24 de dezembro de 2011

Fábulas

.
Acordou mais cedo esta manhã, tomou uma xícara de café e convidou o cachorro para um passeio pelo gramado.

São apenas dias normais, embora haja um esforço enorme em fantasiar o contrário.

“Outro dia para fazer valer a pena”, pensou, enquanto via o bicho correr de um lado para o outro, feliz com a grama ainda úmida.

18 de novembro de 2011

Flor

.
Por entre a fumaça e o barulho de escapamentos, ela surge com um sorriso largo, acenando.

– Um instante e já chego!

E São Paulo fica pequena, vazia, florida.

Há coisas na vida que são assim, não tem como esquecer, é contra a nossa força ou a gente se faz de fraquinho porque é bom sentir.

“Dançaremos como dois bailarinos, mesmo em campo minado”, ele pensa, pisando em solo duro, mas flutuando como se estivesse em La Jolla.

8 de novembro de 2011

Grande história

.
Não conseguia aceitar: quer dizer então que tudo aquilo que achava tão certo não era a verdade?

– Mas como?

Porque, afinal, tudo se encaixava tão bem em sua cabeça, e em outras, que não podia acreditar que estava errado.

– Sim, às vezes a gente vê só o que convém.

– Mas são tantos! Não é possível que estejam errados esse tempo todo!

Mal sabia que a história está cheia de equívocos. E, quase sempre, a maioria está no mesmo barco; ficam todos do mesmo lado.

– Mas não é a maior história de todas?

– Oras, também por isso, é o maior dos enganos. Não é à toa que aceitar seja tão difícil.

27 de outubro de 2011

Outrora

.
O amor antigo por parques, desenhos, pelo caderno onde anotava, quando muito novo, o número dos episódios de Changeman: esse apreço pela paixão a animava — no fundo, ela decifrava o enigma daquele coração fragilizado, mas ainda esperançoso, porque ainda infantil.

Um homem que relembra a infância dizendo que trocaria uma carreira por ela é de algum modo confiável.

Sim, já não era o mesmo, mas de certa forma ainda estava ali, dentro daquele corpo cheio de pêlos espessos, sobretudo no rosto, cuja barba quase encobria.

“Você é tão livre e desprovido de certezas que mais parece uma criança”, ela lhe disse, ao deitar-se e oferecer o seu abraço, macio como o de um cachorro felpudo.

14 de outubro de 2011

Mágica

.
Em algum momento lúcido e cinza, imagina-se um palhaço sem a tradicional maquiagem e aquele nariz redondo e engraçado. Está diante de uma platéia fria, que trata igual a todos: animais, velhos e crianças. Pensa que os homens são todos iguais  e sendo assim, de que adianta a luta pelo amor, de que serve a saudade, o que é importante?

Sente-se nu. Corre, então, em busca de algum remédio ou tira-gosto, e os encontra  placebos fáceis em alguma análise, arte, culinária, viagem, religião ou partida. E, como num passe de mágica, o mundo volta a ter cores.

13 de outubro de 2011

Ofício

.
Só quero a felicidade do momento: sentir a chuva sem perguntar por que ela cai. Aliás, assim poderia ser a epígrafe deste sonho: "A vida é leve e nos leva a dançar". E a dança leva, por sua vez, a um tira-gosto peculiar. Ao nosso lado, não há ninguém, e a sós nos sentimos livres! Que acha de buscarmos um vinho e derramarmos sobre o corpo?

A infelicidade parece calar-se e assistir a esses pequenos devaneios. Fecho os olhos, aos pulos de um contentamento alienado, mas gratificante. Sinto-me limpo com os cabelos molhados  e me lembro de Gene Kelly em Singin'in The Rain, até tento repeti-lo, mas me falta jeito. Valorizar a vida é ater-se ao ofício de viver.

29 de setembro de 2011

O começo

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

– Não quero mais te perder de vista.

O relógio por pouco não colocava um ponteiro sobre o outro, atestando o eterno ciclo dos dias. Nunca o dito popular “não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje” fez tamanho sentido.

– Um beijo e me entrego.

E nem o medo nem a dúvida, tampouco o cansaço, foram capazes de ser contrários, porque a vontade, ao que parece, a tudo vence.

– Está bem mais claro agora. Pode até apagar a luz.

26 de setembro de 2011

O significado dos gestos

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

Ela abriu um largo sorriso. Quando as palavras rompem a barreira da tensão, as coisas se mostram mais claras e compreensíveis. Entre uma conversa e outra, a distância foi minimizada.

Não houve fórmula, apenas um pedido de desculpas e um abraço. O significado dos gestos; a clareza das palavras, maior que o incômodo da fuga.

Distraíram-se entre frases e xícaras.

– Olha – começou ela, olhar fixo para ele –, perto de você, mesmo que seja por um breve espaço de tempo, há sempre algo bom para aproveitar, compartilhar.

Ele sustentou o olhar.

– Diga-me o quê.

– Você me traz coisas boas; vejo beleza até onde não há.

– Pois eu também me sinto bem perto de você.

Ela se afastou um pouco.

– Então por que fugiu?

– Na verdade, eu não sei bem o que dizer; acho que tive um pouco de medo. Isso não é vergonhoso. É?

– Não, eu entendo você. Sinto um pouco disso também.

22 de setembro de 2011

As experiências e o reconhecimento

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma


Banalizaram o amor, só pode. Está tudo tão corriqueiro que a melhor saída passou a ser a porta que dá para o inverno. É tanto “eu te amo” que é difícil saber quando é verdade.

Os dois haviam passado por péssimas experiências, frustrações. No fim das contas, tinham medo. Só não sabiam exatamente do quê.

Ele, sobretudo. Escondia na rudez masculina seu coração sempre tão quente. Acendeu um cigarro, pediu desculpas e um abraço. “Está frio aqui fora, venha, vamos pra casa”.

Não pensava em sexo, o que lhe dava segurança. Queria alguém para conversar, ver algum filme, reclamar do emprego, rir da própria vida. Não há melhor cabeça do que aquela que ri das próprias fraquezas, as assume, promete a si ingenuidade.

– Vou pedir ao meu peito para ser menos bruto – ele disse.

– E eu para que nunca desista; fosse diferente, eu não estaria aqui – ela respondeu.

A TV mostrava as mesmas bobagens de sempre, mas, ao menos, a temperatura era outra. E havia café. E tantas outras coisas para distrair, para deixar tudo mais leve.

– Nada é certinho, dois e dois, sem percalços. No fim, vamos rir de tudo isso.

– Quando acordei, me senti um soldado que se levanta para o ofício; seu árduo, mas necessário ofício. Eu tinha uma missão, eu sabia que tinha de vir, eu não podia adiar, eu não podia falhar.

– Embora sem saber o caminho.

– Mas você sempre soube. Entende isso? Você é o mapa, e isso é mais simbólico do que parece.

19 de setembro de 2011

Adeus resistência

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

A resistência, no entanto, não durou muito. Em silêncio, lembrou-se de como era bom ter o corpo dela junto ao seu, o quanto foi forte dizer com os olhos coisas de amor. Estava absorvido pela lembrança daquele perfume que ficou impregnado em seu corpo o dia inteiro. Como se livraria dele?

Instantes depois, abaixou o rosto, tirou o chapéu e respirou fundo. Quando levantou a cabeça, suas feições já estavam suavizadas, e ele disse que precisava pensar um pouco.

– Foi tudo tão difícil nesses últimos tempos que eu...

– E você acha que foi fácil pra mim?

E realmente não havia sido. Relacionamentos fracassados e o excesso de independência levaram-na a desacreditar de frases vazias. Havia formulado bem o pensamento, mas a boca tratou de calá-lo.

15 de setembro de 2011

O equívoco

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

Não, não se joga fora uma noite como aquela. Estava ali para por as coisas no eixo, cada quê em seu devido lugar.

– O homem com quem dividi lençóis tinha um coração.

– Peço desculpas; eu... Estou um pouco confuso.

E por um instante ela ficou sem saber o que dizer. Talvez tenha se equivocado: ele não disse nada demais! Há situações em que é preciso manter-se estável para não revelar nossa fraqueza a outrem.

Ele, por sua vez, sabia que não era fácil manter a armadura que havia preparado para o momento. Passou o dia todo formulando cada palavra de efeito, cada frase, cada levantar e baixar de voz. Tudo para manter-se à distância e mascarar os sentimentos.

Afinal, havia praticamente fugido sem ao menos dizer a ela que havia sido uma noite adorável. Era o que ela gostaria de ouvir, junto de frases como “quero continuar te tendo em mim”.

Ao invés de carinho, usou a frieza e quis machucá-la. Pegou o caminho mais fácil para esconder o que havia sentido.

12 de setembro de 2011

Duas almas

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma


Havia lhe dado o que tinha de melhor, seu afeto, e o que recebia de volta?

Até a noite passada, sentia-se leve. Por conversarem bastante, abriam-se como duas almas que se entendem. Ele confessava seus amores errados, tantas namoradas a quem havia dado rosas e recebido cinzas.

Ela, por sua vez, falava sobre o dia anterior: trabalho, supermercado, fila de banco, louças no jantar. Trabalhar e cuidar da casa nunca foi fácil. Ele ouvia atentamente, parecia-lhe um amigo de longa data por quem nutria admiração, confiança e uma pontinha de tesão.

Era muito atraente, a barba sempre por fazer, os cabelos elegantemente despenteados, a roupa propositalmente despojada.

Foram meses assim, em conversas quase que diárias no almoço, no mesmo pátio de shopping onde se encontravam e comiam, juntos, antes de voltarem ao trabalho.

Até que, certo dia, um contou ao outro o que sentia. “Para falar a verdade, sempre lhe achei atraente e não sei como está sozinha”. Ela, sorriso contido, respondeu que era recíproco.

Naquela noite – ou na noite passada –, se encontraram. Adultos, bem resolvidos e sozinhos. Uma noite para tirar todo o fardo diário da vida adulta.

Mas, no dia seguinte, veio o peso da incompreensão, cuja força mais parece chumbo!

8 de setembro de 2011

O encontro

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

À medida que olhava o relógio, a ansiedade aumentava; começou a inquietar-se, não tinha como voltar: o caminho era desconhecido, as respostas também. O medo aflorava pelas incertezas do encontro. Pensou em declinar, mas ouviu o barulho de passos fortes atrás de si. Era ele.

O rosto sério, os lábios contraídos, nem parecia o homem de ontem e de sempre. Vestia-se de forma conveniente e usava um chapéu de couro preto que lhe dava certo ar de superioridade, acentuado com a frieza de suas palavras.

– Você, às vezes, me surpreende; já não é uma menina, mas se comporta como uma!

– Eu queria olhar pra você e entender. Precisava respirar.

– Pensei que você soubesse que as coisas não funcionam conforme sua conveniência. Não houve promessas; não devo respostas.

5 de setembro de 2011

Na escuridão

Por Edilma e Deivid
Ilustração: Edilma

Passos firmes, ela cruzou a Avenida Sul e foi ter com ele na Rua Estreita. O que havia posto como missão, passou a ser vontade. Vontade incontida de encontrá-lo. De olhá-lo. De fazer as perguntas que a inquietavam.

Quando chegou, hesitou um pouco por conta da escuridão que tomava o espaço. Não que o escuro fosse coisa estranha: toda noite, fechava completamente a porta e as janelas, conferia a cortina e tirava da tomada o aparelho televisor. Tudo para não ter uma luz sequer.

Mas ali, frio de arrepiar a espinha, o escuro era outro, porque era misto de pouca luz e dúvida. Não havia idéias claras, nunca havia estado ali, sequer saberia voltar. Foi contornando as ruas conforme ele havia explicado – e, enfim, chegara.

“Ninguém tem o direito de me ter nos braços e passar o dia seguinte como se nada tivesse acontecido”, disse de si para si. Era 22h15; ela o esperava.

4 de setembro de 2011

... gato mundo, lebre adulto

.
Começo a postar amanhã uma série de textos que fiz com minha amiga Edilma, do blog O Gato por Lebre.

A série já está pronta e foi dividida em oito partes, que serão publicadas nos dois blogs ao mesmo tempo, sempre de segunda e quinta, às 9h.

1 de setembro de 2011

De saída

.
Viu o cachorro correr alguns metros antes de colocar as duas patas sobre a sua barriga. Havia se pintado especialmente para a ocasião, escolhera a dedo o vestido florido. Disse qualquer coisa, o apressou, conferiu as horas no celular.

“Não temos todo o tempo do mundo!”, argumentou (na tentativa de convencê-lo de que o relógio era importante).

Para ele, oras, sequer precisavam sair: o seis por três da sala lhe era suficiente; ou, ao menos, o bastante para manter o amor próximo e a animosidade longe.

29 de agosto de 2011

Cangaço

.
O corpo expelia o odor azedo de uma vida mal cuidada e não regrada. Enfim, no esquife!

Mesmo estirado e inofensivo, houve quem desejasse espetar um palito de dente nos braços inchados do homem, “assim, só por conferência”.

“Ora, ora: o mundo menos ignorante”, dizia aos risos, entre as condolências dos íntimos e a pressa de um ou outro sociável que, cúmplice, não arranjou desculpas para não ir.

15 de agosto de 2011

Tokusatsu

.
Os monstros das séries japonesas tinham planos e razões, mas não estavam certos. Ter razão e fito é o de menos, é só ter.

12 de agosto de 2011

Rosa

.
Um sambinha de Cartola soa ao fundo, enquanto ela passa e mostra a saia, curta o bastante para atiçar a imaginação.

Os amigos olham, José também, com o cigarro terminado e o copo de cerveja por encher. Como sempre, faz duas ou três piadas e ri, celebrando o humor com o dedo em riste, feito um troféu, diploma de seu afeto.

Outras saias balançam e levam a outros brindes. É sexta, e até segunda só o futebol será mais importante. Santa paz, ancorada na fé de que hoje basta, amanhã só-deus-sabe.

9 de agosto de 2011

Crédito

.
Pôs os dedos surrados sobre a mesa. Em tom amarelo, as unhas mal resolvidas atestavam o trabalho árduo de décadas. Vinte ou vinte e cinco comungavam da mesma fila, à espera do senhor que, de mau humor, levantava os olhos por cima dos óculos e da gravata.

Trazia uma imensidão de papéis, pedido e bobagem da burocracia: a credibilidade estava intrínseca, presa à munheca.

29 de julho de 2011

O magro

.
Ofegante, me espelhava numa mulher gorda quando, adolescente, algo inesperado acontecia. Era inspirador. Ela me fascinava, possuía uma bonita história de lutas perdidas. A perda, com ela soube, ensina muito, bem mais que as vitórias.

Seus conselhos permanecem inalterados, como o cheiro das manhãs. Ela costumava citar ditados populares, “só a mudança é permanente!”, e eu, em meu agnosticismo latente, dizia “amém”.

20 de julho de 2011

Um ao outro

.
Em certo pedaço: um poste, um bar, duas casas, dez coisas – uma sobre a outra –, uma loja, outro bar e outro poste, carros, bichos e vidas. Sobre ele, músculos, células, sentimentos e idéias, tanta coisa junta, sobre e por dentro da outra.

Dois mundos que vivem – e ambos se completam; reconstroem um ao outro.

6 de julho de 2011

Boomerang

.
Submetidas aos vícios da geração anterior, as crianças crescem e adquirem hábitos. Reprocessado, o cinismo se transforma em escândalo.

20 de junho de 2011

Uso, arranjo e ditado árabe

.
Levar água ou fazer música: o udu é o mesmo, mas o uso é seu;
Em todo lugar, sangria desatada: até aí, morreu Neves;
O guarda-chuva pode até ser seu, mas a chuva sempre será de todo mundo.

15 de junho de 2011

Já não seria inverno

.
Estava no último andar, onde o vento é sempre forte e gelado. Do parapeito, além de tijolos e argamassa, via os contratos sociais, a vida que construímos, o que fizemos de nós.

Estava triste e preocupado com as coisas ao redor. Mesmo assim, abriu um sorriso tímido. Fechou os olhos e imaginou como seria divertido saltar.

Fosse verdade o que o padre dizia, sumiria no horizonte, voando. A olhar por esse ângulo, era livre feito pássaro e leve feito algodão. De repente, seria um anjo que voaria rumo ao firmamento, e já não seria inverno, mas outono, com as folhas dançando conforme a brisa morna e doce da estação.

8 de junho de 2011

Brief

.
A gente vai à esquina comprar uma coca-cola, e quando volta já é meio de semana. Diz “até breve!” ao amigo do ensino médio, e sem tempo termina a faculdade. Adota um vira-lata, e de repente há pêlos brancos no bichinho.

6 de junho de 2011

Conforto

.
Carlos acorda, vai ao espelho e faz a barba. Precisa correr para dar conta de tudo, e do que ontem não deu. Finalmente faz dinheiro! Com a liberdade cerceada, mas isso já não é problema: integridade começa por pagar as contas. Já não é um menino.

Sabe que vendeu a si. Não era para ser assim, mas os anjos estão sempre atrasados e não oferecem porta larga.

Carlos diz a si que merece tudo o que enfim pode ter. Embora, de fato, não tem nada, a não ser o livro dos dias, a escrita da história. E diz aos outros que a vida é uma aposta cujo resultado só o futuro sabe.

Hoje é aquele que, um dia, jurou nunca ser. Resistiu, mas, finalmente, pertence ao mundo adulto.

30 de maio de 2011

Um par de meias

.
Três da manhã, acordou com a parede escura presa aos olhos. Tinha tanta coisa na cabeça que mal podia pensar. Contas, mercado, o controle remoto sem pilha, aquela visita à casa da mãe que ficou para ontem e não deu...

Mais três horas e precisava pegar o ônibus e consertar aquela porcaria de peça, ao preço de quatro anos de serviço.

Pensou em levantar-se, mas desistiu ao sentir um pé de meia encostando em sua perna. Lembrou-se, então, que para tudo havia um sentido e uma causa. Riu de si. Respondeu ao toque e ouviu o gemido inconsciente de toda noite. Dois pés juntos, um par de meias de lã.

Ao voltar a dormir, estava pronto para outro dia.

26 de maio de 2011

O que é do bicho

.
Meu estereótipo de feiúra na infância tornou-se mais tarde a minha noção de beleza. Aos 12 ou 13, aprendi que o belo está na deformidade do acaso, nos bebês quando se alimentam, nos enfermos que precisam de ajuda para se levantar.

Não distinguir a própria espécie dá outros olhos ao cachorro. E é justamente a espontaneidade do bicho que mais o difere dos homens, tão acostumados a esconder o que sentem.

Por mais insensível que possa parecer: as verdades invariavelmente transitam por caminhos irracionais, sobretudo neste mundo sem pêlo onde construímos nosso veredicto.

23 de maio de 2011

Troca

.
– Pode haver uma recompensa.

Embora sem dar pistas, não conseguia resistir ao convite. Desejava-o há tempos e temia não mais tê-lo. Calvo, gordo, desleixado: onde conseguiria outra oportunidade como aquela?

Tentou fazer um exame simples, pedir pouca coisa. Não adiantou: a nota não chegava a seis. Dois pontos a mais eram o suficiente! Pôs o seis, mas depois contornou e fez uma bolinha em cima da outra.

– Então consegui?
– Pra você ver.

Embora mais velho, sentia-se inexperiente. Há tanto tempo não tinha uma experiência como aquela que parecia não saber o que fazer. Sentiu-se envergonhado. Seu corpo refletia um misto de inferioridade e euforia.

No entanto, era ele o mestre – e não o contrário! Ou deveria ser assim. Tornaria tudo mais fácil. Começou. Apressou-se. Terminou. Não quis saber como havia se saído. Parecia temer não chegar sequer à média.

– Você conseguiu.
– Pra você ver.

19 de maio de 2011

17, 17 e 18

.
Somos cria daquilo que vem de dentro e nossas atitudes só tem fundamento ao olharmos para lá!

Do lado de fora, tragamos o cinza camuflado. Até no mais candente caminho, porque é turvo o céu da verdade travestida. Milan Kundera e suas definições de kitsch explicam isso muito bem.

Afinal, somos o oposto do que aparentamos ao dar, à nossa maneira, a beleza deste mundo – inventando flores artificiais por preguiça de regá-las.

Isso não cabe, porém, no caso das viagens ao lado de quem gostamos de verdade. Criar cores só é válido quando se faz para fugir deste mundo absurdo!

Ou não é preciso ter um clarão como norte, um vermelho para o amor e um azul para a paz? Ter um arco-íris imaginário!

Porque é exatamente assim: todos nós levamos para cima e para baixo cores convenientes. Nenhuma singularidade controversa é capaz de ofuscá-las e não há quem aceite a natureza irreal desse fetiche!

***

Ela olhou para os dois que, sentados à frente, traziam o Manifesto na mochila e um exemplar surrado de Dark Side of the Moon. Um deles levantou o dedo e pediu outra cerveja, enquanto o outro a aplaudia. Noite de quinta era a lei: aula só no bar do Wlad.

Ao lado, um cachorro agonizava de frio, na mesa à frente riam com o futebol, atrás uma senhora limpava pratos sujos, e chegava até eles o refrão do último sucesso de algum artista que não reconheciam.

Mas que, provavelmente, estava na TV na tarde do último domingo.

16 de maio de 2011

Aconchego

.
Paulo levanta-se e confere o tempo. Há um céu extremamente claro sobre a sua cabeça. Senta-se com leite e torradas, acende um cigarro e pensa no dia de ontem. Por quais razões tomou sua última decisão?

Diz a si que a vida é cheia de coisas que, nos parece, nunca terão respostas. Tudo lhe parece gratuito. Toca o telefone, ele sabe que é ela – ninguém mais o telefona. Todo o mundo parece ter se esquecido.

– Não vale a pena.
– Alguma coisa vale?
– Ter para onde voltar; ter alguém que nos espere!

Paulo sabe que ela está certa, mas não quer dar o braço a torcer. Diz que é muito fácil falar essas coisas, já que ela está sempre bem acompanhada. Ela afirma que não é verdade, alega que ele não sabe o que é estar no meio de uma multidão e sentir-se só.

Ele se emociona, mas não a deixa perceber. Sabe que será o seu pedido de desculpas. No entanto, da caixa de reservas feminina, ela tira sua última cartada, da qual não há como escapar.

– E não é verdade que o amor nos salva? Então vamos colocar a culpa no amor! Foi tudo passional!

Paulo fica sem saída. Outra vez, pela enésima vez, está preso entre a verdade de dentro e a mentira de fora. Opta, como era de se esperar, pela primeira opção. O amor, é verdade, é sempre a porta da casa.

9 de maio de 2011

Perguntas

.
– O que você acha?

Inquietou-se. Sentada, brincava com o canudo na coca-cola, enquanto esperava seu lanche e mexia no celular. Ele, ali desde antes de ela chegar, não parecia inconveniente, embora houvesse lhe feito uma pergunta! Havia tanto tempo que ninguém lhe perguntava nada que até estranhou. Um pouco sem jeito, respondeu que achava “moderno”.

Era muito tímida e passava o dia nas redes sociais. Num mundo onde ninguém faz perguntas, é tão raro falar de si que as pessoas passam horas respondendo perguntas não-feitas: “achei a novela muito boa”. Ela sabia que ele, decerto, já havia entendido: ela era sozinha. Bonita, mas solitária.

– É justamente o que penso.

E passou a falar qualquer bobagem, enquanto ela dizia a si que nada disso era preciso. “Palavras: quanta coisa se perde entre elas!”, repetia, em pensamento. Veio o lanche e ela comeu escutando-o, embora sem prestar muita atenção. Talvez porque ele dizia e dizia, mas não ouvia. Assim, era melhor ver o que a internet trazia de novo.

6 de maio de 2011

Lugar

.
Certa vez, ainda adolescente, Frederico foi ao cemitério da vila. Levava uma garrafa de vinho e queria ver os túmulos, o rosto das pessoas nas fotos, sentir-se um pouco seguro. Precisava fugir.

Havia poucas pessoas. Caminhavam entre as flores, falavam sozinhas, indagavam os mortos à procura de respostas para os vivos. Também fugiam de algo.

Passou a caminhar entre elas e percebeu que as tristezas se misturavam. Não era só saudade, mas algo a mais: o isolamento. Na agitação quotidiana, precisavam de silêncio.

Antes romântica, a situação lhe pareceu ridícula depois. No entanto, percebeu que era reflexo da pressa do homem e perdeu, em seguida, a fé.

Pensou em parar alguém e dizer que percebia a tristeza que trazia, e que entendia que, ali, ainda assim, se era mais feliz do que lá fora. Mas achou melhor manter-se calado e tomar o vinho, mesmo quente.

4 de maio de 2011

O lado humano do Rei

.
A retórica da batina, a caneta do jornalista, o microfone da política, qualquer que seja por trás de cada palavra, a entrega: estamos no mundo da incomunicabilidade, e só a palavra não basta, também é preciso coerência.

Porque não há ninguém que seja mais ou menos homem que ninguém: entre os iguais, o que diferencia uns e outros é a intensidade com que se busca uma resposta – ou, entre os mais sábios, uma pergunta.

Talvez por isso, mas não só por isso, as instituições são tão falhas: embora queiram estar acima dos limites humanos, de acerto e erro, são feitas por gente, guiada por uma razão pré-construída historicamente e por essa causa chamada "sentimento", para a qual há quem tenha explicação, embora ninguém a compreenda.

Saramago dizia sem dizer: a verdade depende de qual lado da mesa você está sentado. Por isso, e só por isso, muitos guiados por um, e não todos por todos, é um abraço burro.

25 de abril de 2011

A resposta do Rei

.
No mundo crescido, ao que parece, a preocupação está em mostrar aos pequenos que não é bom dizer que o Rei está nu, mesmo quando claríssimo.

Porque, ao notar o perigo de uma boca sem limites, ele tratará logo de adestrá-la e enumerar o que deve e não deve ser dito, visando, é claro, o bom convívio.

Manual prático de bons costumes, mandamentos, apostilas: quanto mais se facilita, menos se esclarece, o que faz do "treinamento" o cerne administrativo onde ficam, quase todos, dependurados.

18 de abril de 2011

Premência

.
Já não agüentava mais: algumas coisas são tão urgentes que não esperam o cigarro terminar. Sobretudo, as que mais precisam de tempo.

Sim, nenhuma frase é tão boa quanto aquela revista no século seguinte, mas o tempo é uma urgência que nos tira o ar, enquanto abraça.

Eco no apartamento sem mobília: o maior dos deslizes – embora, para ele, o menor entre tantos. Fosse o barulho menos incomum, ficaria ali até vencer o próximo condomínio.

17 de abril de 2011

Imitação

.
A repetição o encanta. Todo gesto habitual, do caminhar rotineiro da casa à padaria, às 6h15, ao sono que reaparece, às 23h30, com o fim do último programa agradável.

É explicitamente feliz.

Quando a gata encosta o pêlo em seus pés, enquanto come pão com margarina, percebe a dose necessária de encanto que o deixa enleado diante de um mundo rarefeito.

Quando deita a cabeça no travesseiro de sempre, o mundo, embora o mesmo, se revigora.

15 de abril de 2011

De rua

.
Branco, mas com o rosto preto. Parece uma máscara. É engraçado, mas é bonito também. Está um pouco sujo, o que é bem compreensível. Não é questão de gostar ou não de água.

Estava, até pouco tempo, com muita fome! Acabou de comer pão e bolacha molhados no leite. Bebeu água também. Foi o suficiente: não para de sorrir. Agora, aquietou-se: está deitado, de cara no chão. O que será que pensa?

É macio. É do bem, transmite paz. E se eu estava sozinho, já não estou: sinto que, como se para me recompensar, pularia na frente de um tiro.

Como é que alguém abandona um coração desses?

12 de abril de 2011

Bom lugar

.
Cabelo azul, sorriso contido, Mafalda Morfina, saia e All Star de cano alto. Uma sensação estranha, porém boa, de que o mundo não pensa igual. Quer dizer, tem um ou outro, mas esses não contam: são de Saturno também.

Cabelo longo, riso escondido, Rush, jeans surrado e All Star preto. Uma sensação incômoda, embora boa, de que o mundo não compreende. Quer dizer, não é bem assim!

Não se falam, porém. Mas sabem: não só as palavras dizem.

11 de abril de 2011

– 1

.
Entre uma e outra notícia, alguém avisa que outra vida deixou de existir. E o dia é só mais um dia.

No fim das contas, o homem é só uma notícia! Até quando se vai, mesmo que, para isso, seja preciso que alguém pague.

Nietzsche escreveu que “falar muito sobre si mesmo pode ser uma forma de se esconder”. É ainda mais triste: neste exato momento, alguém embrulha um peixe com a história de alguém.

9 de abril de 2011

Inquietude

.
O lado de dentro da máquina de café. A última camisa da gaveta do meio. O primeiro da lista telefônica. O que a Duda comeu e vomitou? Quem está no banho agora?

O sabor do café que vai sair. A próxima vez que irá chover. O próximo riso com algo qualquer. A próxima frase deste texto. Será que ainda tem requeijão? Será que terminar assim faz algum sentido?

27 de março de 2011

Fuga, 10

.
O mestre acusou o golpe. Para um calculista como ele, era terrivelmente incrível que ela não se assustasse. Pediu o dinheiro. Refletiu que, pelo menos, seria parcialmente recompensado pela decepção.

Ela abriu o paletó do sujeito caído, retirou o envelope e o entregou. Cinco mil, o que era razoável.

Na verdade, dopava os homens e fugia com os pertences. Para não levantar suspeitas, entrava com uma roupa e saía com outra. Não havia se deitado com mais ninguém. Mas como explicar esse fato diante do amor renegado?

Era melhor calar-se.

O dervixe da pistola austríaca não era mal. Mas não há razão que prevaleça diante de um coração fragilizado. Todo mundo assina, mesmo sem saber, o contrato social que rege as relações de seu tempo, e paga o preço por isso.

Do mais, é importante dizer: o aprendiz obteve menor lição que merecia, aplicado como mostrou-se. O sujeito de bigode teve azar, mas a vida não escolhe vítimas. Ela, por sua vez, fez de sua escolha o retrato fiel de seu arredor. E o mestre, por fim, mostrou-se pouco sábio, por concluir antes de perguntar.

26 de março de 2011

Fuga, 09

.
Nervosismo ou calma? Ela tinha que escolher, não havia saída. Mas oras, escolher não é a única coisa que fazemos na vida? Então bastou ela assumir este fato e sua escolha se tornou leve, prazerosamente leve, feito uma brisa afável.

Optou pela calma, mas não por uma imposição – mas por escolha. E permaneceu muda.

25 de março de 2011

Fuga, 08

.
O aprendiz apareceu na sala com um revólver. No entanto, o terceiro homem trazia no paletó o envelope com todo o dinheiro da prostituição. E um homem com dinheiro, quase sempre, não reconhece o perigo.

– Qual é o seu santo?
– Pois atire... Vamos, me acerte!

O mestre levantou o cano e apertou o gatilho sem pestanejar. O tiro acertou o peito em cheio. O aprendiz sorriu maravilhado. A mulher, por sua vez, levou as mãos ao rosto. Mas não gritou.

No chão, um sujeito agonizava.

24 de março de 2011

Fuga, 07

.
Ela o temia. Ele era sarcástico.
– Há tempos não lhe via assim. Mas acredite: guardava tudo em minha mente, cada pinta, marca, o menor dos detalhes.

Durante todo o tempo de espera, ele a obrigou a ficar sentada a sua frenteDava passos curtos de um lado para o outro e a deixava cada vez mais nervosa, embora, é verdade, um pouco excitada.

O ronco alto de um carro foi ouvido. Ele foi até a janela e, no mesmo instante, seu celular vibrou acusando uma mensagem: “há um homem aqui e parece nervoso”. O aprendiz, do lado de fora, estava atento.

Quando o sujeito entrou pela porta da frente, estranhou ao vê-la daquela forma.
– Aconteceu algo?

“Entre!”, disse outra voz no canto da sala, para onde ele ainda não havia olhado.
– Mas quem é você?
Estavam, agora, frente a frente, separados por uma mulher seminua.

23 de março de 2011

Fuga, 06

.
Não havia como não atendê-lo. Era melhor ligar e torcer para que nada de ruim acontecesse. Trêmula, errou o número duas ou três vezes.

– Acalme-se. Não quero que ele perceba algo.
– E como?
– Faça tudo de forma corriqueira. E o traga aqui.
– Mas...
– Faça o que eu digo.

Ela acertou, enfim, o número.
– Meu amor, preciso que você venha aqui...

Desligou.
– Agora é só esperar...
– O que você pretende fazer?
Ele abriu a jaqueta e ela notou o cabo de sua Glock 28.

22 de março de 2011

Fuga, 05

.
Ela virou-se assustada. Ele sorriu.
– Pensou que nunca mais iríamos nos ver?

Ele estava irado. Ela não sabia o que fazer. 
– O que quer de mim?
– Você sabe bem...
– Não ouse chegar perto!
– Ele vem aqui?
– Ele quem?
– Cínica!

Ela temia por um crime passional. Ele apontou para o telefone.
– Ligue para ele.
– Mas...
– Ligue!

21 de março de 2011

Fuga, 04

.
Do lado da porta, havia uma janela pequena e baixa, por onde espionou o interior da casa. Um pássaro na gaiola era sua única companhia. Havia poucos móveis e Richard Wagner, bem baixinho, ecoava de algum cômodo.

Pensou numa maneira de entrar. Não seria difícil. Pôs o olho no buraco da fechadura e viu a chave presa. Havia um pequeno tapete na entrada. Ele o empurrou para dentro, bateu na chave para ela cair e o puxou de volta. Em poucos minutos, estava com a casa sob seu domínio.

Abriu-a. Com o devido cuidado, caminhou em direção ao quarto. Quando se aproximou, a viu deitada, de bruços, com um livro aberto sobre a cama. Vestia calcinha branca e balançava os pés conforme a música.

Bateu com a costa da mão na porta.

18 de março de 2011

Fuga, 03

.
Ela voltou ao Opala e pisou fundo. Eles a seguiram. Brigavam com as ruas sinuosas.

Os dois a viram parar numa casa pequena, após entrar num bairro carente. Era uma casa bastante fechada, mas os muros eram relativamente baixos. Abriu a bolsa, pegou as chaves e entrou sem maiores problemas (eles encostaram o carro no início da rua).

– Vou entrar. Vou pular o muro e vou entrar.
– Não pode ser perigoso? Será que está sozinha?
– Ela está, entrou com receio. Teme algo.

O mestre pediu ao aprendiz para retornar ao carro, ficar de olho na casa e, qualquer perigo, o avisar pelo celular.

Entrou. Buscou a porta dos fundos com o máximo de silêncio possível.

17 de março de 2011

Fuga, 02

.
Ela fez a última curva e parou. Eles fizeram o mesmo, mas uma rua à frente.

– Já, já e alguém virá encontrá-la...
– Certamente.

Um sujeito demasiado baixo, de longo bigode, um tanto calvo, se aproximou. Ela acendeu um cigarro. O homem recebeu um envelope branco. Despediram-se.

– E agora, a quem seguir?
– Nossa bússola é a mesma – respondeu o mestre.

11 de março de 2011

Fuga, 01

.
Os dois olhavam por cima do vidro semi-aberto. Do outro lado, ela caminhava sobre um calçado alto. Seu vestido dançava conforme o vento. Usava óculos escuros, grandes e redondos.

– Uma fênix.

A beleza, assim, é a anestesia do sentido. Para eles, mais ainda. Ela sorria rumo ao Opala restaurado de forma generosa. Gostava de veículos antigos, apreciava coisas de homens.

– Anote a placa, caso algo dê errado.

O aprendiz retirou do bolso da camisa um pequeno caderno e, com lápis preto, rabiscou. Gordo, era pouco ágil. Ela deu a partida e uma espessa fumaça subiu. Frio, o mais versátil deu-se ao luxo da circunspeção:

– Poluidora.

Seguiram-na. Ela virava por entre ruas estreitas, fazia contornos imprudentes, incoerentes. “Qual a lógica em virar à direita?”, pensou alto o primeiro, ao passo que o segundo, mais esperto, bem humorado, logrou a sentença:

– Isso não é ciência. É fuga.

9 de março de 2011

3/4

.
Deita-se no sofá com um pequeno espelho de bolso: vê um senhor cujas rugas saltam à testa e dizem que, sim, as coisas mudaram bastante. Ele já não é um menino.

Levanta-se, busca um jornal e algum tira-gosto, liga a tevê. Afinal, é melhor ver o espelho de todo mundo que o espelho de si – e esquecer, de alguma forma, que o relógio não espera por ninguém.

4 de março de 2011

Does it remember the sun from the other times?

.
É sempre bom redescobrir as coisas: uma revista velha, uma agenda, um vídeo do outro século. De certa forma, por ao tato o que um dia nos foi importante.

Isso leva, quase sem querer, a descobrir outras coisas, mas pelo lado contrário: ouvir a banda mais antiga que puder, achar a foto mais velha do mundo ou algo debaixo do quintal.

E acredite: isso é menos voltar-se ao passado que olhar em frente!

Até porque termina por ser um convite, irrecusável, para reorganizar as pastas, inclusive as da memória, para que fique mais fácil encontrar o que queremos na próxima pesquisa.

3 de março de 2011

O que encerra em si

.
O homem, por ser livre, tem uma enorme responsabilidade: a de não ter ninguém a quem possa dedicar suas proezas e lamúrias. Sua angústia é, decerto, o peso dessa responsabilidade.

Enquanto isso, uma maçã cai da árvore e algum físico a transforma em números, enquanto alguém insiste, porque é do seu contentamento, em mistificar a ordem natural das coisas.

Por não haver uma resposta plausível para as coisas ao redor, tampouco para as que acontecem dentro de nós, é preciso abraçar alguém, afinal, o próprio corpo mostra que isso conforta. Como, na correria líquida de todos os tempos, falta carinho entre a espécie, se implora ao imaginário.

Sartre, a quem devo este post, bem dizia: o homem é aquilo que faz de si próprio.

2 de março de 2011

Cartas

.
Há quem se convence a partir de negociações e há quem exige argumentos. São como óleo e água, mesmo quando há boa vontade. O primeiro é dose: compra o baralho só para ter as cartas. O segundo, quando inocente, tenta explicar que em todo jogo as regras são as mesmas, não importa qual lado da mesa se está.

27 de fevereiro de 2011

O que não se apaga

.
Se as coisas verdadeiras são aquelas que duram, não é difícil perceber o que vale a pena e o que não. Por esse motivo, e só por esse, é preciso separá-las em categorias distintas: as que merecem crédito e as que não merecem.

Na primeira, fica o que permanece. Na segunda, o que dura tempo irrisório e depois se apaga.

Por esse motivo, mas não só por esse, tenho orgulho de tudo o que me dá saudade: mais do que a verdade, prova que o tempo e a luta nunca foram em vão.

Guardado, como aquelas coisas que ficam numa caixinha de sapato em cima do guarda-roupas, fica o que jamais deixará de ser importante para mim, mesmo que não signifique nada para mais ninguém.

23 de fevereiro de 2011

Tudo solto e sem regra

.
Bate o pão no leite com café. Vê cimento, areia e água. Fala de gesso, cal, bate a pá, sobe um pó. Vê pedra e suor, água e sol. Toda manhã pelo amanhã do amanhã. Pela noite da noite.

Tira a camisa, enxuga a testa e olha a saia. Ninguém mais viu? E ninguém trouxe a malvada? Sem um gole e sem baralho o dia é mais longo!

Feijão e arroz, batata e água. Baita sol. Tijolo que não termina. Tarde que não se vai. Risos, sonhos, futebol e carnaval.

Guarda tudo. Banho, jornal, cama e namorada. Um sonho sem regra. E o dia nasce de novo.

22 de fevereiro de 2011

Diálogo sobre o dia

.
– Por que ser tão lacônico?
– Porque as palavras são boas, mas o silêncio ensina.
– E você é assim o dia todo?
– E a noite também.

– Mas é de dia que tudo acontece, não?
– Mas é de noite que tudo faz sentido.

– É isso! E amanhã, dizem, vai ser diferente.
– Porque o sol sempre vem. Por isso, sim.

21 de fevereiro de 2011

Diálogo sobre a noite

.
– O sol só me interessa de duas maneiras, se pondo ou nascendo. No entanto, é verdade o que dizem sobre a boemia, isso de ela ser somente um sonho. Então eu perco o chão.

– Sei o que isso significa. Mas veja o meu caso: eu fecho os olhos e fica tudo bem! Respiro fundo e imagino a noite da noite da noite. Um efeito placebo que me revigora.

– Até quando?
– Até o sol não-nascer.

– No fundo, você está certo. Embora a razão seja minha.
– A verdade é que escolhi ser pra cima. E você, o certo.

19 de fevereiro de 2011

Perspectiva

.
Não é fácil, mas é útil e torna o mundo melhor. Aquele momento, como sugeria Gramsci, em que o velho ainda não morreu e o novo ainda nasce, é a causa e a solução de tudo.

Fosse o contrário, ainda estaríamos grunhindo em cavernas.

14 de fevereiro de 2011

Reduto

.
– Hey, fecha!
– Mas você...
– Fecha!

O mundo, quando escuro, é bem mais suportável. Se os sentimentos não têm cor, por qual motivo acender a luz? É simples assim. E não adianta vir com teorias contrárias, porque tudo, exatamente tudo, não passa de uma.

Pois está certo: me deixe com meu azul-preto e meus lençóis. Porque, no final das contas, o que realmente importa é só o que importa a cada um. E já estou cheio disso tudo, intempestivo como sempre.

13 de fevereiro de 2011

Limite

.
Até onde sei: até onde posso.

10 de fevereiro de 2011

Time

.
Pisando o mesmo chão todos os dias, me dou conta do quanto “the sun is the same in a relative way, but you're older” tinha outro significado quando ouvia lá atrás, aos 13, 15 ou 17.

Reouvir algumas músicas tem sido tarefa para leão.

9 de fevereiro de 2011

Love

.
Se é verdade que, em primeira e última instância, ele é o problema e a solução de tudo, então, de fato, o mundo gira ao seu redor. Do sangue que circula em nossas entranhas àquele que se derrama nas guerras: por trás de tudo, ele é o senhor dos impulsos.

26 de janeiro de 2011

Dois

.
Giuseppe e Anita Garibaldi, John e Yoko Ono, Lampião e Maria Bonita, Lancelot e Guyenivere, Júlio César e Cleópatra, Sartre e Simone, Perón e Evita, Tristão e Isolda, Tomas e Tereza...

Na real e na ficção, para o coração, dois sempre é um. E só se vê casa e abrigo, sendo a casa qualquer canto e o abrigo um abraço.

25 de janeiro de 2011

Petona

.
Sentei ao seu lado, próximo a televisão. Ela se levantou lentamente e deitou a cabeça em minhas pernas. Bocejou com a tranqüilidade canina de sempre (as mesmas lições de todo dia).

Passei as mãos em seu corpo macio.

“Os homens lá fora estão encenando!”, eu disse. Ela me olhou e, eu sei, entendeu o que eu quis dizer. “Eles se mostram preocupados com as causas nobres, mas, na verdade, só querem resolver os seus problemas”.

Amargurado, percebi que ela se entristeceu também. Os bichos entendem o que a gente diz, e, embora não falem a nossa língua, compreendem o que se passa. Estão sempre prontos para o diálogo.

Talvez por isso, resolvi mudar o tom, porque não gosto de entristecer ninguém com as minhas coisas. Pedi sua bolinha.

E tive a certeza de sempre: há sempre uma patinha na falta de uma mão amiga. Sempre.

21 de janeiro de 2011

A Aventura

.
Sentaram-se, as três, em dois puffs. Uma se apossou do controle-remoto, comentando sobre o filme que havia locado: “L'avventura é um dos melhores do Antonioni”. Outra lembrou-se do chocolate-quente, e a terceira apenas sorria. A primeira apertou a tecla pause, olhou para as outras e comentou: “Vocês estão visivelmente bem. Pode ser ilusão, mas é fantástico”.

O chocolate ficou pronto. Voltaram para a sala, jogaram almofadas pelo chão e sentaram-se sobre elas, visivelmente felizes. A primeira tentou uma última vez: “É abstrato demais, assim como a esperança. É difícil entender, e o que fica é o sentimento mais difícil que conheço: a saudade”.

As três se entreolharam. Alguém tomou voz: “Aperte o play!”.

19 de janeiro de 2011

Estrada

.
Escolha, honestidade e amor: não nos resta mais nada. É preciso cumprir o itinerário.

Allegro ma non troppo: o tempo não é ruim. Traz calos e rugas, mas as maiores verdades estão nas coisas que marcam.

14 de janeiro de 2011

Ralo

.
Deixou a água cair, jogou os cabelos para trás, alisou pescoço e barriga. Sentada, derramou o xampu. Ergueu um dos braços para girar o registro e aumentar a intensidade da ducha, pôs a cabeça de novo na água e tentou, por um longo tempo, ouvir o peito bater.

Em silêncio, prestou atenção em suas entranhas como há muito não fazia; e percebeu que, ali dentro, tudo repetia uma ordem  que, ao contrário de todas as outras, era apaziguadora e suave.

Tempos depois, levantou-se, enxugou-se e foi para o quarto. Leve, de frente ao espelho, olhou o corpo nu, fez algumas poses e sorriu. Ligou o som. Vestiu-se indo à cozinha.

Quando o leite se derramou além da capacidade do copo, riu. O normal seria sentir raiva, mas, dessa vez, apenas riu. Abriu o pacote de torradas e a primeira se quebrou. O normal seria dizer algum palavrão, mas de nada adiantaria: a primeira sempre se quebra, é normal. Então riu.

Mordeu-a e tomou um gole do leite olhando para o teto, para as paredes e para os móveis da casa. Tudo era seu! Mas o que importava?

Havia percebido que morder a torrada depois do banho, às vezes, é o suficiente. Agora, encontraria a si nas coisas simples. Ao olhar seu vaso chinês, notou novas flores. Já fazia certo tempo que estavam ali, mas só agora havia percebido.

Só agora, sem o peso deixado no ralo.

8 de janeiro de 2011

Espelho um do outro

.
Manter o corpo fino e as idéias jovens: envelhecer num mundo que cobra a beleza não é fácil.

6 de janeiro de 2011

Varal

.
um pássaro
camisas, camisetas, pulôver
não vem o sol
não saem

um voa
corta o céu, abre asas
o sol se vai
a noite vem

as idéias de molho
agora
num varal de idéias

5 de janeiro de 2011

2011

.
Outro ano. Aqui está tudo bem e espero que aí esteja também!

Até breve!