31 de maio de 2010

Circunstância

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Continua uma lástima a letra que brota da máquina datilográfica dos partidões e boas-praças do adult world. Em todo mapa, e, tomado por exemplo, onde moro.

Nas instituições várias, privadas, públicas, os mesmos de sempre continuam dando as cartas, instigados, porém, dessa vez, com um ou outro que vem de fora. E não por vir de lugar-outro, o que significa sair do lugar-comum, mas por trazer trejeitos novos.

Enquanto isso, minha geração envelhece à sombra de outras. E outras ainda, imersas no porvir, decerto envelhecerão.

Não é falta de gente, de trabalho, de idéias, de conceitos. É o velho sistemão que atrapalha o girar da roda e obriga o mundo a ser assim, concomitantemente adulto e infantil.

Isso é triste, mas não só isso. Porque até o mais inerte e incapaz trabalhador não deixa de ser humano por torna-se antiquado e inapto. Ele também precisa de salário. As pessoas continuam a viver independente do que diz ou pratica o mercado.

Também é não ter como fazê-lo fazer outra coisa. Mas, aí, o buraco é ainda mais embaixo.

O que me dá a certeza de um mundo inconseqüente: tira a vida de todos para ter uma própria. E só se importa com a sua, que é, na verdade, a de todos. Sua e minha, inclusive.

Guiado e redigido por internet e laptop. Pensado e escrito em máquina datilográfica. Estranho diapasão, mas, de verdade, é o único.

30 de maio de 2010

Backstage

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Saber detalhes de backstage traz certezas ingratas. No fundo, tudo é trabalho, compra-e-venda, dinheiro, coisa muito pouca para o sonho adolescente e a paixão por idéias da arte.

Muito melhor ouvir o disco depois de feito, admirar a capa dos profissionais. Ler o livro impresso. Porque os pormenores de como são feitos são cheios de pá de cal.

Da idéia ao projeto há, entre tantas coisas, orçamento, captação de recursos, viabilização, planejamento, execução de mídia, distribuição, cronogramas, direitos autorais e de imagem, contratos. E, claro, um sem-número de interesses.

O que deixa a certeza de que nossos ídolos são de carne e osso. E, alguns, têm os pés de barro.

26 de maio de 2010

Algum momento de "Quando se descobre"

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A feiúra não está na casualidade, mas na segmentação. A fragmentação do mundo é sua feiúra, o acesso fácil para a esfera da beleza, e só ela importa, mesmo que seja a beleza de brincar de ser feliz, a de esperar pelas festas de final de ano ou pelo ressurgimento do santo deus.

Só que Meirelles, ela enfim compreendeu, cansou-se desta brincadeira quotidiana. Na verdade, e isso é o mais importante, ele descobriu como é seu arco-íris imaginário: preto e branco. Ou cinza, que é a mistura das duas cores. O resto é apenas fantasia.

25 de maio de 2010

Memória

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O que lembro, tenho.

Numa frase o resumo de tudo. Porque Guimarães é dos grandes e consegue, não só por isso, dizer muito em pouco.

21 de maio de 2010

Certo momento de "Vermelho Granado"

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Lá fora estava a rua, refletindo feito um espelho o céu demasiado cinza. O ar abafado e sem umidade me fez tossir, enquanto o calor se juntava ao frio dos transeuntes. O choque térmico me trouxe a certeza de que alguém estava no lugar errado: ou eles ou eu.

20 de maio de 2010

Vir-a-ser

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If you want to promote your gig, go ahead.

Vão dizer: não! Vão dizer: sim! Mas não se importe.

Contanto que você o banque se, por ventura, não for o que imaginava.

19 de maio de 2010

O verbo

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Quando me volta à seda da pele uma série de vontades adolescentes, não tenho a menor dúvida de que ainda estou aqui. E me sinto bem por não ter sucumbido à vida adulta. Porque é na idéia de ter, e não em ter, que reside, no fundo, os prazeres.

Em outras palavras, numa mão há esperança e na outra razão: a última é o sujeito, mas é a primeira que serve-se de verbo.

18 de maio de 2010

Dois momentos de "Concomitante"

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O "inadequado" é minha idiossincrasia e a matiz de meu coração.

Estas pessoas, meu compadre, só repetem aquilo que se lê nos jornais, decoram clichês e não percebem a grande sacada: através dos séculos, remontam seus medos e não saem dos lugares. Não se assemelham a pontes, mas a peões de madeira.

17 de maio de 2010

Outside impression

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Minha amiga Ana Rocha escreveu um post sobre este blog. Sua impressão particular sobre as impressões aqui publicadas.

Achei muito bom e fiquei envaidecido!

Seus textos são ótimos e também podem ser visitados aqui e aqui.

Aninha é arte educadora e atriz. A conheci no trabalho, mas a afinidade acabou por levar a gente para o além-do-ofício, o que, nesse caso, é perfeito.

13 de maio de 2010

O barco

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Imagino-me no meio do mar sobre um barquinho de pesca. Faz frio, muito frio, e me irrito com a demora em fisgar alguma coisa que me agrade. Quero voltar logo à terra firme.

Fechado na campânula dos dias, o tempo passa depressa. O sol se põe e me sinto estranho. Tenho a nítida impressão de que o mundo gira cada vez mais rápido, e mais rápido que eu. E nada de peixe.

É quando me vem à cabeça o óbvio e os dias começam a passar devagar: se o barco está à deriva, de nada vale ter pressa.

No fundo, é ao sabor do acaso que retornarei ou não. A não ser que eu tenha um remo. Mas, como sempre, me esqueci e não me preparei.

Não há nada no oceano senão o barco e eu.

Acendo cânhamo imaginário para sedar meus pensamentos, me deito, coloco os pés para fora e espero. Se é só o que me resta, é mais do que preciso.

Não seria se fosse pouco.

11 de maio de 2010

Proporção

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Tinha 8 anos quando pus meu dedo úmido no caminho que formigas trilhavam na parede de casa. Elas se perderam, e eu descobri encantado o impacto que um obstáculo causa na vida desses pequeninos.

Se mantivessem a calma e dessem a volta ao redor do círculo molhado, cujo diâmetro não passava de 5 cm, poderiam dar seqüência à rota tranqüilamente, sem tormento, profusão, esbarrões.

Tristemente, não conseguiram. Só tempos depois, embora minutos, mas que devem ser uma eternidade no tempo-espaço delas, e a muito custo, se reorganizaram rumo ao objetivo.

I have the impression that, saved the rightful proportions, the adult world isn´t different: um dedinho de criança já é o suficiente para desprender dos trilhos a consciente e involuntária marcha humanitária, que se vende sabedora de seu caminho, imersa na rotina entediante de carregar nas costas o trabalho diário de viver.

10 de maio de 2010

O lugar e a verdade

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Seria melhor se deixassem tudo para trás! Mas, por ser a vida uma repetição involuntária de conveniências, permanecem inerte. Se a cada amanhecer uma pergunta, a cada amor uma explicação. O que significa que, fosse só o coração, tudo seria mais fácil e prático.

Mas não, há sempre uma ponta de razão rodeando a casa de deus. E teoria para tudo! E aí fica assim: ela lá e ele aqui. Embora, no fundo, ela também está aqui e ele lá. Porque não há tempo-espaço quando se trata de gostar de verdade.

9 de maio de 2010

O cansaço e o guarda-chuva

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Depois da tormenta, o coração venceu o cansaço. Choveu forte, bastante, por dias, meses, anos. Tantos afazeres, tanta coisa. Viver dá trabalho.

Parecia que não ia dar certo, que nada ia se resolver. Porque ela estava exausta de não tê-lo por completo. E ele chateado por ela não compreender o motivo.

Havia uma pedra no caminho, sempre, em cada recriar, renascer, a cada café-da-manhã. Ele fazia a barba depressa, ela contava os problemas do dia anterior, ele prometia pensar no assunto, ela dizia saber que não era verdade.

Mas, à noite, os lençóis se desarrumavam por inteiro, o que lhes dava a certeza de que, por mais difícil que fosse ganhar o pão, ainda havia motivos.

"Motivos". Essa palavra tornou-se forte, muito forte. E foi nesse exato momento que tudo ficou mais claro.

Foi quando ele se lembrou de um velho ditado que diz: "é na tempestade que se conhece o guarda-chuva!".

E assim, na manhã seguinte, enquanto ela contava suas desventuras, ele a abraçou forte e disse: “obrigado por se abrir e me abrigar”.

O cansaço atravessou a porta e se foi. E o coração os abrigou do frio que, porta aberta, invadiu o lar.

8 de maio de 2010

O fio da vida e o coração

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Longe, tinha a impressão de que não conseguiria jamais cumprir o destino que traçara desde cedo. Porque o fio com que a vida tece os amores é extremamente forte, mas invisível. Assim, sabia que era profundo e inabalável o que sentia, mas não mantinha esperança.

Antes havia cartas, depois e-mails, e agora mensagens pelo celular. A vida tinha modernizado tudo, mas ambos, como se parados no tempo, conservavam o coração lá atrás, quando, ainda crianças, olhavam-se inocentemente. Pois o amor não reconhece tempo, nem o conta.

E agora só restava a vida adulta, contas, trabalho, demagogia, supermercado. O calendário corria e tudo permanecia igual, imerso na obsolescência quotidiana. Mas, no fundo, não era bem assim. Contanto que ele visse de outra forma.

Foi quando entendeu o que se passava e deitou, tranquilo, para dormir. Sem pensar. Porque, é bem verdade, já havia se convencido de que as pessoas não saem, nunca, da nossa vida. E que a teria para sempre, mesmo que não a tivesse nunca mais. Ela estava dentro de si. E ele sentiu-se perto.

7 de maio de 2010

A viagem e o retorno

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Vinte anos mais jovem, ela o admirava por sua capacidade incrível de dar atenção às coisas simples e práticas. Engajada em fundamentar seus sentimentos, não dizia nada sem citar Rimbaud, Rainer Maria Rilke, Baudelaire.

Ao que ele a repreendia, dizendo ser preciso, antes, saber cuidar de um jardim. A poesia, ao contrário de muitas coisas, deve ser antes prática, e só depois teórica.

Ele, duas décadas mais experiente, a admirava por não temer o futuro. Engajado em buscar conforto para repousar seus anos vindouros, não dava sequer um passo sem calcular a conta no banco, o seguro da casa, as taxas abusivas nas prateleiras dos supermercados.

Gostava de ser assim, não era brigado com a vida, sentia-se seguro. No entanto, dizia a si que, se ela era ele vinte anos antes, no fundo, não queria que ela ainda o fosse vinte anos mais tarde.

Porque, é bem verdade, sabia que estava ficando velho, chato e cinza.

E que nenhuma cor, por mais âmbar que fosse, traria comoção maior que a juventude teórica de uma alma apaixonada por livros e poetas. Porque, do ouro, de nada vale só o brilho.

Talvez por isso se gostavam tanto. Era ela sua viagem e ele, para ela, um retorno.

5 de maio de 2010

A memória e a calma

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O que sobrava a ele faltava a ela: calma para sair das situações embaraçosas da vida. Em contrapartida, ele não tinha o que era das maiores virtudes dela, embora um tormento: uma memória irretocável e cristalina.

Esquecia-se, ele, de quase tudo. Jurava coisas a si num dia e no outro não se lembrava ao certo o quê. Porque sua lembrança vaga do dia anterior aparecia e sumia repentinamente, como se repousasse numa onda AM de rádio ruim.

Por isso, talvez, tinha medo da memória dela e de como ela trabalhava com os dados que ele oferecia. Se falasse algo de coração, mas mudasse de amor no dia seguinte, poderia falar outra coisa e se passar por controverso. O que era terrível.

Não era diferente com ela, porém. Ter tudo gravado nessa grande lousa que é a memória feminina a chateava! Porque nada saía de dentro de si, o que não lhe deixava descansar. Afinal, toda a lembrança da vida lhe acompanhava a toda hora, por onde quer que fosse.

Não se anda leve quando se carrega nos ombros o fardo de lembrar-se de tudo.

Por isso, talvez, tinha medo da calma dele. Numa destas, friamente, ele poderia mudar sua mira para outro alvo, cansado de não poder se esquivar da terra implacável da memória de uma mulher.

Às vezes, é bom não ser lembrado.

É precisamente essa briga entre a calma e a memória que degenerou no inevitável: ela não se esquecia do amor e ele o esperava num outro tempo.

Foi quando descobriram, juntos, que só há um remédio para a dor que essa disputa traz: ter a certeza de que só parando o tempo é possível deixar a ambos felizes. Porque, com o relógio parado, nem a memória nem a calma tem vez. Elas não existem.

Daí pra frente, bastou descobrir como fazer isso.

E, ao descobrirem, bastou.

4 de maio de 2010

Cinco por quatro

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Um copo plástico de café pela metade. Um telefone que toca sem parar. Libretos espalhados sobre a mesa. Durex, grampos e grampeador. Papéis e mais papéis...

Notas, requisições, discos e livros. O último Ideário debaixo do celular. Uma cuia de chimarrão, chaves, secante de cobalto, cola bastão e um porta-treco repleto de tudo.

Cordas de violão. Sulfites Allmax. Uma máquina de xérox que cobra novo cartucho. A planilha do mês aberta, avisando que ainda há dias e dias para que maio termine. Giz escolar.

A porta aberta mostra o pátio solitário de fim de expediente, exalando litost e fadiga, coisa típica de uma terça com cara de segunda. Fagner no som. MSN piscando, arquivos anexos prontos para envio e a página de postagem do blog esperando que eu termine.

Um inseto entra, dá um ou outro rasante e se vai, levando consigo um pouco de mim. Estou e não estou, às vezes penso que permaneço, em outras que nunca estive. Lembro de gente, pessoas, da noite passada, da outra noite, de outras coisas, do que vivi, do que deixei de viver, da correria e de tudo, que é muito e é pouco.

Porque sempre é bastante e exaustivo, mas sempre é o mínimo pro que é pra ser, para o que deveria ser, para valer a pena.

O ventilador gira matematicamente e o relógio também. Conta o tempo com a frieza das máquinas. O ar vai se esfriando, o sol desce, o dia levemente cai e a noite aos poucos se anuncia.

E eu, parado, sentado, meço a inércia diante dos fatos e me cobro motivos.

Porque, daqui, só eu não sou uma coisa.