27 de outubro de 2011

Outrora

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O amor antigo por parques, desenhos, pelo caderno onde anotava, quando muito novo, o número dos episódios de Changeman: esse apreço pela paixão a animava — no fundo, ela decifrava o enigma daquele coração fragilizado, mas ainda esperançoso, porque ainda infantil.

Um homem que relembra a infância dizendo que trocaria uma carreira por ela é de algum modo confiável.

Sim, já não era o mesmo, mas de certa forma ainda estava ali, dentro daquele corpo cheio de pêlos espessos, sobretudo no rosto, cuja barba quase encobria.

“Você é tão livre e desprovido de certezas que mais parece uma criança”, ela lhe disse, ao deitar-se e oferecer o seu abraço, macio como o de um cachorro felpudo.

14 de outubro de 2011

Mágica

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Em algum momento lúcido e cinza, imagina-se um palhaço sem a tradicional maquiagem e aquele nariz redondo e engraçado. Está diante de uma platéia fria, que trata igual a todos: animais, velhos e crianças. Pensa que os homens são todos iguais  e sendo assim, de que adianta a luta pelo amor, de que serve a saudade, o que é importante?

Sente-se nu. Corre, então, em busca de algum remédio ou tira-gosto, e os encontra  placebos fáceis em alguma análise, arte, culinária, viagem, religião ou partida. E, como num passe de mágica, o mundo volta a ter cores.

13 de outubro de 2011

Ofício

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Só quero a felicidade do momento: sentir a chuva sem perguntar por que ela cai. Aliás, assim poderia ser a epígrafe deste sonho: "A vida é leve e nos leva a dançar". E a dança leva, por sua vez, a um tira-gosto peculiar. Ao nosso lado, não há ninguém, e a sós nos sentimos livres! Que acha de buscarmos um vinho e derramarmos sobre o corpo?

A infelicidade parece calar-se e assistir a esses pequenos devaneios. Fecho os olhos, aos pulos de um contentamento alienado, mas gratificante. Sinto-me limpo com os cabelos molhados  e me lembro de Gene Kelly em Singin'in The Rain, até tento repeti-lo, mas me falta jeito. Valorizar a vida é ater-se ao ofício de viver.