31 de outubro de 2010

Insuficiência

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insuficiente / sem o apreço
sociável / de mesma opinião

indecente / o quinhão e seu preço  
inevitável / negociado no porão

26 de outubro de 2010

Sobre os valores de Castor (parte final)

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Castor pede licença e entra. Atrás da mesa, há uma moça muito bem educada e, ao seu lado, a jovem que levou para a cama na noite anterior. As duas esboçam um simpático sorriso, embora mecânico.

A primeira começa a falar enquanto a segunda lhe traz documentos e uma caneta. Elogiam sua disciplina e dizem que a empresa é grata por todos os serviços prestados. Comunicam, enfim, que é preciso remanejar o quadro de funcionários.

Castor entende o recado: está sendo demitido. Seus serviços já não são necessários. É hora de renovar o pensamento, substituir o velho pelo novo.

Questiona os motivos, pede para conversar com o encarregado do setor, “aquele menino que entrou aqui há pouco tempo”. Não adianta, não querem lhe propor acordo, querem apenas que ele assine o papel e retorne para casa. Há trabalho à fazer para quem permanece.

Castor segura a maldita caneta e escreve seu nome no lugar indicado. Suas mãos tremulam, mas as moças fingem não ver. Batem o carimbo no documento. Prometem lhe pagar tudo o mais rápido possível, como se a certeza de ter direitos o fizesse se acalmar.

Ele volta para o portão e por uma primeira vez coloca os pés na rua antes da hora do almoço. Um pouco desorientado, retorna ao ponto de ônibus. Senta-se de cabeça baixa à espera do próximo circular. Tira algumas moedas do bolso e conta os trocados. Tem a quantia exata para voltar. Permanece calmo, apesar de magoado.

Por fim, o velho Castor chega em casa, se joga no sofá e tira seu sapato. Catarina está na cozinha e não o percebe. Ele não sabe o que dizer a ela quando se encontrarem. Ao menos, não passou no bar para beber.

O desânimo ameaça lhe abater, mas ele é forte o suficiente para não permitir que isso aconteça. E, para ludibriar os pensamentos, diz a si que, ao menos da próxima vez, poderá acompanhá-la na feira e escolher, ele mesmo, os espinafres.

25 de outubro de 2010

Castor, 8

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A segunda-feira chega e o mundo recomeça. Na mesa do café, Castor come pão com margarina e bebe leite de vaca, mas dessa vez sem chocolate em pó. E quase fim de mês e alguns produtos terminaram junto com o salário.

Catarina comenta qualquer coisa, mas ele não a ouve. Está com o trabalho na cabeça e não tem ouvidos para outra coisa. Come rápido e, por fim, parte para enfrentar mais um dia de ônibus lotado.

Quando sobe no veículo, cumprimenta velhos conhecidos. As valetas são horríveis, mas não reclama: faz o trajeto há tanto tempo que prevê os pontos ruins. Percebe que o número de passageiros mais jovens tem aumentado e diz a si que é por causa das novas exigências do mercado. É preciso custear estudos e sonhos.

Termina por pensar que, anos mais tarde, serão todos velhos conhecidos. É demasiado ruim vender uma vida inteira por poucos salários, mas nem todos têm a sorte de tornar as coisas diferentes. Acontece.

Quando enfim chega ao emprego, não lhe deixam bater o cartão. Castor acha isso muito estranho, afinal, há 25 anos faz o gesto sem que ninguém o interrompa. 

- Estão lhe chamando no RH.

Caminha ao local, convencido de que deve ser mais um destes treinamentos de hoje em dia. “Antes era diferente, todo mundo trabalhava mais”, pensa. E quase que de modo automático rememora todo o tempo que está ali, semana a semana.

24 de outubro de 2010

Castor, 7

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Pouco antes de dormir, Castor faz uma reflexão sobre seu último dia. Toda noite é da mesma forma. Traz à memória o emprego, a família, a saúde. E dorme em paz.

Mas dessa vez está com peso na consciência. Tem Catarina ao seu lado, mas não pensa nela. Pensa na nova menina da fábrica. Ela trabalha no escritório, mas vai à produção todo dia para levar alguns documentos. É uma jovem de 20 e poucos anos, tem os cabelos pretos e a pele clarinha.

Todos os homens da fábrica a admiram, mas Castor faz do gesto uma prova de sua sinceridade peculiar.

Quando a vê, a imagina nua. No começo ficava envergonhado de si, mas depois passou a separar o fato de suas intenções. No entanto, agora é diferente: nunca havia trazido esta idéia para a cama. Que idéia atroz!

Tenta dormir. Sente-se infeliz por aquele momento e diz a si que tudo é culpa da rotina de tantos anos. Pensa em como seria bom se as coisas fossem diferentes. Se ao menos Catarina se cuidasse.

Mas mantém-se firme. Afinal, convence a si que não há dia bom sem os ruins, nem ruim sem os bons. E, além de tudo, ainda há mais: amanhã haverá muito trabalho à fazer e não é hora de pensar em bobagens, mas de descansar.

19 de outubro de 2010

Castor, 6

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O padre está particularmente mais sereno. Fala baixinho e faz um sermão bastante ameno. Castor não é católico fervoroso, está longe de ser, mas acompanha sua esposa às missas dominicais e cumpre os rituais de dentro da paróquia.

É verdade: sente certo alívio toda vez que o compromisso termina. Não gosta de como algumas pessoas o olham enquanto reza e acredita que estão ali por causa do statu quo. Chateia-se.

Catarina lhe diz que não é certo ter menos fé por esse motivo, mas ele não consegue ser diferente.

Quando retorna, busca algum tira-gosto e liga a tevê (como sempre). Tem a impressão de assistir a mesma atração da última semana. Mas não, é outra coisa, embora a fórmula seja exatamente igual.

17 de outubro de 2010

Castor, 5

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Castor acorda e caminha para o desjejum. Catarina está lá fora, varrendo a calçada, conversando com os vizinhos. Ele come devagar. Pela janela, a olha e sente-se bem por tê-la ao lado.

Ela entra e comenta sobre o último caso do bairro. Castor dissimula, não tem a menor vontade de saber da vida alheia. Pensa em dizer algo a respeito, mas se mantém calado.

Nota movimentos do lado de fora e percebe que o jornal chegou. Senta-se entretido com a leitura. Bate à porta um vendedor de tapetes. Depois, um militante partidário. Dispensa tanto um quanto o outro.

Um jornal e vários programas na tevê depois, sente o cheiro vindo da cozinha. O almoço está pronto: macarrão ao molho vermelho, purê de batata e coca-cola. Come em demasia, volta ao sofá e dorme até a hora do jogo.

O relógio o desperta. Programou-se para acordar no momento exato da partida. Pede para sua esposa preparar pipoca e ela o atende sem pestanejar. Traz refrigerante, mas ele se levanta e busca cerveja.

Quando o jogo termina em 0 x 0, fica frustrado. Uma semana de espera para a partida terminar assim, empatada. Reclama sozinho e diz que aqueles jogadores não merecem o dinheiro que ganham.

“Pernas-de-pau”, resmunga, e vai ao banho, enquanto Catarina lhe apressa, pois já estão atrasados para a igreja.

16 de outubro de 2010

Castor, 4

É sábado e Castor acorda bem mais tranqüilo. Há coisas à fazer: o ferro de passar precisa de reparos e a pia do banheiro de conserto. Gasta a manhã em afazeres domésticos e senta-se para o almoço. Percebe que Catarina ainda está na bronca e se resume a falar só o necessário. Ela, ao contrário, fala bastante. Diz que o bairro comenta coisas horríveis da vizinha. Ele diz que dar ouvidos é bobagem. Depois senta-se no quintal para fumar, enquanto ela estende roupas no varal.

 A que horas as meninas chegaram?
 Um pouco antes de o sol nascer.

Reflete que isso não está certo, mas nada diz. No fundo, sabe que Catarina se encarregará de mantê-las na linha. Entra para um cochilo. Antes, faz a barba e apara o velho bigode que o acompanha há anos. A noite chega e ele se desmonta no sofá. As filhas conversam pela internet e sua esposa dorme com o cachorro no colo. Faz de tudo para não acordá-la. Pega o controle-remoto e troca o canal.

Mas Catarina acorda, muda, e vai para o banho. Castor rememora momentos em que isso não acontecia sem que estivessem juntos. Depois, diz a si que o tempo passou e que já estão velhos demais para se amarem feito jovens. Por fim, abandona os pensamentos, ao passo que começa seu noticiário predileto.

Já na cama, pensa em abraçá-la, mas se contém. Pergunta a si o motivo e não consegue responder.

11 de outubro de 2010

Castor, 3

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Retorna à casa e tropeça na porta ao entrar. Reclama do chão mais acentuado naquele lugar e promete a si mesmo dar um jeito naquilo. Está muito bêbado e Catarina lhe dá broncas e mais broncas por causa disso. Ele a ouve, mas permanece calado o tempo todo, pois sabe que está errado e nada pode fazer.

Suas filhas se despendem, vão para a noite, pedindo para que ambos parem. Catarina diz a elas que não os amolem, afinal, ainda são crianças e aquilo é coisa de adulto. Mas já não são crianças, têm 14 e 16 anos, e ela sabe disso, só não quer admitir.

Castor se dirige ao quarto e despenca na cama, com sua esposa lhe atormentando atrás. Ela diz que o ama por tudo o que há na casa, mas que sua tibieza esmorece o lar. Se o elogia no atacado, critica no varejo.

Mas ele nada ouve e, devagar, o sono começa a vir; e esse momento é maravilhoso, quase sublime, afinal, concomitantemente, a voz nervosa de Catarina vai, aos poucos, desaparecendo.

8 de outubro de 2010

Castor, 2

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Quando acorda, sente uma alegria singular, afinal, é sexta-feira! Foi uma semana difícil no trabalho. É cada vez mais difícil se locomover até a fábrica. Porém, como a vida inteira aprendeu que o trabalho dignifica o homem, não reclama das coisas. Para ele, é quase um pecado.

No café, come pão com margarina e bebe leite de vaca com chocolate em pó. Catarina comenta que é dia de supermercado; ele entende o recado e tira da carteira a sobra do salário. Ainda é começo de mês, mas já é preciso refazer as contas. Ela lhe pergunta o que quer da feira e ele pede espinafres.

Suas filhas acordam para a escola e pedem dinheiro para a noite. Aperta-lhe o peito por não ter mais nada no bolso. Havia separado alguns trocados para o bar, mas entrega a elas. Diz a si que, depois, se acerta no boteco.

O desânimo ameaça chegar, mas Castor termina por se lembrar que há happy hour com os amigos após o trabalho. Além disso, o domingo está chegando, com seu futebol na tevê. Levanta-se revigorado, mesmo com sua esposa lhe cobrando para não beber em demasia ao voltar.

7 de outubro de 2010

Sobre os valores de Castor

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O velho Castor se joga no sofá e finalmente tira os sapatos. Reclama que são apertados demais e pede que lhe tragam café. Na sala, as duas filhas conversam sobre a escola. Atrás de si, Catarina, sua esposa há 30 anos, mantém o sorriso fechado.

Uma das meninas, Carina, vai buscar a bebida, enquanto Catarina lhe cobra que pare com o álcool. Diz que mesmo o café já não tira o cheiro ocre de sua boca e que pretende deixá-lo, caso as coisas continuem do mesmo jeito. Está blefando, e ambos sabem disso.

Patrícia, a caçula, mostra aos dois um toque novo que pôs no celular. É a música de uma nova boy band, e ele vê que as músicas de hoje já não são como as de antigamente. Quando o café chega, liga a tevê e coloca em seu canal favorito. Esse é um dos momentos mais aguardados do dia, e ele saboreia cada imagem como se fosse única, embora saiba que, no fundo, são todas iguais.

O cão de estimação pula na janela e quer entrar. Castor o autoriza e sua esposa abre a porta. O bicho pula no sofá. Passa horas vendo tevê, fazendo cafuné no felpudo. De tempos em tempos, grita para Catarina e ela, da cozinha, lhe traz tira-gostos sem pestanejar.

Quando termina o programa, um telejornal visto por ele como “o mais real de todos”, se levanta e reclama de tudo. Diz pra si que vive num país desigual e que, fosse ele o presidente, muita coisa mudaria, embora sem igual coqueluche.

“Ao menos, eu respeitaria o dinheiro dos outros”, diz, e vai ao quarto, dormir, pois é quinta-feira e no dia seguinte, já cedo, será preciso pegar dois ônibus para o trabalho.