14 de maio de 2013

Retrato perfeito de algum livro dos anos 60

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Deita-se com um pequeno espelho e vê um senhor cujas rugas dizem: “Sim, o tempo passou e as coisas mudaram bastante”.

A imagem mostra que já não é um menino; e, por isso, já não pode agir feito um. Esforça-se para lembrar o momento em que tudo terminou. Ou melhor: em que se transformou em outra coisa, porque na vida nada termina e tudo se transforma. Emociona-se com a imagem refletida e nota atrás dela seus livros empilhados. Lê os autores ao contrário. Sartre, por exemplo, e a tese de que o homem está condenado à liberdade.

Há uma tempestade lá fora, o que provoca um barulho enorme. Desfaz-se do espelho, já não o suporta, já não cabe ali. É quando depara-se com Simone de Beauvoir: “Um adulto é somente uma criança com mais idade”.

Muda então: ainda é hora de viver. Olha pela janela: a água cai, mas uma hora cessará. É sempre assim. Um dia após o outro: retrato perfeito de algum livro dos anos 60.

10 de maio de 2013

Retrato perfeito de algum filme dos anos 60

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Na parede, recortes de revistas lembram o cenário de um filme da Nouvelle Vague. Meio Antoine Doinel, me volto ao espelho e repito, como se precisasse, mil vezes a mesma coisa: se já não busco a vida pelo encanto, continuo gostando das mesmas coisas de sempre, e música, França e o cinema estão entre elas.

Diálogos, descompromisso com horário, vinho e madrugada. Retrato perfeito de algum filme dos anos 60: dizer sim, sem nada dizer.