31 de março de 2010

Quotidiano 5

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Tirou o cinto de segurança com a dificuldade de sempre e levantou-se, com uma das mãos no volante e a outra na porta. Ninguém, é claro, perdeu seu tempo em ajudá-lo. Entrou.

Suas mãos trêmulas já não lhe atormentavam, tinham se transformado em coisa comum. Afinal, nesse mundo, tudo acaba se modificando e inevitavelmente as pessoas terminam por se acostumar com tudo.

Encostou a barriga no balcão e pediu ao farmacêutico os remédios do mês. Notou que estavam um pouco mais caros. Não reclamou.

Subiu na balança e conferiu ter emagrecido mais um ou dois quilos. Imaginou ser o cigarro em excesso. Saiu.

O dias passavam um a um e um dia deixariam de passar. Ele, no entanto, não tinha tempo nem paciência para se importar. A ciência já havia avançado o suficiente para acalmar seu espírito inquieto, seu coração fragilizado e corpo debilitado.

Medicamentos e futebol lhe bastavam. Quando não, uma grappa romana trazida pelo filho em sua viagem mundo afora.

Em outras palavras: estava tudo certo. Até porque mudar agora seria trabalhoso demais. Bastava-lhe o trabalho penoso e diário de viver.

30 de março de 2010

A volta

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Que é feio desdenhar e requerer de volta, não há a menor dúvida. Talvez, só não menos que resolver tudo pela tangente. Chega a ser cômico, para não dizer trágico, coisa típica dos desprovidos de senso, sempre tão ciclotímicos.

Nada que mereça muita atenção, porém. Ou comentários.

Até porque não se dá créditos à mulher de malandro, que apanha, chora, reclama, mas volta, ou porque gosta ou porque não tem para onde correr. Quiçá as duas coisas.

O mundo está abarrotado de atabalhoados que, cabeça-martelo, causam situações que só atrapalham o girar da roda. Gritam, fazem um escarcéu, para depois notar que o mundo riu de si.

Aí murcham as orelhas, perdem o falso orgulho e tentam cair de novo no único braço que acolhe, mesmo os mais feinhos.

E não porque quer ou gosta, mas porque é obrigado. Afinal de contas, alguém tem que por na boca o leite da criança recém nascida, senão ela morre.

Por fim, registra-se apenas que constranger a si nem tanto, mas constranger os amigos e a quem estende a mão é um dos maiores atentados contra a inteligência que há.

E é justamente por isso que esta espécie de gente não merece atenção ou repercussão. Deixá-la reduzida à própria imbecilidade é a melhor resposta.

29 de março de 2010

Corra e olhe o céu


Redescobri um caso antigo de amor por Cartola, poeta do velho samba que inseri entre o rock e o blues da adolescência.

Se cheguei ao ponto de aprender a tocar caixinha de fósforo aos quatorze, não foi à toa. Foi por ele me fazer entender que as coisas mais belas são ditas da maneira mais simples.

“Corra e olhe o céu que o sol vem trazer bom dia”. Numa frase o resumo de tudo.

28 de março de 2010

Quotidiano 4

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O sol batia forte e cansava, mas ele não desistia. Continuava a lançar ao mar a esperança de voltar pra casa com os peixes do dia, cada vez com mais força e cada vez para mais longe. Trazia no rosto queimado a prova de que a labuta não era branda.

A troco de uma dúzia de cioba e cavala, havia conseguido um vinho tropical de ótima safra. Para manter segredo o escondera no quiosque de ferramentas. E agora, uma semana depois, havia chegado o dia de ele finalmente sair de lá. O grande dia!

A mistura de suor e lágrima era velha conhecida, mas foi naquela tarde que ela mostrou nova face: ao contrário das outras vezes, trouxe junto uma dose portuguesa de lirismo incomum sob o calor alagoano. Se a saudade lacrimejava, a ansiedade abria seu peito e punha à mostra o coração. Que era dela.

E que faria quarenta! Tantas tristezas e alegrias superadas a cada café da manhã, tanta dor nas noites ruins, tanta festa nos dias bons, tantos natais, tantos carnavais, tanta luta nestes longos anos...

Lembrou-se de vinte anos atrás. Havia saído para o baião e a encontrara. Trouxe-a consigo ao voltar pra casa e desde então nunca mais haviam se dividido.

Ela ainda era a mesma daqueles tempos, tinha o mesmo jeito de menina. Haveria de ser, ele sabia bem, a mesma daqui a vinte anos também. A mesma de sempre e para sempre.

Tudo bem que a vida não era doce e o trabalho nada fácil: a mão calejava, o corpo escurecia sob o sol, a água nunca era tanta para a boca sempre seca.

Mas depois de tudo ele voltava, atracava o barco e exibia o pescado. Ela o ajudava a limpá-lo com aquele riso na boca e tudo ficava mais leve.

Porque maior que a certeza de peixe no mar era o amor, que já começava a mostrar uma ou outra ruga e que acalmava seu espírito inquieto, seu corpo ardido de sol. Os dias passavam um a um e um dia deixariam de passar, ele sabia bem. Mas não se importava nem um pouco.

Convencia-se que o melhor era não ter tempo nem paciência para se preocupar com qualquer coisa que fosse menor do que aquilo. E tudo lhe era.

Porque ele tinha uma casa. E dentro havia ela. E dentro dela um coração. E dentro, ele.

27 de março de 2010

Sol ao leste

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Só se vive uma vez e isso é tão certo quanto o nascer do sol ao leste. Um dia após o outro, escrevemos nosso livro dos dias conforme fazemos as escolhas que somos a todo instante obrigados a fazer. E sequer há como tomar a decisão de “não decidir”, já que isso nos obriga a ficar inerte, o que não deixa de ser uma opção.

Isso significa, entre outras coisas, que nossas escolhas e decisões definem de certa maneira o que somos, o que fazemos, com quem convivemos, como nossa vida é ou deixou de ser. Como será.

Essa reflexão não é inédita e certamente nesse exato momento deve haver alguém dentro de seu quarto pensando em algo parecido. Em coisas que poderiam ter sido feitas e não foram, em alguma pessoa que poderia estar ao seu lado e não está, em como seriam seus dias se as escolhas de 10 anos atrás tivessem sido outras.

E se não há como reviver o passado, a não ser na memória, também não há como pegar uma borracha e apagar as decisões anteriores, como se faz com uma resposta mal elaborada em alguma prova de inglês, corrigindo opções que, anos mais tarde, entendemos que estavam erradas.

Porém, se isso torna alguns momentos mais difíceis, ao mesmo tempo dá a cada instante um motivo a mais para valorizar o que temos e o que vamos fazer com aquilo que temos. Com o que somos e seremos. Com as perguntas que nos surgem a todo o momento, nos cobrando respostas pra tudo.

Afinal, se não for hoje, quando se tornará real aquilo que se deseja?

É exatamente por isso que, das diferentes formas de saudade que há, certamente aquela que temos do que não aconteceu é a mais instigante. Saudade de um abraço que não foi recebido, de um beijo que ficou pra outro dia, de um encontro desmarcado por culpa de um desencontro, de um filme que ficou para amanhã e amanhã e amanhã...

O tempo não volta, não tem jeito.

E se tudo acaba nesta vida, inclusive a própria vida, acho injusto não provar das coisas. Sei que há sons bonitos que jamais ouvi e queria muito conhecê-los. Uma música lado b de um cantor de fado que é belíssima e que ainda não chegou até a mim. Algum mistério nipônico que minha cultura ocidental não tem noção da importância. E do sabor.

Se um dia irei conhecer?

Não sei, mas esta é justamente a graça nisso tudo: não saber como será o minuto seguinte. Aguardo, porém, o momento propício e espero estar preparado para absorver o raio de sol que dia após dia surgirá ao leste. Quero senti-lo como se fosse a primeira e última vez.

26 de março de 2010

Léxico

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Sou apaixonado por algumas palavras. Nem sempre pelo que significam, mas pelo som, pela semântica, pela história de cada uma ou pelo motivo como as conheci. “Quotidiano”, por exemplo, é a minha favorita do mês.

“Kitsch” eu também adoro. É uma das que mais gosto já há muito tempo. Imagino-a, contudo, tão bonita que não sei como pode remeter ao contrário! “Blasé” segue o exemplo: é brilhante, mas seu sentido aponta o inverso.

Diferente de “porão”, que me parece traduzir exatamente o que quer dizer.

“Hawaii”, pronunciada na língua matriz, merece ser citada. Outra é “café”, tão singela que dá vontade de parar tudo e ir buscar um. A própria palavra “palavra” é muito boa. "Perspicaz" e “concomitante” são das melhores, assim como “dialética” e “plasticidade”.

"Indubitável”, “mordaz”, "idiossincrasia", “voyer”, “touché”, “clímax”, "veemente" e “doravante” são de arrepiar. E “techno-pop”, embora seja uma expressão e não uma palavra, é sensacional!

Talvez seja por isso que eu goste tanto de escrever. Às vezes, uma dessas me cai no colo e eu páro tudo só para cobiçá-la. Não há nada mais lúdico.

Aliás, “lúdico” é outra que merece destaque nesse grande e interminável léxico de palavras admiráveis.

Hoje ela não me sai da cabeça, a ponto de eu ficar repetindo-a por aí, como se faz com o refrão de uma música pop.

25 de março de 2010

Bê-á-bá

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Às vezes, as pessoas cruzam mar e céu e não aprendem o bê-á-bá mais básico: se alguém te abre as portas, peça licença ao entrar. Se sujar, limpe. Agradeça ao sair.

Até porque algumas coisas se aprende dentro do quarto. Sozinho. Não é preciso sequer ir à cozinha para assimilar. Basta compreender o que é um garfo e uma faca.

E se é acaciano dizer que seria melhor de outro jeito, também é desnecessário crer que de alguma forma adiantaria. Por si só, a crença é senil e atabalhoada. Afinal, o mundo já foi quadrado na cabeça de muitos e continua o sendo ainda hoje aqui e acolá. Basta ver pelo espelho retrovisor.

Fosse eu como foi Joseph Fouché, trabalharia sem pressa, workaholic que sou, para provar o que acho certo, sem ter obviamente a pretensão de ser o dono da verdade. Até porque sei que ela sequer existe: é fruto de cultura e construção histórica.

Prefiro, no entanto, deixar por aqui as impressões que tenho deste mundo concomitantemente tão adulto e infantil. Palavras e nada mais.

Sorte de quem ainda é bebê e coerência com o título do blog, que diz respeito ao mundo adulto, e só a ele, mesmo que ele se mostre tão ingênuo e infantil (mas bem menos divertido).

Sorte de todos, diga-se, migrar força e tempo para assuntos mais úteis. O mundo não é outro porque é o mesmo desde sempre. Quadradinho.

24 de março de 2010

Quotidiano 3

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Todo dia ele pensava em parar. Na mesa da cozinha, café com leite no copo, lembrava-se da promessa do dia anterior, o que por si só já doía. Ela preparava algo no fogão. Para esquecer, levantou-se e a abraçou por trás, porque era ela, e somente ela, o seu verdadeiro remédio.

Na noite anterior, como em todas as outras, havia chegado completamente outro. Ela havia esquentado seu prato, mas ele o trocara pela TV.

Apertava-a contra seu corpo e ela sorria um sorriso de mulher. Os dois riam como a melhor das almas, ele lhe falava palavras doces e ela sentia seu coração bater mais forte, coisa que só acontecia no encaixe de seus braços largos.

- Meu destino é ser tua.

Entretanto, enquanto passava a mão em sua camisola macia, o ponteiro do relógio não parava. Faltava pouco pro trabalho e ele precisava ir, lamentando-se por não poder ficar.

- Não fosse preciso sustentar a casa, ficaria o dia inteiro aqui.

Ela sabia que era perigas, mas o fez acreditar em si como só uma mulher sabe fazer. E disse-lhe que estaria o esperando à noite.

Seu dia, na verdade, terminava ali, poucos trinta minutos antes de a jornada começar. Dali em diante era graxa e martelo, uma piada ou outra e um copo de aguardente pra fechar a sesta diária de viver.

Era à tarde, contudo, que o bicho comia dentro de si. Atrás do balcão das ferramentas, um ou outro peão, cada dia um, trazia a garrafa que abastecia o dia a dia. O combustível para agüentar o trabalho pesado.

No final da tarde, o estrago estava feito. Não obstante, parava no bar para por o futebol em dia, olhar as saias que desfilavam pelo passeio-público, mulatas, japonesas, loiras, ruivas, cada uma com a cintura dada por deus para tentar o instinto dos homens.

Na primeira cerveja era cinco e pouco. Na última, já passava das dez. Fim de noite, olhava o copo vazio e sentia pena de si. Embora menos dolorido por dentro, mal conseguia se levantar. Adiantava? Agora podia ir para a casa e encará-la, dizer que não havia nenhum pro feijão, que mal havia para o gás, que a gasolina estava no fim e a luz a ponto de ser cortada.

Bobagem. Ela sabia disso tudo, não precisava que ninguém lhe contasse. Toda mulher sabe o que tem em casa.

Ele não entendia que para ela nada disso era preciso. Primeiro, porque já sabia de todas as respostas antes mesmo de ele formulá-las. Depois, porque para ela bastava um abraço apertado que fizesse colar um coração ao outro, e uma frase.

- Eu te amo.

Ela compreendia que o amor usa chinelos havaianas e não se importa com o que se tem e não se tem, tampouco se a luz acende, e não tem hora, motivo nem lugar para acontecer.

Tarde da noite, entrou em casa, falou algumas bobagens e foi dormir. Uma noite bem dormida haveria de acalmar seu espírito inquieto. Os dias passavam um a um e um dia deixariam de passar, ele sabia bem.

Convencia-se que o melhor era não ter tempo nem paciência para se importar.Mudar agora seria trabalhoso demais. Bastava-lhe o trabalho penoso e diário de viver.

23 de março de 2010

Mainstream

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Este blog, definitivamente, não é mais o mesmo. Anda reverberando. O que é uma pena.

Até bem pouco tempo, apenas um ou outro amigo o visitava. Pessoas do bem, raros camaradas que o liam para depois trocar uma idéia sobre as impressões publicadas. Boa época underground.

Eles ainda estão aqui, não tenho a menor dúvida. Mas, infelizmente, não há como fechar a janela quando se trata de internet. E a turma da farofa invade o salão e dá relaxo. Brucutus não sabem se divertir.

A estes, recomendo: não entrem aqui não!

Aqui é chato pra caramba. E pra bem poucos.

20 de março de 2010

Take Two!

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Não vejo tempero nas coisas pela metade. Se é pra fazer algo, que se faça bem e uma única vez. Do contrário, tem que refazer. Jamais ficará perfeito, mas é preciso que se tenha a intenção de fazer ficar.

Não desejo a quintessência do universo, mas não quero o inacabado. O mundo já está cheio de coisas mal feitas, a ponto de já nem verem mais problema nisso.

17 de março de 2010

Quotidiano 2

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Ele chegou como se nada quisesse. Ofereceu um drink, recomendou Scotch. Ela pensou: mais um! Sozinha, esperava por alguém. Aceitou a bebida, sorriu e foi dançar.

Tinha a destreza que só as cultas têm. Era inteligente, gostava de Sartre, Nelson Rodrigues, Johnny Winter, Frida Kahlo. Ele era menos interessante, mas tinha o físico ideal para aquela noite. Como não só as palavras dizem, o convidou em silêncio para sair.

No primeiro beijo, disse a si que não seria este o homem de sua vida. E mesmo que sua opinião tivesse mudado completamente quando a noite terminou, ainda assim não se via ao seu lado por mais vezes.

Quão grande foi sua surpresa, então, quando rememorou, vinte anos depois, aquele encontro. Ele, mais gordo, assistia TV e bebia cerveja. Haviam brigado, ele reclamara outra vez das compras exageradas de calçado.

- Há quanto tempo você não me oferece um drink?

Ele estranhou a pergunta. Buscou na memória se já havia oferecido algo semelhante. Não só não se lembrou, como ainda ficou enciumado, perguntando quem diabos havia lhe pagado uma bebida.

Levantou-se, resmungando, e foi dormir. Era ainda um ótimo amante. Não era, nunca chegou a ser, um bom companheiro. Por uma primeira vez, ela pensou em deixá-lo.

Mas quem cuidaria da casa, da comida, da escova de dente? Quem compraria seu whisky? Quem mais lhe entenderia?

E as filhas, como ficariam? O que diria a família?

Não. Filmes, livros, vernissages, amigas, todo um mundo de cores e sentido haveria de acalmar seu espírito inquieto. Os dias passavam um a um e um dia deixariam de passar. Convenceu-se, porque era a única saída, que o melhor era não ter tempo nem paciência para se importar.

Mudar agora seria trabalhoso demais. Bastava-lhe o trabalho penoso e diário de viver.

16 de março de 2010

Quotidiano

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Chegou do bar com cheiro de cachaça no uniforme. Pediu comida, sentou-se, comeu, disse duas ou três coisas e foi ao rancho.

Fumava desesperadamente, como que para esquecer os excessos da vida. Trocava todos por um único vício, o que era não só reconfortante, mas muito mais fácil.

Ela foi atrás, comentou sobre o gás já no fim, pediu dinheiro para o açúcar, reclamou da sujeira de sua roupa. Não era a do trabalho, o que seria não só tolerável, mas admirável. Mas seu pai perdera tudo por aguardente e ele ia pelo mesmo caminho. Era uma sujeira quase invisível, mas estava lá, sentia-se por toda a casa.

- Eu te amo. Mas queria as coisas de volta, como há 20 anos...

Ele não agüentava mais. Queria lhe trazer flores, um colar, qualquer coisa que a fizesse ver, porque era verdade, que ele era o mesmo. Mas parava antes na esquina e gastava o salário em dois ou três refúgios. Voltava pra casa com giz de bilhar nos dedos e alguns papéis do jogo do bicho. Saía do trabalho o mesmo, mas chegava outro.

Esboçou dizer algo. Queria contar que ainda a amava, porque ela era sempre a mesma, um pouco mais brava em alguns dias, mais calma em outros, mas ainda assim a mesma. E era diferente todo dia no quarto. Era perfeita. E o mais importante: era sua.

Mas não disse nada. Terminou outro cigarro, entrou, deitou-se para ver um pouco de TV e dormiu no sofá. Tomou banho na manhã seguinte, fez a barba e voltou ao trabalho, com o velho uniforme surrado de todos os dias, com o mesmo cansado coração.

Quando chegou, era como se não estivesse em casa. Quando partiu, tinha em mente que só gostaria de ficar.

Mas 3 fazendas haveria de acalmar seu espírito inquieto. E os dias passavam, um a um. E um dia deixariam de passar, mas não tinha tempo nem paciência para se importar.

Mudar agora seria trabalhoso demais. Bastava-lhe o trabalho penoso e diário de viver.

15 de março de 2010

O velho

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Que a nossa estrutura de Poder está entrando em contradição, não é segredo. A menos, pra quem reconhece laranja entre mangas.

O que não dá pra entender é a insistência com os modelos antigos de quem conhece o mínimo da máquina pública. Tão óbvia quanto a luta dos coronéis, que não conseguem lidar com o progresso e por isso tentam caminhar com a tradição, sem conseguir no entanto frear o que é "novo", é a preguiça de seus parceiros, companheiros de tantas décadas, em atualizar-se.

Caiu o Muro de Berlim em 89. A Manchete extinguiu. E o mundo continua o mesmo para a turma mais antiga dos partidões.

Embora, não sejamos inocentes, os "novos" que se apresentam não irão resolver lá grandes coisas. O que não significa que devemos manter o velho, e não porque é velho, mas porque é passado. Foi-se.

14 de março de 2010

O amanhã

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Se tudo der certo, amanhã será um dia bom. E se o acaso não permitir, nem deus ou a natureza, ainda assim estará tudo certo.

Porque amanhã é sempre o amanhã, e só. Não tem nada a ver com hoje. Outra chuva irá cair, que será a mesma de sempre, mas será outra, como foi outra a que ontem caiu. Porque é outra, e só.

Nem verdade nem mentira. Amanhã não existirá nada, a não ser o presente de então sendo vivido. Isso significa uma única coisa: um dia após o outro é sempre um dia vivido em função de outro, que virá e virá e virá, até porque sem futuro não há muito o que fazer, embora seja o hoje, e só o hoje, o que realmente importa. Porque o hoje existe, e só.

De certa forma, então, e só dessa forma, o amanhã existe também. Mas, é claro, não existe.

Ou estamos todos enganados! Só que aí o caos seria a única porta de saída.

E quem quer sair?

Não, façamos assim: sentados, andando ou correndo, vamos contando os dias. Às vezes, esperar pela próxima chuva é só o que vale a pena. Será a mesma de sempre, mas será outra.

13 de março de 2010

A próxima chuva

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Um avião sobrevoa a cidade. Carros passam e deixam monóxido de carbono. No céu, além do avião, o cruzeiro do sul, a poeira interestelar e um sem-número de coisas. No muro bem em frente, a escrita Unibanco já apagada pelo tempo.

Outro avião. Desde o último, o relógio girou 30 minutos. Ouve-se o som de rádios ligados e um burburinho infantil no carrinho de lanches mais próximo. Passam algumas bicicletas, cachorros brincam na esquina, o vento sopra suave e ateu.

Algumas pessoas conversam. Outras dormem. Há quem defenda que se deve encher o que está vazio e esvaziar o que está cheio. Para esses, o mundo se resolveria. Para outros, não é bem assim. Para outros, ainda, não há o que pensar: só se vive ao fazer.

Mais um avião é visto no céu. Levam gente e guerras. Sacos plásticos passam voando, mais leves que o ar. São dois, mas são muitos. Um raio risca o céu e avisa que a chuva está próxima. Os carros continuam passando. O relógio conta mais 30 minutos, que não voltam mais.

Com o tempo, também um pedaço da vida. Melhor seria estar num dos aviões ou dentro de um carro? Talvez defendendo alguma causa?

Nada disso. Às vezes, esperar pela próxima chuva é só o que vale a pena.

7 de março de 2010

O belo e o feio

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Não tenho muito talento para definir o que é belo e o que é feio. Mas algumas coisas me parecem óbvias.

A feiúra está quase sempre fora da coisa em si: uma mulher bonita que não lê, um mestre que não se importa com sua aula, um carpinteiro que chega ao trabalho com a enxada em mau estado.

A beleza, ao contrário, está sempre intrínseca. Ela nunca foge à regra. Todo bom dia, independente de que vem, é bem quisto. Toda pessoa que sorri. Até no rabinho do cachorro ela é sempiterna. A beleza é, de fato e de direito, dona de quem a tem. Ela jamais sai de viagem.

E uma verdade é digna de nota: a concepção de belo e feio não passa pelos olhos. Qualquer criança, ao ler O Pequeno Príncipe, aprende esta lição e carrega para o resto da vida.

5 de março de 2010

Pra quem curte

Montei um trio junto com os amigos Rika e Rafa só pra tocar Engenheiros. A idéia é fazer uma única apresentação. Um tributo mesmo.

Vamos dar ênfase na fase GLM e vai rolar de tudo: de hits a lado b. Se você é daqui ou da região, desce na Praça pra ver. Vai ser simples de coração.

Projeto Cultural "Som na Praça"
07/03: Cais do Porto (tributo aos Engenheiros do Hawaii)
Local: Praça da Matriz, Iracemápolis-SP
Hora: 20h
Free

3 de março de 2010

Eu olho (talvez). Ela vê

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Não pactuam do mesmo mundo o professor marxista e o jovem que estuda economia na GWU, próximo à Casa Branca. Também não estão do mesmo lado um ativista ambiental e um organizador de rodeios, Richard Dawkins e Joseph Ratzinger. Tudo muito óbvio.

Hoje, uma pessoa que eu amo sentou-se no quintal e descascou uma laranja, separando as sementes com o olhar distante. Na correria, parei alguns segundos para observá-la e ganhei o dia.

O que pensava, eu sei, nada tinha a ver com Washington ou o papa. Era mais importante. Porque algumas coisas são óbvias, mas não o coração de uma senhora a quem o amor abraçou. Um coração assim é a coisa mais preciosa do mundo, cujo mistério ainda não sabemos, embora teorias, igrejas e outras bobagens digam que sim.

1 de março de 2010

O que é da roda

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Se é verdade que ninguém acredita na algazarra das propagandas, nem mesmo quem a cria, não é difícil imaginar o motivo por haver quem seja tão dependente de um elogio.

É lógico como uma equação matemática: não basta saber que valeu a pena, se o mundo ao redor também não souber.

Ou, olhando para os lados, não é isso que o mundo mostra?

Não só por isso, é claro, mas em grande parte por isso: a propaganda só sobrevive à prova da verdade pela nossa comodidade, ao preferirmos deixar tudo como está, as coisas como são, a ter que reinventar a roda.

Note, ainda, quando se tenta reinventar: não é nada, absolutamente nada, se não for propagado. Minutos depois vira um lema, uma camiseta, e tudo vai parar na prateleira dessa grande feira que é o mundo das cores, onde vive eu, você, o vizinho, todos nós.

As faculdades estão cheias de estudantes de marketing e direito justamente por isso. Os primeiros se preocupam em vender, de toda e qualquer maneira. Os últimos com o Procon.