31 de agosto de 2010

Berenice e a travessia

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Berenice olha para a filha e rememora o passado. Tantas noites em claro, tanto por-vir imaginário. Depois pensa: este é o vão entre o não e o sim quotidiano.

Longo caminho: quem está disposto a percorrer?

30 de agosto de 2010

Berenice e o relógio

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Quando o relógio da cozinha desperta, Berenice sabe que todos chegarão para o almoço: o marido do trabalho e as filhas do colégio. Então pede dinheiro para a feira e comenta que há telefone para pagar, no que as meninas levam esporro: a conta está cada vez maior. É preciso dar um jeito nisso, afinal, ainda há parcelas do veículo, IPTU, escola, seguro da casa etc. e etc.

Todos se levantam apressados, ela se chateia com o tempo, o acha ignóbil, e o dia se fecha. Berenice, contudo, não percebe o óbvio: reclama do que não há como impedir e aceita o que poderia ser evitado.

27 de agosto de 2010

Berenice e a janela

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Pela janela, Berenice olha a filha e vê a rua. Dois namorados se abraçam no portão (e o mundo se resolve).

26 de agosto de 2010

Berenice e a caixa

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Dentro da caixa, há mais cores do que nas prateleiras do mercado, embora, se pensarmos bem, cores são sempre em demasia. Lá dentro, o risco é calculado e a verdade é entrecortada, afinal, a exatidão dos fatos precisa ser editada para ser convincente.

E segue a liberdade pouca, até porque nem tudo se compra em mercados, embora sejam eles contingentes o tempo todo.

Berenice não distingue: aquilo é um retrato das coisas ou a vida é um retrato daquilo? Ela não percebe o óbvio: ali não se retrata as coisas como elas são. Nada é neutro. Em suma, linhas editorais sempre irão ferir alguém.

25 de agosto de 2010

Berenice e a saída

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Berenice procura travesseiro e consolo. Reproduz o discurso festivo que a Rua viu no Horário Eleitoral e mantém sua lógica binária. Sente-se com sorte, pois tudo chega à sua casa sem aparente esforço. Afinal, embora o consumo não seja socializado, sua propaganda é.

Não se indigna: ao contrário, milita. Desconhece o real valor do Rádio, da TV, dos Jornais, do papel e da caneta. Tampouco que a vida, assim como a arte, pode ser tudo, menos qualquer coisa. Que tudo é cinza por construção.

Dilma, José, Marina, Plínio. Tantas Marias por aí e o povo ligado em só quatro delas. Berenice, entusiasta, sequer percebe: propaga outra vida, não a sua. Embora a idéia, em si, seja a única porta de saída.

24 de agosto de 2010

Cânone

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Um romântico vê os olhos de outra pessoa. Um obstinado vê seu objetivo como verbo. Um solitário passa os dias de si para si. Um cão espera pelo dono no portão. Um diplomata tenta entrever o trabalho por trás de cada um. Um fotógrafo admira o azul do céu. Um narcisista procura por espelhos. A cozinheira corre contra o tempo, e o presidiário tenta apressá-lo. Um estudante espera pelo futuro. Um músico rememora um acorde. Uma modelo sobe na balança.

E assim por diante: o apreço de um diante do avesso do outro.

23 de agosto de 2010

Redoma

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Há uma incongruência na pós-modernidade: nos lugares onde há futuro, não se vive o presente. E onde o presente pode ser vivido, parece não haver futuro. Dias liquefeitos preenchem a cisterna do tempo de acordo com o que está em voga; não são páreos para o contemporâneo  e a explicação, provavelmente, é que tudo é uma redoma.

22 de agosto de 2010

Domingo e Zé Ramalho

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Depois de calejar a mão a semana inteira, finalmente é possível deitar o corpo no sofá e assistir tevê sem se preocupar com o tempo. Pôr um filho em cada braço, consertar a geladeira, jogar conversa fora, visitar pais e primos. Depois tem macarrão, Faustão, esportes e missa.

Lá fora faz um tempo confortável e a vigilância cuida do normal. Sonham com melhores tempos. Esperam novas possibilidades. Povo feliz.

21 de agosto de 2010

O sol da manhã

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Levanta-se revigorado, calça os chinelos, bebe o café, acaricia o cachorro. Vida em trabalho.

Deita-se exausto, rememora os flagelos, revê sua fé, debilita-se de novo. Vida em atalho.

O sono vem; ao fechar a porta, o estorvo: pensa em parar.

Revigora-se, porém, ao abri-la de novo; ao ver o sol entrar.

19 de agosto de 2010

Só para quem lê por trás das frases

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Quem visita este blog deve compreender, como princípio estético, que sou absolutamente apaixonado por vírgulas.

Fora isso, só o fato de que sei, porque também me convém, que no "mundo adulto" há cores em todo lugar, e até em demasia, embora tudo me pareça blasé. Inclusive o que não é.

18 de agosto de 2010

Marias

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Compreendo Dona Maria. É difícil crer num mundo que lhe vira as costas, do motorista do ônibus que, fatigado, não tem paciência para esperá-la ao patrão que, mesmo sabendo ser impossível, lhe cobra banheiro limpo.

Ocorre que a escola que lhe mostram na tevê não é a dos filhos. Dizem que a segurança aumentou, mas ela sente na pele que isso não é verdade. Adoece por tanto trabalho e, como prêmio, consegue comprar presentes em alguma data comemorativa. Felicidade resume-se em não passar frio, comer e conseguir presentear os mais próximos.

Ceticismo é compreensível, embora, no fundo, Dona Maria e tantas outras têm o espírito esperançoso de poucos!

17 de agosto de 2010

Aquarela

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Os livros de História dizem que ainda estaríamos grunhindo em busca de comida e calor se a vida não fosse um eterno reinventar. É por isso, e só por isso, que tanto se faz preciso toda e qualquer tinta: para espalhar nossa idéia a partir da aquarela que dispomos. Embora o mundo seja cinza, ou esteja, há mais cores do que possamos compreender, e essa pintura incongruente é a nossa expressão.

And all that there is to say is: this painting will be our remembrance in the future.

16 de agosto de 2010

Direitos

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Dona Maria, do seu modo, sabe que o problema é grande quando direitos básicos e essenciais à vida se transformam em benefícios. É por isso, e só por isso, que é cética com a causa pública: comer e não ter frio, por exemplo, são ataviados e chegam à sua casa, aos outdoors e à tevê como um presente! Fazem, dos direitos, festim.

Não é inocente a ponto de acreditar nesse jogo. Ao contrário, conclui que não pode ser levado a sério um mundo onde há 70 pessoas no Lotação logo às 7 da manhã. É assim há décadas e não se faz nada para mudar. Prefere se preocupar com a casa, com o supermercado à fazer; e cansou-se do resto.

Afinal, já haviam lhe dito: as coisas são assim mesmo, um absurdo. É tão ridículo que só pode ser verdade. Dona Maria não sabe como mudar, é fato, mas também não acredita naqueles que dizem saber.

12 de agosto de 2010

Convicções

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Quando a gripe chega forte, quando o coração ameaça parar, quando o pulmão pede uma trégua, enfim, quando algo físico e concreto realmente mostra a sua força, o mais fiel dos crentes e o mais convicto dos céticos não têm a menor dúvida: correm ambos para a medicina.

O primeiro, contudo, irresoluto.

11 de agosto de 2010

Dissidentes


É óbvio que cada um vê o mundo a partir dos próprios olhos. É por isso, e só por isso, que um professor marxista russo e um jovem americano que estuda economia na GWU, a quatro quarteirões da Casa Branca, não usam óculos iguais.

Revela-se aí uma dualidade latente: é um viés do universo democrático, mas, ao mesmo tempo, é por isso que as pessoas se separam.

10 de agosto de 2010

Temporalidade

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Impressions about the adult world: today are these, tomorrow will be others.

9 de agosto de 2010

Fatos

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Se os conceitos estão inseridos num contexto, é o segundo que serve de verbo. Não é óbvio, portanto, que não há verdades absolutas?

Como dois e dois são quatro, me parece claro que, entendendo isso, todo diálogo se torna mais fácil. E o mundo se resolve: a chuva cai porque é da natureza, o homem trabalha porque lhe é conveniente, duas pessoas se apaixonam porque é da vida.

8 de agosto de 2010

Obrigações

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Dona Maria precisa de dois ônibus para atravessar a cidade, exceto aos domingos e feriados, quando os horários dos circulares minguam. Aí, é preciso um a mais.

Se a função do Coletivo é transportar força de trabalho, não é à toa que seja assim. Embora a placa na entrada do veículo informe que a Viação existe, apenas, para facilitar a vida.

Maria, contudo, não se importa. Já haviam lhe dito: as coisas são assim mesmo, nada é de graça. O dia de hoje serve de prova, afinal, foi uma luta para comprar um presente! O que lhe traz a certeza de que, se parar, não conseguirá cumprir sua obrigação na próxima data comemorativa.

7 de agosto de 2010

Self

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Trouxe à mesa a porção de fritas, prometendo trazer a coca-cola em breve. Anotou mais alguns pedidos. Em meio a centenas, pouco pensava nas horas seguintes, quando, já no quarto, estaria sozinha. Porque a multidão tem a habilidade de coibir barulhos internos. Percebeu que Dona Maria havia terminado a limpeza do banheiro. Meia hora depois, seria preciso repetir o trabalho pela quinta vez, e sem que ninguém notasse, a não ser que deixasse de fazê-lo.

Porque algumas coisas são assim: só são percebidas quando não acontecem. Seria com elas, e não só com o trabalho, assim também? Refletiu. Mas, de repente, largou seus pensamentos e apressou-se em levar a bebida à mesa, onde as fritas já quase haviam terminado e onde notavam, impacientemente, que ela era apegada a sonhos. Já haviam lhe dito: não há nada mais impróprio que um sonho em meio a pressa dos clientes.

5 de agosto de 2010

Topus

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Nem grandes idéias em convenções, nem a justiça dos tribunais de bar. Tampouco pudor, bom-senso, arte ou tira-gostos. Quem dera as cores diárias dos tantos arco-íris fechados em pastas, malas, armários e laptops. Muito menos um pensamento burguês.

Nada resolve o dia se não houver, guardado na memória, um lugar seguro que lhe sirva de retorno, com tudo o que há e cabe dentro. Ter para onde voltar justifica, por essa única razão, sair em busca de vida.

4 de agosto de 2010

Lista à toa, mas revisitada, de pessoas diferentes com algo em comum

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Louis Armstrong, o cara do trompete
Juba da Blitz
Márcio Túlio do Jota Quest

Cole e Dylan Sprouse, os irmãos
Bruna Marquezine
Machado do Estadão

Max Cavalera
Burle Marx
Marcos do Palmeiras

Pita e Kily González
Knut Hamsun, o Nobel
Keighley, entre dramas e males

Elizabeth Bowes-Lyon, a Rainha Mãe
E, até, ele:
Barack Obama!

Dae Kim, o Jin-Soo de Lost
O poeta Shelley
E o autor deste post