29 de agosto de 2011

Cangaço

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O corpo expelia o odor azedo de uma vida mal cuidada e não regrada. Enfim, no esquife!

Mesmo estirado e inofensivo, houve quem desejasse espetar um palito de dente nos braços inchados do homem, “assim, só por conferência”.

“Ora, ora: o mundo menos ignorante”, dizia aos risos, entre as condolências dos íntimos e a pressa de um ou outro sociável que, cúmplice, não arranjou desculpas para não ir.

15 de agosto de 2011

Tokusatsu

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Os monstros das séries japonesas tinham planos e razões, mas não estavam certos. Ter razão e fito é o de menos, é só ter.

12 de agosto de 2011

Rosa

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Um sambinha de Cartola soa ao fundo, enquanto ela passa e mostra a saia, curta o bastante para atiçar a imaginação.

Os amigos olham, José também, com o cigarro terminado e o copo de cerveja por encher. Como sempre, faz duas ou três piadas e ri, celebrando o humor com o dedo em riste, feito um troféu, diploma de seu afeto.

Outras saias balançam e levam a outros brindes. É sexta, e até segunda só o futebol será mais importante. Santa paz, ancorada na fé de que hoje basta, amanhã só-deus-sabe.

9 de agosto de 2011

Crédito

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Pôs os dedos surrados sobre a mesa. Em tom amarelo, as unhas mal resolvidas atestavam o trabalho árduo de décadas. Vinte ou vinte e cinco comungavam da mesma fila, à espera do senhor que, de mau humor, levantava os olhos por cima dos óculos e da gravata.

Trazia uma imensidão de papéis, pedido e bobagem da burocracia: a credibilidade estava intrínseca, presa à munheca.