28 de fevereiro de 2010

Admiração

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Como todo e qualquer trabalho, o meu é cheio de alegrias e tristezas, delícias e dissabores, aprendizado e trauma. Talvez por isso, entre a dor e a delícia, preso na encruzilhada que só ele me coloca, tenho orgulho de tudo o que aprendi ao vivê-lo.

Das delícias, daria como bom exemplo conhecer Moacyr Franco.

Tive o privilégio de produzí-lo na cidade em 2008. Já produzi outros, mas nenhum com os bastidores do dele. Extremamente simpático e boa praça, o cara nutre um profundo e sincero respeito pela produção local, o que poucos artistas fazem.

Poderia me alongar contando inúmeras boas histórias de sua apresentação, da chuva torrencial que caiu minutos antes e quase cancela o evento, das horas intermináveis em que atendeu pacientemente cada fã que entrou em seu camarim.

Mas posso resumir tudo afirmando com a propriedade que só o backstage dá: Moacyr é verdadeiramente um grande e completo artista, dentro e fora do palco.

19 de fevereiro de 2010

Resquício

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No dia 3 de maio de 1992, eu estava na praça central de Iracemápolis. Tinha sete anos e participava pela primeira vez de uma marcha, sem ter, obviamente, a menor noção disso. Com mais 30 ou 40 crianças, eu formava um bloco batizado de "União Uniformizada" e seguia rumo ao coreto ao som característico de uma fanfarra. Vestia um calção azul que me cobria os joelhos, meias brancas e calçado preto. Dentro do bloco, estávamos todos iguais, exceto pela camiseta: eu usava uma do São Paulo, meu clube do coração, em meio a tantas do Santos, Palmeiras e outros clubes.

Pouco antes de chegar à praça, onde estavam milhares de pessoas, me reuni com os demais no pátio da escola. Fui orientado a seguir em linha reta, cabeça erguida e espinha ereta. Em todo o percurso, haveria apenas uma parada, breve, para que pudéssemos saudar autoridades locais. Terminado o cortejo, retornaríamos para a escola e estaríamos, enfim, dispensados.

Muitos anos depois, me deparei com um livro de Milan Kundera: A Insustentável Leveza do Ser. Gostei muito e aprendi, entre outras coisas, com essa e outras obras do autor, que uma marcha nunca é apenas uma marcha, já que ela é, antes de tudo, o símbolo de algo. Embora as obras que lia tratassem de Praga, fui aprendendo a cada leitura que os símbolos são e serão sempre universais. Como também é a relação de causa e conseqüência, inconsciente, anônima, que um dos romances me trouxe: “A vida ordinária de pessoas comuns e a vida extraordinária da história”.

A relação é intrínseca ao sistema e há muitas maneiras de construí-la, mas nenhuma a representa tão bem quanto uma marcha obediente rumo ao coreto onde se acomodam autoridades de um determinado lugar.

Dito isso, voltemos a 92. Naquele domingo, o bloco do qual eu fazia parte não significava a união pacífica das maiores torcidas do estado. Simbolizava uma marcha em direção às autoridades, embora jamais divulgado ou propagado dessa forma. Uma marcha compondo a história local. Obediente, inocente e pacífica: uma marcha de crianças que atraía para si todos os flashes e registrava, em cada polaroid, o brilho infantil de nossos olhos, tendo como cenário paletós e gravatas de homens públicos, políticos, militares e eclesiásticos. Em cada máquina fotográfica ali presente, registrou-se passo a passo a caminhada em linha reta de cada cidadão matriculado nas escolas da cidade.

Aquela marcha, trajada de civismo, desfilou sorrisos, organização pública, seriedade e ordem. Tudo, é claro, com o passo militar cadenciado, acompanhado pelas notas rítmicas de caixas e bumbos que, numa fanfarra, são sempre iguais.

Deixemos de lado o passado. Estamos 18 anos à frente, o século pulou e já não vejo quase ninguém daquele bloco. Sei que alguns casaram, outros se mudaram. O bloco sorridente de camisas de futebol prosseguiu, não sincronizado como naquele dia, mas prosseguiu. Num mundo em que ajudou, direta ou indiretamente, a criar.

Daquela manhã, restaram algumas imagens no meu álbum de infância. E algumas lembranças na memória. Sou outro, é óbvio, o mundo é, meu cabelo era amarelo e já não é. Mas, se as fotografias permanecem iguais, com a peculiar capacidade de congelar o tempo, é porque há coisas que nunca mudam.

Uma marcha, por exemplo, nunca deixará de ser uma marcha, não importa como a batizam ou o lugar onde é organizada. Não importa em que dia ocorreu. Até deixar de existir.

18 de fevereiro de 2010

Zoo

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Agora cedo, no telejornal, falou-se sobre a superlotação dos zoológicos da região. Praticamente não existe vaga em nenhum deles, Ribeirão, Piracicaba ou Americana. Além disso, há dificuldade em recuperar os animais novos, já que a maioria chega com sangramentos e esfoliações. São frutos do descaso: maus tratos, atropelamentos, abandono.

Na aldeia medieval onde vive a maioria dos homens que conheço, cujo cérebro não vale um pau de fósforo, isso não é comentado. Inclusive, é curioso que o assunto rendesse uma matéria, já que é mais conveniente falar sobre a saia da Madonna, o carnaval da Tijuca ou o gol do Ronaldo.

A matéria mostrou, entre outras coisas, um filhote de onça atropelado, papagaios abandonados por traficantes, animais das mais diferentes espécies que, machucados, buscavam socorro. E sob qual proteção?

Não sei você, mas eu não levo fé nenhuma nas boas intenções da humanidade, no brilho das embalagens, no carisma dos "senhores-sorrisos". Sou mais a inocência pueril dos bichos, com suas caras tristes e honestas. Embora, como canta Ivan Lins, desesperar jamais.

17 de fevereiro de 2010

Aos poetas, luz e sombra...

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Hoje ouvi Nei Lisboa o dia todo. Tenho quase toda a discografia e fiz planos de conseguir o que me falta até sexta. O começo de "Telhados de Paris" não me sai da cabeça: "Venta, ali se vê, onde o arvoredo inventa um ballet".

Se você não tem nada dele aí, está perdendo coisa boa.

14 de fevereiro de 2010

Leveza (ao vivo)


Por falta de horário, os ensaios da Nuvem são sempre de manhã, salvo raras exceções. Na época em que estávamos compondo o zero um / zero nove também rolava à noite, de segunda ou terça-feira.

No comecinho da banda, a gente ensaiava direto, à tarde, à noite, de sábado, domingo, enfim, a hora que desse na telha. Era sempre na garagem do Rika. Só que era um saco porque sempre dava polícia na porta. O volume era alto pra caralho.

Hoje, isso já não é problema. Com bateria eletrônica e apoio de um bom PC, conseguimos mixar tudo e jogar direto num fone de ouvido. Assim, só nós conseguimos acompanhar o som, e mais ninguém, a não ser que também tenha um fone plugado na mesa.

Isso, entre outras coisas, já nos possibilitou a gravar de madrugada, coisa rara para uma banda de rock.

11 de fevereiro de 2010

21h15 já!

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Num mundo onde o dia escorre por entre os dedos, não sobra tempo algum para o prazer. Quem inventou a roda que degenerou na rotina certamente não sabia o estrago que causaria. Ou era um doido varrido.

Será que ninguém vai inventar outro jeito de fazer o mundo girar?

10 de fevereiro de 2010

O mundo embaixo da porta

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Toda manhã colocam no quintal de casa um resumo do dia anterior. O mesmo acontece no trabalho, em diferente versão, mas igualmente óbvia. Quase sempre com a cara do Lula na frente ou com o anúncio da última tragédia, amenizado por uma foto da estrela pop do momento.

Religião, violência, esporte, política, lazer, cultura: cada um a seu modo, cada caderno traz as boas novas do dia. Uma ponte que ficou pronta, um teatro, um jogo, a água que não pára de descer e, por conseqüência, teima em subir. Quadrinhos trazem diversão, inúmeras propagandas colorem, é quase uma feira.

Todo dia é a mesma coisa, o mundo muda a todo instante e há coisas que nunca mudam. "E o principal fica fora do resumo", como Gessinger canta.

9 de fevereiro de 2010

Lista à toa de pessoas diferentes com algo em comum (Parte II)

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Nasi, ex-Ira!
Andreas Rudolf Kisser
Roger do Ultraje

Scandurra, ainda-Ira!
Thunderbird
Eu, pra virar praxe

Dinho do Capital
Marcelo Fromer, saudoso Titã
e Nando, Titã-pra-sempre
mesmo já não sendo

E, até, ele:
John Deacon do Queen!
Que tem a casa lá fora
e o coração aqui dentro...

1 de fevereiro de 2010

Bico pro mato!

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A briga é feia. O de lá bate no de cá, que não revida. Um vai na porrada, o outro no jeito. O de lá agrupa sua turma e compra quem pode. O de cá reuni a sua e vai na contramão. Uma hora os dois se cruzam.

Há muitos interesses dos dois lados. A diferença está no que fundamenta o interesse. Não há nada pior que jogar porque é o dono da bola. E não há nada mais estimulante que ganhar de quem compra o esquema todo.

Porque não há nada mais belo que a vitória da arte. Nenhuma canela merece tanta porrada assim, e menos ainda as de Rivelino ou Pedro Rocha. Nenhum Junior Baiano merece as palmas do espetáculo.