23 de junho de 2010

Digressões finais sobre Cora

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Revelado o poder do espelho, Cora voltou suas atenções para dentro de si. Queria descobrir o que havia lá dentro e estava convencida de que nada poderia ser maior. Não podia ter tão poucas cores: haveria de ter mais, outras e melhores.

Afinal, o que era sua vida senão um espelho do viés pelo qual idealizava o amor e seu poder sobre ele?

Outra Cora, a Coralina, de quem gostava muito, costumava dizer que o saber se aprende com os mestres, mas a sabedoria só é aprendida com o corriqueiro da vida. Ela adorava essa frase, porque lhe remetia a um tempo em que suas preocupações eram bem mais singelas, mas lhe encantavam muito mais. Sentia-se rica como nunca mais sentiu.

Apoiada nesta idéia, decidiu voltar a ser quem era 13 anos antes: uma estudante apaixonada pelo novo e irresponsável com os dogmas. Nada de certo e errado, de pode e não-pode, agora tudo seria, pelo menos por um tempo, como um dia foi.

Conseguiria? Seria capaz de voltar àquela jovialidade subliminarmente erótica e tenaz, com a qual tanto se envaidecia e despertava atenção?

Tinha convicção que sim. E mais: teria, agora, um repertório maior de digressões, teorias e referências sobre tudo, corpo e mente. Porque é dentro da cabeça que se processa todas as sensações exteriores, de tato e cheiro, de paladar, enfim...

Podemos ilustrar com metáforas, porque ela adora que seja assim, a distância percorrida do momento em que decidiu revigorar-se ao que se segue, quando vê a si em companhia de três pessoas no mesmo quarto: estende-se uma corda entre o cinza do céu e o da rua; devagar, porque não há que ter pressa, se sobe em direção ao céu; é certo que jamais se chegará ao destino, mas a determinada altura o firmamento estará azul!

Voltemos à Cora: ela já não sabe de quem é a boca, de quem é esta mão, aquela, o que tem perto ao rosto e de quem. Mas não se importa, porque é assim que era antes: vivia, não sabia como, não se perguntava, mas vivia.

Ela se vira de costas, ou alguém a vira, ela sente suscitar desejos escondidos, esquecidos, sente que ainda é a Cora de sempre e quer perpetuar este momento para o resto da vida.

Sabe que não é possível, mas acredita piamente que sim. São quatro pessoas completamente à vontade e ela, segura de si, fecha os olhos. Não quer ver, porque sentir lhe basta e é tudo. Percebe que todos exalam o suor daquela dança, algo tão característico que nem o cheiro do cigarro, do vinho e do mofo do quarto de quinta categoria é capaz de apagar.

Tudo ali é tão simples que chega a ser animalesco. E é justamente por isso que ela se sente feliz como nunca. Ali, ela é a Cora-humana, com seus poros, buracos, odores e expressões.

Não há roupa, marcas, pecado, moral e todas estas coisas que se é obrigado a carregar nas costas.

Mantinha os pés no chão, tinha também os braços, a palma da mão apoiada e flexionada a cada impulsão atrás de si. Mas estava no céu. E amanhã também estaria, independente do lugar em que estivesse.

22 de junho de 2010

Preto

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Não há nada que perdure no percurso da história. Tudo é, assim, uma fotografia de seu tempo.

E se algumas coisas são mais duradouras do que deveriam, talvez seja porque vivemos muito pouco, mas este pouco termina por ser muito.

Um século é uma brisa para a história – quando se vê, já passou –, mas é demasiado longo para um homem.

A verdade dogmática, por exemplo, dura tanto quanto a humanidade. Com uma venda nos olhos, se vê até o invisível. Ela se vende sempiterna.

Mas isso é menos importante para a história do que parece, já que é, também, uma verdade construída por ela. E, além disso, ainda há mais: não se deve tirar as verdades do mundo, quaisquer que sejam.

Tirada a fé, seja ela qual for, resta ao homem uma arma que ele não consegue manusear.

É por força de tal destino que se descolore sonhos e planos. E de nada adiantaria outras cores e respostas, se seriam refúgio apenas, se o ressentimento colore feito o branco – ou seja, não colore.

Torna-se melhor o preto da venda.

21 de junho de 2010

Cinza

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Neste mundo liquefeito, quase todo bipolar, uma palavra tomou a frente das outras: prioridade.

Já que não há como fazer tudo o que se tem a fazer, tornou-se preciso se render a ela, transformando-a em verdade universal.

Ocorre que a verdade é fruto de construção histórica e achar o contrário é transformá-la em dogma, coisa normal, mas não correta. E sabemos: há muito perigo em sua montagem.

Ocorre, também, que a prioridade de um define direta ou indiretamente o que é importante para outrem, ou ao menos para a sua escolha.

Ou não são as escolhas individuais que colorem o quadro dos dias?

A vida ordinária de pessoas comuns e a vida extraordinária da história: a frase é de Kundera, a práxis é inevitável e não encontro verdade mais crível e cinza que esta.

20 de junho de 2010

Branco

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Era um painel em branco.

Poderia desenhar flores, como desenhei, um coração, como também fiz, uma história, como não neguei. Deixá-lo fosco, como quase tudo por aí, eu não seria capaz. E poderia, depois de pronto, apagá-lo, como nunca quis, mas fiz.

Porque não se desenha com os olhos vendados: os traços ficam inacabados. Nenhum quadro fica pronto sem estar.

Jamais pensei em outra coisa senão no bem, o que implica uma aquarela à realidade. É assim na vida e na arte, como bem sabe Almodóvar, Banksy, A. Sauro e tantos outros. Qualquer pessoa que se vê no espelho compreende.

Com o contar dos dias, porém, termina por ser o quadro uma ilustração (uma rasura já é alguma coisa). E nada muda isso. O sol sobe independente da nossa vontade.

Torna-se passado.

Guardá-lo é o de menos, já que a memória é uma cisterna. A discussão é outra: não olhá-lo, ou escondê-lo, não o faz inexistente. Repintá-lo é inacessível. Esquecê-lo, impossível.

19 de junho de 2010

Digressões sobre Cora e o levitar dos pés

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Já disse neste blog que Cora gosta de metáforas. Mas há algo a acrescentar: nelas, ela vê o sentido de tudo. Diz a si que a memória é uma cisterna, o que é bom, mas não tem um filtro para separar as coisas boas das ruins, o que a torna um peso.

Até pouco tempo, olhava as pessoas pela janela: os jovens reunidos, os adultos com suas pastas, os velhos nas rodas de baralho. Havia uma praça diante de seus olhos com todas as contrariedades inerentes. Um mundo inteiro em poucos metros quadrados.

Mas agora seus olhos estão no espelho do quarto, de onde outra Cora surge. Ela sai da imagem refletida, desce a cômoda e posta-se à sua frente. Encara-a e diz que é e não é ela. Diz que é a Cora da imaginação, aquela que deveria haver, a que é capaz de ser dona de si.

Para provar, começa a levitar. Cora percebe, vê seu reflexo subindo em direção ao teto. E ele, lá de cima, diz não ser igual a esta gente que espera pelo final de tarde para crer em missão cumprida, nem suga no careta a paz para dormir.

Esta outra Cora não circula pelas praças para tratar de negócios e ler os jornais. Vive outra vida. Prefere seu inventário a estes impressos no adult world. Escreve seu próprio livro dos dias.

E, por um momento, ela se surpreende e se vê, também, saindo do chão. Seu corpo agora é leve e começa a subir vagarosamente até chegar à altura do outro. As Coras ficam tête-à-tête.

Beijam-se. Fazem amor.

Cora então percebe que encontrou outra metáfora ótima: é somente no namoro das duas Coras que ela poderá, enfim, tirar os pés do chão. Em outras palavras, é no encontro delas que irá se livrar do peso de carregar nas costas a vida densa de então.

Afinal de contas, se a memória é uma cisterna e disso não há como fugir, o filtro necessário está sempre perto: em qualquer espelho.

18 de junho de 2010

In memoriam

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"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros; e que, para a maioria, é só um dia a mais".

José Saramago (1922 - 2010)

17 de junho de 2010

Ao descer do sol

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Entre alegria e decepção, encontros e despedidas, o mundo adulto se faz independe da dor que pode causar ou do prazer que pode trazer. Não há como, portanto, deixar à nossa escolha fazê-lo ermo ou sucumbir ao caos do que é mal-resolvido.

No entanto, cada um é dono de seu caminho e único responsável por ele. Do nascer ao descer do sol, há uma vida acontecendo e um relógio em cada pulso.

15 de junho de 2010

Digressões sobre Cora e os pés no chão

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Mesmo se pudesse, Cora não conseguiria voar. Porque suas costas são carregadas de coisas densas, o que lhe traz a certeza ingrata de que sequer vale a pena tentar.

Por hábito, fuma diariamente um cigarro às 2h30, uma hora antes de deitar-se para dormir. Há dez anos é assim, quer esteja em casa ou em outro lugar. Mais que uma necessidade, o gesto é a expressão retórica de sua rotina metódica. Quando diferente ("oh, me esqueci de comprá-los!"), se torna mais difícil descansar, embora nem tanto dormir.

Coisa que faz pouco, desde sempre, mas especialmente neste último ano. Sozinha, sente-se distante de si. Trabalha demais. Apoia-se nos clichês de todo dia para encontrar a razão de seu quotidiano. Mas, ao passo que se enche de preocupações, torna vazio o sentido disso tudo.

Como um luthier que, embora sabendo minuciosidades sobre a construção de um instrumento, mal sabe diferenciar um compasso binário de outro qualquer.

Gosta dessa metáfora. Ela parece traduzir a condição de vida ao redor, já que tudo em seu mundo, como aqui, como em muitos lugares, fica pronto sem estar.

No fundo, Cora sabe que é preciso sair dessa. Mas como chegar a outro céu?

Ela não sabe. Suas ilusões são tão adultas que não lhe sobra idéia alguma. Já não acredita mais no que não lhe parece possível.

Ela mantém os pés no chão.

13 de junho de 2010

Quaternária

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Se fossemos dividir a vida em quatro, haveria uma dualidade um tanto curiosa: seriam irmãs as partes um e quatro, bem como as duas outras.

Estaria na primeira nosso leque de preocupações singelas: brincar na rua, escolher um time do coração, descobrir o que há depois da esquina, provar sabores desconhecidos (qual o de um caju?), conhecer palavras novas etc. Estaria aí o luxo de se importar com coisas banais.

Às duas seguintes, ficaria reservado o abstrato. E a luta para tirá-lo do papel. Por ser a realidade mais complexa que a teoria, surgiria o leque das dúvidas e, por conseqüência, as escolhas que ele nos exige. Ficaria a certeza de que não podemos, jamais, nos dar ao luxo de não saber das coisas grandes: as artes, o trabalho, a eloqüência, a ciência. Em suma, tudo o que se constrói no mundo adulto.

Na última, no entanto, estaria de novo o singelo, que nos voltaria a fazer sentido. Todas as coisas que antes eram grandes diminuiriam e, em seu lugar, surgiriam as pequenas, aumentando cada vez mais de tamanho.

Perceberíamos, então, o quão grande são as coisas pequenas e, essas, maiores que as grandes.

11 de junho de 2010

Ínterim

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Há uma corda estendida entre o macro e o micro, filiforme, sobre a qual se equilibram nossas escolhas. Todas as coisas acontecem sobre esse imenso fio delgado, e, por mais divisíveis que sejam, terminamos por separá-las sempre assim: grandes e pequenas. As mais singelas estão dentro de nós, enquanto as grandes se perdem, ou se encontram, mundo afora.

Estar no ínterim dos extremos justifica, de certo modo, o imenso leque de dúvidas existenciais que um homem carrega. Dar o passo em qualquer das direções significa renunciar um pouco a direção oposta.

10 de junho de 2010

Fio delgado

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Não sei como me sentiria num mundo menos comunicativo, mas acredito que bem. Estou tão absorvido por essas ferramentas virtuais que já não consigo olhar a cápsula pelo lado de fora. O que, acredito, não é ruim e me faz ser mais efusivo do que sou.

Se o nosso tempo odeia o segredo, não deveria me sentir assim. Porque, por aqui, não tenho o menor interesse em dialogar, embora alimente o blog com freqüência. Aqui não se fala nada: são impressões sobre o mundo adulto, a partir do fio delgado sobre o qual as escolhas se equilibram.

7 de junho de 2010

Labuta

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Levanta o corpo, estica-se, põe chinelos, blusa, gorro. Dali pro café: meia garrafa e forte. 5h15.

Está frio, gotículas dão as mãos sobre carros, vidros, lixeiras, beirais. Abrem rodoviária e padarias, um cumprimento aqui, outro acolá, o sol abre um olho, o frio fecha um. 5h45.

Chega, coloca a chave, gira, o portão se abre. A cozinha lhe vem à vista, o pátio enorme, vassouras e baldes. Fecha os olhos, relembra tempos outros, tanto tempo, a juventude, os namoros, amigos, toda uma década que se foi, duas, três, quantas! O tempo passa. 6h20.

"Falta 40", diz a si e começa. Água, rodo, panos, detergentes. A fumaça do cigarro lhe beija o rosto, quase se apaga, ela traga e o calor lhe esquenta. Quer parar, mas continua. São 30 anos, não pode desistir agora. Do quê, já não sabe. 6h55.

Senta-se. Em 5 minutos, todos chegarão. Começará a rodar a máquina quotidiana que lhe paga. Tudo está em ordem, então está tudo bem. 6h59.

Dentro de si talvez não, mas quem se importa? Os números são frios demais para calores internos.

Já há tanto tempo é assim que sequer questiona. Tem coisas outras à fazer. Pronto, 7 em ponto.Viu? E o café que realmente notam sequer foi feito.

6 de junho de 2010

Duo

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Vontade e ação coexistem, mas nem sempre se entendem.

É óbvio até quando não é.

2 de junho de 2010

O que é da existência

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Curioso é que para o eu o mundo não existe se ele, o eu, também não existir. Nada mesmo: sons, cheiros, sabores, sensações, sentidos, espaço-tempo, o viver.

Mas fosse só o mundo e o eu, e mais ninguém, eu sequer existiria, porque, como sou, eu só existo com os outros. A existência, já dizia Sartre, precede a essência. E fosse o mundo sem o eu, ele também não seria o que é, porque ele é sempre outro para outro e, para cada um, é sempre único.

Existir, portanto, fundamenta um princípio básico: faz o mundo inteiro existir.

1 de junho de 2010

Cá pra nós

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Uma frase me parece o resumo deste blog: "o abstrato tenta entender o concreto, sempre inflexível".

Ela traduz, com a precisão matemática das letras, que nem mesmo in loco, isto é, vivendo, é possível perceber o quanto o mundo, essa imensidão imprecisa, é carregado de virilidade mostrada, as vezes, candidamente.

E que me resta, neste espaço, somente isso: registrar as impressões de meus sentidos. Tornar palavra indagações existenciais. Do cinza, fazer frases.