Nenhum de Nós, Ultraje, Titãs e por aí vai. E algumas trilhas de novelas que não serão aproveitadas, embora Tieta do Agreste tenha uma capa linda!

Falando em capa, herdei duas das maiores bizarrices que já vi na área: uma do Ted Nugent de tanguinha e braços metamorfoseados em guitarras e outra do Zezé de Camargo em seu primeiro disco, com pose de galã e marca de batom na bochecha...

Fora este último, cuidarei de todos de todo coração.

Valeu mesmo Laurinho!

7 de abril de 2010

Censura

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Entender a própria censura é a prova de que infelizmente nem tudo é como a gente quer. Mesmo quando tudo aponta para um único e previsível lugar.

É assim com todo mundo. E com o mundo todo.

Tome o exemplo de um quadro numa escola de Belas-Artes: mesmo diante da crível sagacidade do artista, é a pintura que o faz; e ela tem suas regras.

Pois então, se até o abstrato de um painel condiciona regimento próprio, o que esperar de um músculo voluntário e independente?

Nada podemos fazer: ele é livre e sua liberdade não tem limites, tampouco se importa com o que podem pensar aqueles que não o compreende.

E é ele que escolhe a quem se prende. A razão é sempre coisa pouca pro coração.

Você pode até tentar burlá-lo, preocupando-se em cuidar da casa, do trabalho, das plantas. Sempre há um amigo por perto, o sorriso do cachorro, futebol logo à noite, provas na faculdade, música, livros, internet, qualquer outro tira-gosto.

Nunca há, no entanto, algo tão grande para preencher tamanho espaço.

Que só cabe num abraço forte.

5 de abril de 2010

Espiando Voltaire

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Só lembranças boas lhe vêm à mente. A última cartada, o último bom negócio, a última música, o último livro, a última ideia. François-Marie pega uma caneta e escreve, com leveza: “Todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo”. Simples assim, numa frase o resumo de tudo.

Dois séculos depois, fecho a porta com cuidado e saio, na ponta dos pés, pensando nos amigos que tenho. E sinto saudade das brincadeiras, dos risos ingênuos, do futebol de madrugada, dos pés sujos de rua, da infância. Anos que foram embora, soltos, com a certeza de não mais voltarem, mas que ficarão presos na memória para todo o sempre.

2 de abril de 2010

Everything in its right place

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Bebo a milésima xícara de café, enquanto vejo o Dani pular com os alunos do Núcleo. Poderia ser um bourbon, tomei-o uma vez só e não me lembro ao certo o sabor, mas a vaga lembrança me diz que é ótimo.

Estou um tanto triste, ouço Radiohead e vou pra baixo. A primeira faixa de Kid A me faz pensar num monte de coisas, é perfeita, vôo do caos ao céu. Leis da natureza deveriam ser facilmente quebradas, queria voar por aí. Deve ser por isso que os homens quebram facilmente as suas, inveja do que é perfeito.

The big fish eat the little ones. O mundo é de todos, mas nem todos podem tê-lo. Mesmo que, além desta vida abafada, exista um sem-número de estrelas e sóis, um coração que desconhece a vida ordinária. Entretanto, não vivo lá, mas aqui, e tenho que fechar as portas e partir, já é tarde. Thom de novo me dá o toque, por meio do amigo que agora atravessa a porta.

You can try the best you can. If you try the best you can, the best you can is good enough. Se não está tudo bem, ao menos tenho algum tira-gosto. Fosse fácil, não e sim, tudo estaria melhor. Mas há um vão entre o errado e o certo. E o mundo continua a girar, quadradinho que é.