30 de setembro de 2009

O peso subjetivo do que somos

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Há um dado na estante. Ele está lá, parado, e você tem certeza de que nunca sairá de lá, porque acha que é seu. E é, até você o perder.

Por algum motivo, você pega um pedaço de papel e joga fora, afinal, papéis são todos iguais. Mas aí, um belo dia, você percebe que não é bem assim, pois aquele pedacinho de sulfite, com seus rabiscos e particularidades, era único.

O que dá sentido às coisas não são as coisas, mas o significado atribuído a elas.

Tudo isso é bem clichê. Mas todo clichê é fruto da repetição constante ou inconstante da verdade. A vida é a repetição subjetiva do que se faz de bom e ruim. Somos frutos de cada dadinho que se foi, de cada papelzinho. E se amamos a nós mesmos, amamos o significado de cada cheiro, sabor ou tato colecionados ao longo do tempo. A história que nos trouxe até aqui é a história do que somos.

28 de setembro de 2009

Os brucutus

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Ontem o bicho pegou na Praça. Dois sujeitos começaram uma briga que, mais tarde, transformou o clima familiar num ambiente pesado. O público em volta, claro, chamou a atenção: a cada soco, corria todo na mesma direção, como gados, para depois voltar ao lugar de origem, onde outro seria desferido.

Triste cena, e não estava. Uma banda tocava no palco. Curiosamente, abriu o show com "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", cuja letra diz: "You are such a lovely audience". Os músicos interromperam a apresentação. Antes, não só crianças andavam no local, mas também muitos vira-latas. De lixo em lixo, rodavam à procura de comida.

Sobre a briga, dado momento um sujeito mais baixinho fez um único movimento, aplicando um cruzado de direita que, nunca vi igual, foi suficiente para derrubar o adversário. Algumas pessoas tentaram reanimar o coitado no chão, sentiram pena do rapaz.

Eu, ao contrário, senti mais pena dos bichos que, assustados, foram forçados a irem para outro lugar, longe dos homens. Ninguém notou: infelizmente, chamam menos atenção do que dois brucutus descendo o braço um no outro.

25 de setembro de 2009

Hoje

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Hoje acordei encaetaneado. E, além de Caetano, passei a manhã ouvindo Belchior. Vim a pé para o trabalho. O céu está azul claro, com poucas nuvens, mas todas de algodão. Tem uma que é igual ao mapa da Itália e outra que parece muito com pulmões! Comecei um novo conto.

Por detalhes. Na noite de ontem ouvi "Tigresa", voz e violão, e hoje tudo ficou mais leve. Dormi e amanheci com ótimas trilhas. No banho, cantei "Alucinação". Porque a vida é o não-sentido das coisas. Mas nada de pânico, quando, diz Caê, se pode tocar um instrumento. Um violão, uma gaita, uma caixa de fósforos. Uma caneta que batuca na carteira da escola. Nada ensina mais. Nada pode ser maior.

21 de setembro de 2009

Ser quando crescer

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Dois e dois são quatro e a qualidade do ensino no país não é das melhores. Óbvio até para uma criança. No entanto, ser ruim não é a pior contribuição do sistema de ensino para a sociedade, embora seja terrível. Há outra, subjetiva e mais difícil de corrigir, ainda mais grave: a insistência com a moral.

Essa, além de justificar muitos erros, também contribui para não raras vezes jogar a culpa pelo pífio desempenho educacional nas costas do aluno. Ela transfere responsabilidades, principalmente quando o sistema justifica suas falhas em ditados moralistas como, por exemplo, “o aluno não aprende porque não quer”.

A forma como algumas questões são abordadas no ensino, por quem dirige e por quem põe a mão na massa, é absurdamente controversa. Dizem que é na escola que moldamos nossos valores, mas ao mesmo tempo eles são apenas transmitidos. Isso tem uma diferença enorme.

Afinal, uma coisa é estimular uma criança a pensar, passando a ela a importância do processo de reflexão para a construção da sociedade etc. Outra, completamente diferente, é transmitir conceitos moralmente prontos, acabados, de "certo" e "errado".

Reforçam, dirigentes e professores, a noção de "sucesso", por exemplo. Fica transmitido o sucesso como projeto de vida, mas o medem pelo que se faz e se tem, o que deixa subjetivamente colocado o fetiche de que, na vida, o mais importante é ter e não ser. Ou que ser na vida é ter.

Dentre tantas, essa é uma das maiores atrapalhadas da moral. Pois faz com que a criança aprenda, desde cedo, a responder o que quer "ser" quando crescer. Que pergunta violenta! Fica pressuposto que, enquanto não se tem trabalho, não se é nada. O pai desempregado e o irmão sem profissão, tão comuns, inclusive.

18 de setembro de 2009

O que é de cada um

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As pessoas valorizam tudo aquilo que fazem quando não podem ser vistas. Ninguém é o que é quando há mais alguém no quarto, mesmo escuro. As pessoas só são verdadeiramente aquilo que são quando estão sozinhas.

15 de setembro de 2009

Bichos

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Bichos são bem emocionais. Não conhecem o passado, não se importam com o futuro. Para eles, vale o presente, correr em direção de quem gosta e rosnar para quem não conhece. Não que o bicho-bicho, ao rosnar, queira briga. Ele apenas quer que o deixe em paz, que não o perturbe, que o deixe curtir a vida com quem se identifica.

Os homens, ao contrário, contam com a ajuda da razão. Não se resumem ao presente. Conhecem o passado, o relembram, e vivem fazendo as mais sérias previsões sobre o futuro. Quando é preciso, o bicho-homem sorri para quem não gosta e finge não gostar de quem realmente gosta. Não é raro querer briga, mesmo sem motivo. Em muitos casos, deixa de lado um amor por questão de conveniência.

Não sei se sou mais bicho-bicho ou mais bicho-homem. Só sei que existe um ou outro bicho-homem com um pouco de bicho-bicho, embora não exista nenhum bicho-bicho que tenha algo de bicho-homem. O que sei, porém, é que gosto muito mais do bicho-bicho. É, sem dúvida, uma espécie muito mais confiável. E, além de tudo, sua lambida é bem mais molhada!

12 de setembro de 2009

O que é de todos

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Passei a manhã toda pensando num ditado árabe que diz: "O guarda-chuva pode até ser seu, mas a chuva sempre será de todo mundo".

10 de setembro de 2009

Sobre a verdade de hoje

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Li em Bauman que praticamente nada se torna tradição na vida pós-moderna. As coisas não se repetem, porque são substituídas por algo novo. Como nada tem forma, também não tem fronteira e se liquidifica, tornando-se efêmero. As coisas não têm importância, pois, se tudo é passageiro, não há motivos para se criar vínculos. Por que ir à fundo se amanhã será diferente?

Essa é a verdade de hoje, embora a história nos mostre que há muito perigo na montagem da verdade. Só não sei se a vida precisa de certezas: ando duvidando, cada vez mais, das verdades que me dizem.

8 de setembro de 2009

Teen Scream

Te.
Em 2001, escrevi uma letra para minha banda, a Nuvem Aquática, chamada "Esquinas". Tocamos essa música por um bom tempo e depois a abandonamos. Porém agora, quase oito anos depois, voltamos a mexer nela.

A gente sempre tocou a música em português, mas tenho guardado uma versão da letra em inglês, que ficou bem legal.

Corners

in every corner of this city
there’s forlornness everywhere
sad boys asking for money
real scenes from any day

each street that I walk
sprayed walls, trash on the angles
teenagers loosing their charm
immorality scenes from any night

but, only who knows,
in a filthy alley
where beggars ask for changes
it’s not too late
and it’s not all
but only a little

at each day of this city
attention is took for granted
loosed in the corners
in the running of our cars

pass one and other corner
it’s the hot days and cold nights
ask for money, ask for changes
by the windows of our cars

only who know
about this filthy alley
where beggars ask for changes
realize that is too late
and in this world
we are all subordinate

youth should be the period
that we would pass
discrediting on TV and waiting the future
a rude world wasn’t to have
nobody cares about we think
an if the right is wrong
we got everybody up on the wall

4 de setembro de 2009

Papéis!

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Nos últimos dias, vários pedacinhos de papel me caíram no colo, com uma citação, o número de algum telefone ou um desenhinho tonto que fiz em alguma aula muito antiga, enquanto o professor divagava e eu pensava em música, filmes ou qualquer outra coisa. Poesias, trechos de textos que rabisquei, projetos que tinha em mente por em prática algum dia e não duraram o fim da aula.

Num desses papéis, achei uma frase que adoro: "O tempo no inconsciente nunca passa". Devo ter lido em algum livro. Além dessa, achei outras, soltas em tudo quanto é tipo de papel: de caderno, de boca e até de pão! Poderia colocar várias aqui.

Mas vou citar só mais uma, que encontrei dobrada no meio de uma antiga lista telefônica: "Talvez faça parte do amor aprender a deixar partir".

3 de setembro de 2009

Toninho

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A faculdade de Ciências Sociais tem ratificado minhas dúvidas, e criado outras, o que me leva a entender que escolhi o curso certo. Muitas me vêm nas aulas do professor Antonio Luis. Seja dentro ou fora da sala de aula, seja discutindo a matéria ou assuntos extra-curso, o véio Toninho sempre tem algo a dizer. E de modo único.

Com ele, tive ensinamentos que, para mim, são geniais. Citações como “o diabo é perigoso: não porque é mau, mas porque é velho” ensinam mais do que um curso todo. Toninho é meu professor favorito.

1 de setembro de 2009

1º post (outra vez)

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Impressões sobre o mundo adulto passa a ser o nome do blog a partir deste post. Resolvi renovar, pois havia mais de um ano que estava a mesma coisa e já havia cansado.

Alterei cores e limpei o layout.