29 de novembro de 2013

Prateleira

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Maria da Esquina acorda bem cedo com muitos sonhos e planos, pouco no bolso e muito na cabeça. Adora sol e cerveja, mas não desce à praia faz tempo. Nada a incomoda: a filha está lá, e tudo está bem.

Esquina é uma divisão que deixa duas Marias em situação desigual. O problema é que nenhuma tem culpa. A roda gira independente da vontade de cada uma. A fila anda. É a construção da história, que fazem juntas, junto com os outros, e não dão conta.

Uns fazem charme, outros ralam, uns compram, outros vendem, o mundo é um grande supermercado expondo vidas. Vende-se tudo, até sorte e destino, raiva e amor; e medo. E Maria, que dorme tarde, segue calma: se o problema é invisível, como acertá-lo?

18 de novembro de 2013

Sobre ela e sobre coisas

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Tenho um barquinho de Veneza bem kitsch na estante do quarto, mas deixo sempre pra depois a ideia de tirá-lo dali. Eu não sei qual é o objeto mais estranho que tenho em casa, mas provavelmente ele está entre eles. Com o tempo, me tornou tão familiar que nem o vejo mais.

Tenho algumas músicas guardadas que não ouço faz tempo. Alguns cadernos velhos, embora poucos, já que não costumo guardar muita coisa: baquetas, manuais, uma cerveja argentina, algumas revistas. Passo pelas coisas todo dia e nem bola dou.

Não tenho muito jeito para dizer a ela o que quero quando preciso. Por não ter, penso nisso direto.

4 de novembro de 2013

Estágio

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Segue o barco no mar, sempre à procura de uma bússola. Junto a isso, descobertas paralelas: o centenário de Camus motiva bons artigos, falta sangue em São Paulo, Varella continua em forma, e aquele moço, veja só, tem um currículo cheio de surpresas: roubo de poucos centavos de uma conta aqui e ali.

O Universo está se expandindo, todos os pontos estão ficando mais distantes uns dos outros enquanto o tempo passa. A percepção de espaço do homem, no entanto, parece seguir caminho contrário.